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1854–1932

A tempestade

Delminda Silveira de Sousa

Tarde d’estio; mais de meio agora, pela azul vastidão o sol caminha, rebrilhando mar em frisas d’ouro. O vento estivo vai de manso e manso

afrouxando, e se extingue lentamente, como o arfar de um peito moribundo. A calma cresce, e vai-se, pouco a pouco, como que adormecendo a Natureza.

Silêncio faz-se, alfim; não treme a relva, nem já pipilam meigas avezinhas: O homem mesmo, grave e pensativo, como que se recolhe aos seios d’alma...

— Súbito estruge no Infinito opresso, rola o trovão, a reboar nos vales, outra vez o relâmpago fugace risca tortuoso o espaço escurecido.

E rebrama o trovão... após instantes cai em torrentes fluvial tormenta. Na imensidão do mar encapelado oscila a nau, e pelo espaço plúmbeo,

veloz alcíone os ares atravessa. E ruge o austro as vagas estendendo em alvíssimos velos encrespados que sobem pelas altas penedias

lambendo as fragas com leonino afago. Na solidão das matas ensombradas vergam a fronde as árvores robustas e desprende-se o fruto e as flores caem.

Sacodem aves a plumagem branda, e os passarinhos procurando abrigo na espessura dos ramos se aconchegam. Já pouco a pouco amaina a ventania...

rareia alfim a fluvial tormenta, e, manso, manso, serenando o aspecto, despe o Infinito o acinzentado manto, e vai mostrando o azul que a noite veste.

Aclara-se o Oriente, a lua cheia vem surgindo gentil de sobre o monte; brilha da selva a mádida folhagem, banhada do luar sereno e puro.

No quedo mar s’espelha o firmamento, voga o batel, o marinheiro canta, que à flor das meigas ondas, bonançosa, brilhante faixa d’ouro a lua estende!

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