Eu canto os dous Pastores Que o Tejo cristalino Na bela margem viu: canto o divino Assunto dos amores,
Que de inveja, e de agrado O céu, a terra, o mar tem namorado. Também das Ninfas belas, Que Amor viu abrasadas,
Os números entôo: se entre aquelas Cadências delicadas, Rude o som de meu canto Se faz digno, Senhor, de obséquio tanto.
Tu do semblante augusto, Tu da frente serena, Infante generoso, invicto, e justo, Enquanto soa a avena,
Teu magnânimo alento Comunica a meu débil, rouco acento. E Tu, que os teus altares, Princesa soberana,
Dilatas na extensão de ambos os mares; Que Tétis, mais que humana, Em melhor hemisfério, Te adotas do Brasil o grande Império;
Enquanto montes d’ouro, Brilhante pedraria, Desde o Rio da Prata ao Tejo louro A América te envia,
Lá dessa glória suma, A ouvir os meus votos te acostuma. Aonde o Tejo claro Seus braços mais estende,
Onde a corrente, em círculo mais raro, Grande parte comprende Daquela alta Cidade, Régio solar da lusa Majestade;
Dum lado e doutro lado Se estende uma campina, Em que traz a pascer o manso gado Tanto a formosa Eulina,
A filha de Silvano, Como o destro Corebo, o fiel Montano. Em uma tarde, quando Os músicos Pastores
Ao som da acorde flauta recitando Estavam seus amores, Nas vozes, que afinavam, Deste modo a cantar se preparavam:
Já que estamos, Montano, neste monte, Sem outra companhia, enquanto o gado, Buscando as doces águas dessa fonte, Vem concorrendo dum, e doutro lado,
Aqui deste salgueiro, Sentados junto à sombra, eu te requeiro, Torna-me a repetir aquela história, Que toda esta minha alma encheu de glória.
Dos nossos Maiorais a grande festa, Corebo, quem a viu jamais se farta De a contar: mas enquanto a fresca sesta A nós se chega, enquanto o Sol se aparta,
Tomando a flauta doce, O caso contarei; mas ah! se fosse Minha voz tão suave, e tão divina, Como aquela que pede ação tão digna!
Toma o teu instrumento: ele é tão brando, Que se inda agora Títiro vivera, Porque melhor pudesse ir entoando, No canto de Amarílis o quisera.
Parece que os rochedos Se abalam já do centro; os arvoredos, A habitação deixando da espessura, Vêm prontos a escutar tanta brandura.
Efeitos são daquele heróico objeto, Que eu tomo nos meus versos: maravilha Não é que possa tanto o grande afeto Com que o meu rendimento o voto humilha;
A história prodigiosa Escuta, Pastor meu; ouve a ditosa União dessas almas, que tem dado À memória do mundo um tal cuidado.
O dia venturoso Para nós se chegava, O dia em que no carro luminoso O Sol mais abrasava:
De riso, e de alegria O Céu, a terra, o mundo se cobria. Mais que nunca suaves, Ao despertar da Aurora,
De ramo em ramo as sonorosas aves, Sobre os campos de Flora, Alegres vêm saudando Da fresca manhã bela o rosto brando.
As árvores copadas Orvalho cristalino Derramam sobre a relva: restauradas A influxo peregrino,
Do inverno, que as rendera, Formam as flores nova primavera. Os Gênios da espessura Então mais concertados
Andam mostrando anúncios da ventura. Vêem-se os campos cercados De avisos superiores, Mandados desde o Céu para os Pastores.
Um salgueiro, que havia Deixado a pompa verde, De repente (oh! assombro!) se vestia Das folhas que em vão perde,
E em prodígios maiores As mesmas folhas deram logo flores. Duas rolas, cantando Naquela sovereira,
Docemente se estavam namorando: Uma, e outra ligeira, Com suave reclamo, De folha em folha vão, de ramo em ramo.
