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1854–1932

Fatalidade!

Delminda Silveira de Sousa

Tão moço ainda, e no cabelo escuro tramas de prata s’enredando já! Pobre mancebo!... Triste palinuro, no mar da vida quão perdido está!

Viu a Sereia... era mulher formosa, tinha nos olhos lindo azul do Céu nos frescos lábios o carmim da rosa, louro o cabelo qual dourado véu;

Viu a Sereia... doce canto ouviu-lhe, a voz tão meiga na su’alma ecoa; da mão pequena a maciez sentiu-lhe, era poeta... docemente amou-a!

“Vem, disse a bela, no meu leite verde contigo eu quero adormecer, sonhar! Vê no Infinito que no mar se perde, a linda estrela que nos vai guiar!

O mar é verde, de coral vermelho mimosos ramos lá se ocultam mil; o maré lindo, cristalino espelho o Céu d’aurora a retratar gentil!

Vem, que eu te amo, sonhador d’encantos! Vem que te oferto meu constante amor; — aqui tens perlas, que não são de pranto, — e tens suspiros, que não são de dor!”

Pobre poeta! Na manhã da vida o doce canto da Sereia ouviu! Mas se era um anjo essa mulher querida... ao dela o triste o seu destino uniu!

Ele era moço; ela, mulher formosa, a voz tão meiga, tão singela e boa! O Céu nos olhos e nos lábios, rosa... era poeta, docemente amou-a!

Porém qual nuvem de manhã ridente, desfez-se um dia essa ilusão falaz! Pobre Poeta! sobre a mão tremente, pendida a fronte cismadora traz!

Ah! quem diria que a traição pudesse num peito d’anjo se abrigar possante, e sem piedade a retalhar viesse do meigo vate o coração amante?!...

Pobre poeta, na manhã da vida, tramas de prata no cabelo tem! Ah! foi-lhe o sonho uma ilusão mentida que amor lhe fora uma ilusão também!

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