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1854–1932

Êxtase

Delminda Silveira de Sousa

O sol ia morrendo por trás do serro azul, suavemente; tintas de rosa e ouro no poente gentis se confundiam como as flores

nas extensas campinas arrelvadas de grama veludosa. No verde laranjal, níveos primores abrem à luz da tarde carinhosa.

A sós, à grata sombra dos verdores que a Primavera como um Céu bordara d’áureas boninas frescas e mimosas, eu sonhava, e o meu sonhar tão doce,

qual se arroubo de amor celeste fosse, minh’alma arrebatava embevecida longe, longe da terra! Na ideal vida

eu não sentia os fundos dissabores que aqui nos pungem... não! — só a saudade — do coração martírio, — doce e branda —

como o sorrir que ao pranto se mistura, o seio me inundava! Mas, eis que voz sentida dentre as balseiras de silvestres rosas,

veio quebrar-me o doce encantamento, qual se fora de brisas suspirosas múrmuro alento... A fronte alevantei; já do poente

as cores desmaiavam... lágrimas d’ouro pelo val’brilhavam no seio das cecéns; só uma estrela,

uma estrela formosa lá do ocaso velava-me o sonhar, e a meiga rola, a rola entristecida co’a terna voz tão dúlcida e sentida!

E eu despertei; minh’alma sequiosa, ai! fora aos Céus haurir suave néctar que a terra já não tem!... Porém, volvendo, — meiga sensitiva,

confrangeu-se e... chorou! — nos Céus ficara o amor de minha Mãe!...

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