O que Deus faz é bom; e para tal provar,
Sem ser preciso ir do universo ao fim,
Temos a abóbora vulgar.
Um rústico dizia assim:
— “Ora, tamanho fruto em ramo tão delgado!
Das cousas o Criador, em que meditaria,
Quando a esse baraço um fruto tal prendia?
Eu, por mim, tê-lo-ia pendurado
A um grande carvalho; o que, seria
O negócio mais belo e acertado:
Tal árvore, tal fruto, — eis o ditado.
Garo, que pena foi — se fosses do conselho
D’Aquele de quem fala o cura ao Evangelho,
Tudo fora melhor; ora, isto, por exemplo:
Bolota, que menor que um dedo é,
Por que nesse baraço não se vê?...
Deus se menosprezou! Quando contemplo
Esses frutos assim, mal colocados, oh! —
Parece-me que houve um quiproquó!”
E uma tal reflexão confunde o nosso homem;
— “Não se pode dormir se a mente tem trabalho;”
Disse Garo, e deixando ideias que o consomem,
Deitou-se, e adormeceu à sombra dum carvalho.
Uma bolota, então, sobre o nariz lhe cai;
Garo desperta, e a mão o rosto vai palpar;
Preso à barba inda encontra o fruto, porém, — ai;
O magoado nariz deu-lhe um novo pensar!
— “Sangue! — exclama, ai de mim! desgraçado,
Se d’árvore caísse um corpo mais pesado!
Uma abóbora... que azar!...
Deus não o quis... compreendo! — ele teve razão!”
E bendizendo o Criador, então,
Garo voltou ao lar.