Uma velhinha
Mui pobrezinha,
Quando eu passava,
Junto da escola
Pedindo esmola,
Sempre encontrava.
Eu nada tinha
Que à pobrezinha
Pudesse dar,
E, quando a via,
Só lhe sorria,
Sem lhe falar.
Mas, cogitava...
Mas, desejava
Dar-lhe um presente,
Que lhe agradasse,
E que a tornasse
Leda, contente!
Todo bordado,
(Mui delicado!)
Um avental,
Com gosto e jeito,
Eu tinha feito
Pelo Natal!
Como regalo
À velha dá-lo,
Logo cismei:
Era Natal...
O avental
lhe destinei!
Mas, no bolsinho,
Escondidinho,
Pus — um mil réis;
Daquela prata
Sonora e grata
Que conheceis.
Depois, dobrado,
Com fita atado,
Num papel fino,
Qualquer dissera
Que ele viera
Do Deus-Menino.
Quando à velhinha,
Tão pobrezinha,
Ofereci
Essa teteia,
Ela receia...
Depois, sorri!
Lá, no boisinho
Escondidinho,
O meu segredo,
A pobre o sente,
Toca-o, fremente,
Co’o fraco dedo!
E seu semblante
Vi, radiante
Dum gozo santo!
— A esmola dada,
Dissimulada,
Tem mais encanto!