Se é certo que inda vive a doce avena Que chorou Coridon, chorou Amintas, Tu me tens de escutar, ó Selva amena. Eu por entre estas sombras mal distintas,
Ao resplendor da Lua, que aparece, Quero que tu comigo o meu mal sintas. Agora pois que o vento se enfraquece, Que o sussurro do mar está mais brando,
Que o ar se acalma, o campo se entristece, Inclina o teu ouvido: eu entoando A minha fraca voz, agreste e triste, Estarei minhas mágoas recitando.
Dura consolação! A quem assiste Um fado tão cruel, outra esperança Não tem mais do que a queixa em que persiste. Como posso apagar esta lembrança
Daquele grande bem que eu discorria, Que jamais poderia ter mudança! Quem, fortuna (ai de mim!), quem me diria Que havia de vir tempo, em que faltasse
Aquela doce união, em que eu vivia! Quando Lísia cuidou que lhe roubasse A sorte desigual a Sílvio amado, Sílvio, que outro não há que mais amasse!
Que ditoso não via o meu cuidado Na posse de um tesouro, onde segura Tinha a sorte o meu bem depositado! Aqui sobre esta penha onde murmura
A onda mais quebrada, quantas vezes Me não pus a cantar minha ventura! Sacrifício lhe fiz das minhas reses; Para ele colhi somente o fruto
Que o Sol sazona nos dourados meses. Tudo o que leva o campo, eu em tributo Mil vezes lhe rendi: ah! como agora O meu rosto não posso ver enxuto!
Deixou-me Sílvio; sim, Sílvio, que fora Distinto Maioral destas campinas, Glória de Lísia, por quem Lísia chora. Deixou-me: mas por quem! Se é que inda atinas,
Saudoso coração, nesta tormenta, Explica de meu pranto as ânsias finas. Deixou-me por aquela que se ostenta Com o nome de Rica; a que sepulta
Em seu seio os tesouros que sustenta. Deixou-me por aquela que se oculta Na parte mais distante, porque eu tenha Inda mais que sentir na dor que avulta.
Ah! E como é possível que me venha Uma constância tal, que, instando a mágoa, A formar minhas queixas me detenha! Os olhos de saudade rasos d’água
Que mais hão de fazer que estar chorando A sem-razão de tão penosa frágua! Vós, campos, que me vistes já gozando A delícia do meu contentamento,
Ide-vos pouco a pouco desmaiando. Não espereis jamais o luzimento Que Sílvio aqui vos deu: Sílvio vos falta; De Sílvio não há mais que o sentimento.
Buscou outra campina; outra se exalta Na glória de o gozar: ah! que em vão geme Dentro em meu coração mágoa tão alta! Mas que debalde agora a boca treme!
Que debalde se agrava a ânsia minha! De que contra o meu fado a voz blasfema! Se a glória me roubaram que eu mantinha, Contra o fado, contra essa que hoje invejo,
A queixa, a acusação só me convinha. Infeliz seja sempre o teu desejo, Ó ingrata inimiga, e a ventura Não encontres jamais sem mágoa, ou pejo.
Teus campos não se cubram de verdura, O dia te amanheça carregado, A noite sempre feia, sempre escura! Consuma a peste vil teu nédio gado,
Nunca tenhas Pastor, que o guarde, ou zele Do lobo que o procura esfamiado. Pise o chuvoso inverno e atropele As tuas sementeiras; leve o rio
Quantas herdades tens à margem dele. Nunca te ampare o álamo sombrio Com suas verdes folhas: tudo seja Contágio na Pastora e no armentio.
Caia... porém que digo! A minha inveja Aonde me arrebata! E não conheço Que há mais alto preceito que me reja! Acaso, quando Sílvio não mereço,
Não sei, que ele se ausenta: porque manda Sobre a vontade sua um alto excesso! Acaso outra rival ele demanda, Sem que o destine a lei da obediência,
A lei que o dividiu de Lísia branda? Pois Sílvio falte enfim: ache a influência Da estrela mais propícia essa, que agora Se alenta de meu bem na dura ausência.
Risonha lhe amanheça sempre a aurora, Serena a noite; o gado não lamente Sem cura o mal, o dano sem melhora. Jamais chegue a levar a grossa enchente
Seus frutos carregados; noite e dia Vele o cão sobre a ovelha, ande contente. No monte se ouçam bailes de alegria; Não perturbe o sossego dos Pastores
Algum agouro mau de ave sombria. Tudo, Sílvia, será: que entre os horrores Da pena, do martírio, da tristeza, Perdidos chorarei teus resplendores.
Que será de meus campos na pobreza Em que me deixas, Sílvio? Tu me davas Todos os meus haveres, e riqueza. Tu só os mais Pastores consolavas,
Distinto Maioral, com arte e modo Tudo compunhas, tudo moderavas. Por ti vivia alegre o campo todo. Ah! E com quanta dor nesta lembrança
A calar minhas penas me acomodo! Esperar já não posso outra bonança, Que tudo já me falta, ó Sílvio amado, Pois que me faltas tu nesta mudança.
De meu pranto no mísero traslado Vive, Sílvio, meu bem: minha saudade Te dá um testemunho do cuidado Nesta inscrição que deixa à eternidade.
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