Skip to content
1854–1932

Canção do marítimo

Delminda Silveira de Sousa

Nas ondas serenas meu barco flutua, que o brilho da lua aclara o parcel;

estrelas brilhantes as nuvens do espaço colhendo em regaço te formam docel.

Qu’eu cante, embalado da brisa dos mares, meus fundos pesares, meus sonhos gentis;

saudade, saudade do nauta no sonho, mostrai-lhe risonho, seu lindo país.

Ah! longe! bem longe, deixei meus amores! Bem longe, entre flores, distante do mar!

Mas, longe, qu’importa? si o peito extremoso, do nauta saudoso, também sabe amar!

Nasci lá nas plagas gentis, brasileiras, que brisas fagueiras meu berço embalaram!

Aos ternos cuidados de mãe carinhosa, da infância ditosa meus dias passaram.

Cresci nas montanhas, por entre os rochedos; saltei nos penedos qual gamo a brincar;

ouvi da tormenta, à voz retumbante, o cedro gigante gemer, e tombar!

Às vezes, se a lua, surgindo do monte, na límpida fonte seu brilho esparzia,

meus louros cabelos nas águas mirava, e — um anjo — cuidava, que ali me sorria!

Oh! água, que a face risonha estampavas, porque suspiravas de um anjo ao sorrir?

Acaso sabias que o pranto viria cruel, algum dia, meu riso banir?...

Ai! longe, bem longe, deixei meus amores, bem longe! e entre flores, distante do mar.

Mas, longe, qu’importa? si o peito extremoso do nauta, saudoso também sabe amar!

Lá dorme, formosa, o meio das flores, a terra de amores, — meu berço gentil!

Aragem que passas, escuta o meu canto, recolhe o meu pranto num beijo sutil.

“No mar argênteo, meu batel resvala, qual flor qu’embala manso lago azul; chorem as ondas namoradas queixas, e gema endechas brando arfar do sul”.

Brisa suave que ao passar na serra, da minha terra desbrochaste as flores, lá, sob a copa a palmeira verde meu lar não viste? meus gentis amores?...

Oh! lua meiga que no Céu divagas, tu que me afagas carinhosa assim, lá nessas praias onde a vaga expira, dize, suspira meu amor por mim?...

Rútila estrela, que, ao morrer das tardes, tantas saudades me derramas n’alma, lá, nessas plagas que o luar prateia, dize, vagueia terna virgem incalma?...

Dorme serena, meiga virgem bela, que o nauta vela n’amplidão do mar, e, embora às iras da procela afeito, seu rude peito também sabe amar!

Ah! dorme, ó virgem! meu batel fagueiro, por ti, ligeiro sobre o mar desliza; minh’alma geme no gemer das águas, fogem-me as mágoas, no fugir da brisa.

Longe, bem longe, meu amor, descansas, lá, sob as franças da palmeira em flor, e o pobre nauta, n’amplidão dos mares, canta pesares de saudoso amor!

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
Canção do marítimo · Delminda Silveira de Sousa · Poetry Cove