Qu’espesso manto,
branco, gelado,
cobre os outeiros,
a serrania;
e pelos campos
e pelo prado,
como um sudário,
longo se amplia!
Verdes pastagens,
lindas, outrora,
como tapetes
aveludados,
míseros, tristes,
mostram-se agora,
nuas, despidas,
dos seus gramados.
Aos duros tratos,
rudos, abruptos,
os cafezais
choram lembranças
das níveas flores,
dos rubros frutos,
doces esp’ranças.
As tenras, novas,
viçosas canas,
pendem, mirradas...
Oh! desventura!
Com verdes palmas
crescendo, ufanas,
murchas agora
sem ter doçura!...
E os rios gelam...
Morrem os peixes,
morrem as aves,
morrem as flores!...
Do flavo trigo
dourados feixes,
quando hão de tê-los
os segadores?
As áureas flores
do algodoeiro,
que a branca felpa
no seio têm,
quando há de vê-las
o fazendeiro,
nos verdes ramos
brilhar, também?
Não terão pasto
mansas ovelhas,
que os vastos campos
não têm verdores;
em balde, em balde,
destras abelhas
por esses prados
buscarão flores!
Morrem de frio
as criancinhas
sem terem pano
para vestir;
sem lã, sem leite
das ovelhinhas,
que desconfortos
hão de sentir!...
Deus de piedade!
Deus de clemência,
Olhai da terra
essa tristeza!
Da Primavera
c’oa florescência,
cobri d’encantos
a Natureza!
E as novas flores,
os passarinhos
e as criancinhas
vos bendirão;
pelas devesas,
pelos caminhos,
hinos cantando
de gratidão!