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1854–1932

CANÇÃO

Delminda Silveira de Sousa

Tenho fio! Ardo em febre! O amor me acalma e endoida! O amor me eleva e abate Quem há que os laços que me prendem quebre? Que singular, que desigual combate!

Não sei que ervada frecha Mão certeira e falaz me crava com tal jeito Que, sem que eu a sentisse, e estreita brecha Abriu; e por onde amor entrou meu peito.

O amor me entrou tão cauto O incauto coração, que eu nem senti que estava O recebendo, recebendo o arauto Desta loucura desvairada e brava.

Entrou, e apenas dentro Deu-me a calma do céu e a agitação do inferno. E hoje — ai! de mim! Que dentro de mim concentro Mágoas e desgostos num lutar eterno.

O amor subjuga, vede: Prendeu-me. Em vão me esforço e me debato e grito, Em vão me agito na apertada rede, Mais me embaraço quanto mais me agito!

Falta-me o senso, esmo Como um cego a tatear busco não sei que porto, E ando tão diferente de mim mesmo, Que nem sei se estou viva ou se estou morta!

Sei que entre as nuvens paira Minha fronte e meus pés andam pisando a terra; Sei que tudo me alegra e me desvaira E a paz desfruto, desfrutando a guerra.

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CANÇÃO · Delminda Silveira de Sousa · Poetry Cove