— Colega, vou narrar-te a causa poderosa Que de mim fez, num dia, aluna estudiosa. Voltara a Primavera: os lírios, os jasmins, E muitas flores mais, cobriam os jardins.
A linda trepadeira, em verde cortinado, Formava deleitoso abrigo perfumado. Vinha rompendo o sol; cantavam passarinhos, E já pelos rosais se viam novos ninhos.
Eu despertara cedo, e no estudo cuidava... Porém, que atroz preguiça então me dominava!... Nessa disposição, os livros desprezei, E o puro, livre ar, gostosa procurei.
Havia no jardim tanta frescura e encanto... Essas flores gentis me cativavam tanto... Entrei; chegam também, voando, mil abelhas, O seio a procurar de flores mui vermelhas.
Notei-lhes, desde logo, a grande atividade, A ordem, o labor, e essa fraternidade Que tão firme entre nós, assim, quisera ver! Oh! que melhor lição eu poderia ter
Para o trabalho amar e à escola dar valor?! “Sim! — o livro é um jardim: cada letra uma flor, Que da ciência o mel, em si, puro, contém. Abelhas, — somos nós; — nós que vamos, também,
Doce mel extrair às letras reunidas, — Às letras — geniais ideias florescidas!” Isto pensei, então, e esse pensamento Firmou-se na minh’alma, e deu-me um novo alento;
Depois dessa lição tão bela e proveitosa, Chamaram-me na escola — aluna estudiosa! —Tudo isso é muito belo! — é mesmo — singular! Porém, escuta agora o que te vou contar:
Também eu despertara, um dia, preguiçosa; Era linda manhã, — uma manhã radiosa! O outono havia já amanhecido o fruto; Era belo de ver-se o salutar produto,
Os ramos do pomar vergando para o chão! No verde laranjal, o ouro em profusão! Que doces cambucás, que pêssegos macios! Contraste encantador — maracujás sombrios
A púrpura das romãs, ali, desafiando! O passaredo vinha, alegre chirleando, Com trilhos de ventura, em coro fraternal, Haurir em taças d’oiro o néctar divinal!
Eu, tudo observava, atenta, curiosa, À sombra d’amoreira, esplêndida, frondosa. Nisto, um bando notei de lindas borboletas No ar a voltejar sutis, irrequietas;
E, por entre o verdor dos ramos, enleados Uns novelinhos vi, à luz do sol, dourados. Um deles desprendi com máximo cuidado: Era um louro casulo, um mimo delicado!
Ora, minha lição da véspera versara Sobre — a origem da seda: — a seda bela e cara, Que d’Europa nos vem, — de tanta utilidade! Eu, comigo pensei: — é belo, na verdade,
O estudo universal da grande Natureza! — Que fontes de prazer, de glórias, de riqueza Aos homens oferece em cada maravilha! Oh! a ciência é luz que vem dos Céus, e brilha
No pensamento nosso, em nossa inteligência! — Se ao pequenino inseto, a sábia Providência, O trabalho ensinou para nos ser exemplo, Colega! — seja a escola o mais sagrado templo,
Onde o espírito nosso em tépido agasalho, Ganhe, à luz do saber, — a glória do trabalho! (Apertam-se, efusivamente, as mãos.)
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