Tenho fio! Ardo em febre!
O amor me acalma e endoida! O amor me eleva e abate
Quem há que os laços que me prendem quebre?
Que singular, que desigual combate!
Não sei que ervada frecha
Mão certeira e falaz me crava com tal jeito
Que, sem que eu a sentisse, e estreita brecha
Abriu; e por onde amor entrou meu peito.
O amor me entrou tão cauto
O incauto coração, que eu nem senti que estava
O recebendo, recebendo o arauto
Desta loucura desvairada e brava.
Entrou, e apenas dentro
Deu-me a calma do céu e a agitação do inferno.
E hoje — ai! de mim! Que dentro de mim concentro
Mágoas e desgostos num lutar eterno.
O amor subjuga, vede:
Prendeu-me. Em vão me esforço e me debato e grito,
Em vão me agito na apertada rede,
Mais me embaraço quanto mais me agito!
Falta-me o senso, esmo
Como um cego a tatear busco não sei que porto,
E ando tão diferente de mim mesmo,
Que nem sei se estou viva ou se estou morta!
Sei que entre as nuvens paira
Minha fronte e meus pés andam pisando a terra;
Sei que tudo me alegra e me desvaira
E a paz desfruto, desfrutando a guerra.