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1854–1932

A bolota e a abóbora

Delminda Silveira de Sousa

O que Deus faz é bom; e para tal provar, Sem ser preciso ir do universo ao fim, Temos a abóbora vulgar. Um rústico dizia assim:

— “Ora, tamanho fruto em ramo tão delgado! Das cousas o Criador, em que meditaria, Quando a esse baraço um fruto tal prendia? Eu, por mim, tê-lo-ia pendurado

A um grande carvalho; o que, seria O negócio mais belo e acertado: Tal árvore, tal fruto, — eis o ditado. Garo, que pena foi — se fosses do conselho

D’Aquele de quem fala o cura ao Evangelho, Tudo fora melhor; ora, isto, por exemplo: Bolota, que menor que um dedo é, Por que nesse baraço não se vê?...

Deus se menosprezou! Quando contemplo Esses frutos assim, mal colocados, oh! — Parece-me que houve um quiproquó!” E uma tal reflexão confunde o nosso homem;

— “Não se pode dormir se a mente tem trabalho;” Disse Garo, e deixando ideias que o consomem, Deitou-se, e adormeceu à sombra dum carvalho. Uma bolota, então, sobre o nariz lhe cai;

Garo desperta, e a mão o rosto vai palpar; Preso à barba inda encontra o fruto, porém, — ai; O magoado nariz deu-lhe um novo pensar! — “Sangue! — exclama, ai de mim! desgraçado,

Se d’árvore caísse um corpo mais pesado! Uma abóbora... que azar!... Deus não o quis... compreendo! — ele teve razão!” E bendizendo o Criador, então,

Garo voltou ao lar.

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