Por entre o trigo louro Discorre um vento brando, Qual nunca se sentiu: um branco touro, Entre os outros brincando,
Três vezes nessa praia, A correr à porfia os mais ensaia. Até dessa ribeira, Que nos fica vizinha,
Se viu chegar à praia derradeira Um Delfim, o qual tinha Sobre a escama enlaçadas As ramas de coral, ao Sol coalhadas.
O mar vinha trazendo De conchas esquisitas Uma grande abundância: estão-se vendo Pérolas infinitas,
Que no centro ocultava, Que de gosto talvez o mar as dava. De Pã e de Himeneu, Deidades soberanas,
Se escuta publicar o alto troféu; As glórias, mais que humanas, Os Pastores entoam, As sacras Divindades apregoam.
Estão por toda a parte As tochas incendidas De Himeneu: o festejo se reparte Entre as Ninfas luzidas,
Cercando em roda as teias Náiades, Hamadríades, Napéias. Podem ver-se os Silvanos, Os Sátiros das covas
Deixar o triste abrigo: mais que ufanos, Em seus hinos e trovas, Com tal contentamento, Que enchiam de alegria o mesmo vento.
Qual fiando a memória Ao corpulento cedro, Por triunfo da nunca vista glória, Lavra o nome de PEDRO:
Qual compete à porfia, Nas faias entalhando o de MARIA. Os nomes venturosos Se lêem por toda a parte:
Trabalham por fazê-los mais ditosos A natureza e arte, Porque nos troncos cresçam, Porque nos mesmos troncos reverdeçam.
Dametas e Corroo, Os músicos Pastores, Que entre nós têm louvor quase divino, Entoando os amores
Da Ninfa e caro Esposo, Um cântico disseram portentoso. Aqui sobre estes troncos Uma letra se atende,
Composta por Alcino; inda entre os broncos Debuxos se comprende, E diz: “Chega-te, Amigo”; Mas, não: escuta tu; porque eu a digo.
Ao longe eu vejo; espera, meu Montano, Eu vejo aparecer, ao que imagino, O meu bem, se talvez me não engano: Sim, a bela Pastora, o peregrino
Encanto desta vida. Ela é: oh! que júbilo convida A face alegre, a vista deliciosa De Ninfa tão gentil, e tão formosa!
Qual vem com ela, atende, a branca Laura, Do coro enfim das Náiades o mimo! Formosa é Lise, sim, formosa Aglaura; Mais que todas formosa a Laura estimo.
Cantando vêm as belas, Arrastando a seu cântico as estrelas; Ouçamos o que dizem: mas eu creio Que de chegar aqui terão receio.
Esta mata frondosa, esta espessura Comodidade dão, onde escondidos As podernos ouvir; e tu, procura Que Lise não perceba os teus gemidos.
Enquanto elas cantando Para nós descuidadas vêm chegando, Ao número amabeu nos ajustemos, E juntos os seus hinos alternemos.
Entenderão que os Sátiros das covas Sua voz acompanham, ou que as penhas Repetem desde longe aquelas trovas, Que elas entoam lá; não te detenhas,
Entra nesta espessura, Que as Ninfas vêm já perto: ah! que ventura! Que glória para nós não esperada Trouxe a sorte esta vez menos pesada!
lá não tardo a seguir-te; porém temo Que fôssemos já vistos: é mui alto Aquele oiteiro. Desgraçado extremo De um infeliz, pois tudo é sobressalto!
Não sei se dessa gruta Seja melhor buscar a estância bruta, Ou se melhor aparecer-lhes seja. A quem não matará da sorte a inveja!
Já Laura me divisa: o seu aceno Me deu já a entender que me descobre. Lise me viu com rosto mais sereno, É acertado que me não soçobre.
Cheguemos desde agora, Cheguemos a encontrá-las: erro fora Tão rústica mostrar a natureza, Que se negue um Pastor a uma beleza.
Se vens, Ninfa, buscando o verde prado, Para lhe dar prazeres e alegria, Tem dó também de um peito magoado, Que vive só da pena e da agonia.
