O sol ia morrendo
por trás do serro azul, suavemente;
tintas de rosa e ouro no poente
gentis se confundiam como as flores
nas extensas campinas arrelvadas
de grama veludosa.
No verde laranjal, níveos primores
abrem à luz da tarde carinhosa.
A sós, à grata sombra dos verdores
que a Primavera como um Céu bordara
d’áureas boninas frescas e mimosas,
eu sonhava, e o meu sonhar tão doce,
qual se arroubo de amor celeste fosse,
minh’alma arrebatava embevecida
longe, longe da terra!
Na ideal vida
eu não sentia os fundos dissabores
que aqui nos pungem... não!
— só a saudade — do coração martírio,
— doce e branda —
como o sorrir que ao pranto se mistura,
o seio me inundava!
Mas, eis que voz sentida
dentre as balseiras de silvestres rosas,
veio quebrar-me o doce encantamento,
qual se fora de brisas suspirosas
múrmuro alento...
A fronte alevantei; já do poente
as cores desmaiavam...
lágrimas d’ouro pelo val’brilhavam
no seio das cecéns;
só uma estrela,
uma estrela formosa lá do ocaso
velava-me o sonhar,
e a meiga rola, a rola entristecida
co’a terna voz tão dúlcida e sentida!
E eu despertei; minh’alma sequiosa,
ai! fora aos Céus haurir suave néctar
que a terra já não tem!...
Porém, volvendo, — meiga sensitiva,
confrangeu-se e... chorou!
— nos Céus ficara
o amor de minha Mãe!...