Aonde um verde monte De sombra está servindo à cristalina, Sonora, e clara fonte Do Mondego suavíssimo, a divina
Causa de seu gemido Mísero conduzia ao pastor Fido. Depois que o alto cume Pisara já suspenso, e fatigado,
Porque respire o lume Que dentro tem no peito recatado, Sobre um duro rochedo Imagem se sentou do horror, do medo.
À parte logo pondo O encurvado arrimo, descansando Na mão a testa, o estrondo Do vento, que sossegue, então rogando,
Ergueu a voz: atento A ouvi-lo parou mais brando o vento. A ouvir seus clamores Correi, ó penhas, suspendei-vos, águas;
Que os fúnebres rumores Que vão formando de seu peito as mágoas, Neste sítio ferindo, Em terno som piedade estão pedindo.
Ouvi; que já começa Do aflito peito a ir desentranhando As justas queixas dessa Perjura Ninfa, em cujo rosto brando,
Em cujo doce agrado Amor os seus venenos tem guardado. Formosíssima Almena (e não duvido Que o ser cruel somente hoje te agrade),
Este cansado e último gemido Ouve, e modera um pouco a crueldade; Daqui donde divisa o triste Fido O templo dessa ingrata Divindade,
Te vem a consagrar, pérfida Almena, Puras vítimas não, sim mortal pena. Aquele rosto afável de alegria, Que invejaram mil vezes as estrelas,
De mudo horror se cobre, e de agonia, Que tu de todo o enlutas, e atropelas. A fé que me juravas algum dia, Tudo estragado está, porque daquelas
Prometidas um -tempo, firmes glórias, Só vivem (ai de mim!) tristes memórias. Aquela branca mão em que apertando Tomavas minha mão, se não te esquece,
Que ditas não me esteve assegurando, Que agora tudo, infiel, se desvanece! Ora o Céu, ora a terra provocando, Costumavas jurar, e te parece
Que tudo na memória inda não dura? Ah! Pastora inimiga! Ah! vil, perjura! Dizias-me: “Verás, ó Fido amado, Primeiro produzir esta montanha
Estrelas, e pascer o manso gado Sobre estas águas onde o Sol se banha; Verás esse alto monte levantado Tornar-se em vale humilde; e mais estranha
Cousa ainda verás, eu não duvido, Primeiro do que Almena ingrata a Fido. Nada se tem mudado: o ser inteiro No Céu, na terra e monte inda se adverte;
Só teu peito infiel ao lisonjeiro Influxo de meu dano se perverte. Estranha cousa é só ver que o primeiro, Antigo amor em ódio se converte;
Que se trocaram, pérfida, os amores Em iras, em violências, em rigores. Oh! quem esta traição imaginara, Que as promessas falíssemos não crera!
Mas se o imenso amor me não cegara, Certamente, perjura, eu o fizera. Que dor não é o ver que a Ninfa cara Aos braços de outro amante se rendera!
Que dor não é, que mágoa, que tormento! Ah! que falta valor ao sofrimento! Com que impaciência (ó Céus!) estou notando A torpe laço ingratamente unida
Aquela gentil face, aquele brando Gesto alegre de Ninfa tão fingida. Eu a vi nos meus braços respirando O alento que animava a minha vida;
Fabrica hoje cruel da alheia sorte O instrumento fatal da minha morte. Que bem por mais horror da pena minha Parece que me fala aquele monte!
Que bem esta corrente aqui vizinha Me está pedindo que meus males conte! Mas se ela a glória viu que então eu tinha, E se tu me invejaste, ó clara fonte,
Medi por ela a mágoa de perdê-la: Vereis qual é maior, se a pena, ou ela. Ah! Pastora! Um tão puro sacrifício Tu desprezas assim! Quem te assegura
Que não sabe emendar um precipício O horror de minha grande desventura? Se tem a sorte mísero exercício Numa vida infeliz, que pouco dura,
Eu lhe quero roubar tanta vitória: Seja de Fido a lastimosa glória. Disse, e sobre a alta penha Erguendo-se, da fúria arrebatado,
No rio se despenha, Que de horror, ou de susto então parado, Vê o pálido amante Entre as ânsias da morte agonizante.
Ao sucesso acudia Algano, que de longe o divisara: Apressado corria; Mas a cega ambição da Parca avara
De seu golpe violento Já fazia despojo o doce alento. O pescador Algano, Que a causa deste mal não ignorava,
Ali de tanto dano Um funesto padrão em letras grava, E nelas deixa impresso O triste caso, o infeliz sucesso.
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