Pela estrada caminhava
Um pobre velho mendigo
Triste, sem pão, sem abrigo,
Oh! que amarguras provava!
Como a lã da branca ovelha
Eram brancos seus cabelos,
Seus olhos, outrora belos,
Da luz já perdem a centelha.
Quase cego, dos caminhos
Mal vê abrolhos no chão;
Mas dentro do coração
Bem sente agudos espinhos!
E lentamente seguia
Ao seu bordão arrimado,
Quando bem perto, espantado,
Vozes ouviu de alegria.
Era um bando de crianças
Que da escola já voltavam,
E à frente dele cantavam,
Com ginásticas e danças.
Quis afastar-se o velhinho
Tateando com o bordão;
Porém, tropeça, e no chão
Cai de bruços, pobrezinho.
Mil gargalhadas formando
Uma infernal gargalhada.
Da turba desapiedada,
Vai nos ares reboando!
Eis que do grupo impiedoso
Um menino, — alma sublime,
Ao triste que a dor oprime
Estende a mão caridosa:
“Levantai-vos, pobre amigo!
Disse, e a meu braço encostado,
Levar-vos-ei, amparado,
De caridade a um abrigo.”
Os companheiros que viam
Tão bela ação, comovidos,
Vêm, um a um, recolhidos,
E ao bom colega auxiliam.
Chorando, ergueu-se o mendigo,
Chorando de gratidão,
Que achou no mundo um irmão
E amigos mil, num amigo.
No meio da criançada,
A destra o velho estendendo,
E os olhos sem luz erguendo
Do céu à cúpula anilada,
Assim fala: “Oh, filhos meus!
Como uma graça infinita
Sobre vós desça, bendita,
Do céu a bênção de Deus!”
“Eu me vou ao meu destino
Bem consolado, é verdade,
Pois achei a caridade,
No coração dum menino!”