Se o pensamento teu vem conduzido, Divina Lise, a rogos de minha ânsia, Eu te quero seguir, que o meu gemido Te busca sempre com maior constância.
Montano, o digno assunto de meu canto Lugar me não consente, para ouvir-te; Deixa, Pastor amado, deixa o pranto; Pronta me hás de encontrar, pronta a servir-te.
Agora é lei forçosa de meu gosto, Corebo meu, que tomes o instrumento; Deixa as mágoas, Pastor, deixa o desgosto E vem acompanhando o nosso acento.
Não és tu a cruel, que em tanta idade Jamais ouviste um dia os meus gemidos? De tua, mais que bárbara impiedade, Como abrandou meu rogo esses ouvidos?
Montano, não porfies: em meus ecos Atende o peregrino objeto amado, A cujo doce acento os troncos secos, Os mármores talvez tenho abalado.
Eu trago de memória a cantilena Que Corino compôs, quando o seguia Dametas, o Pastor, que a doce avena No cântico amabeu soar fazia.
Lise, e mais eu a vínhamos agora Repetindo; e tão bela se mostrava, Que no acorde trinar da voz sonora A alma atrás do canto arrebatava.
Corebo apode ouvir, pois que presente Não esteve à função do Himeneu santo: Ele nos acompanhe juntamente, Pois tanta suavidade tem no canto.
O Céu essa fortuna lhe guardava, Porque há pouco a Corebo eu repetia A grande história, e quase se apressava A lê-la nesse tronco, aonde a via.
Agora folgarei de acompanhar-te, E para que de ti mais o mereça, Este cajado toma, aonde em parte Reconhecer teu mérito pareça.
Obra foi do divino Alcimedonte; De flores o engastou; onde a mão dobra, Vê como as pedras une destramente, Variando a cor: tu viste melhor obra?
Pois eu, Lise gentil, inda que ponha Quantos gados, e campos eu possua, Nada te venho a dar, porque é vergonha Que outra coisa te dê, quando a alma é tua.
A parelha melhor do meu rebanho, Aquela que é de pele remendada, A flauta com que agora te acompanho, Tudo enfim te darei, se tudo agrada.
Árvores (eu começo) deste oiteiro, Que enverdecendo estais na primavera, Chegai a ouvir meu canto lisonjeiro. Eu canto aquela Ninfa que pudera
Dar vida às tenras flores, alma às plantas, Como Vênus às rosas já fizera. Branda corrente, tu que o gosto encantas, Um retrato me pintas nessa fonte
Do primoroso Céu de graças tantas. Eu vi quando desciam desse monte As Ninfas na formosa companhia, Com o canto alegrando este Horizonte.
De gosto os cabritinhos nesse dia Deixaram de buscar o suco amado, Esquecidos das mães na relva fria. O trovão que soava deste lado
Agouro era somente da ventura; Uivar se não ouvia o lobo irado. O mocho não grasnava na segura Rama daquele choupo, onde outras vezes
Grasnar se ouvira pela noite escura. A ti se há de cortar das nossas reses A vítima perpétua; o sacrifício De nosso humilde voto não desprezes.
Do culto de um Pastor pequeno indício, Eu tenho de trazer-te o mel dourado, Se tanto à minha súplica és propício. De própria mão o fruto sazonado
Eu colherei, levando juntamente Dous recentais, que tenho aparelhado. Se estou ao som da flauta anal cadente Ensaiando esta voz desconcertada,
É para a dedicar a ti somente. Se apascento esta rústica manada, É por ver se entre a mísera pobreza De um Pastor inda há cousa, que te agrada.
Não foi Glauce formosa; a gentileza Da linda Galatéia já não deve Da nossa acorde flauta ser empresa. Por ti já me parece escura a neve,
Não é tão encarnada a fresca rosa, A comparar-se a ti nada se atreve. Derivada do Céu prole formosa De Jove, que respiras do semblante,
Sobre a vida mortal, luz miais preciosa. Ah! quanta glória deste laço amante Se espera conseguir! A paz do mundo, A dita dos mortais por ti se cante.
Para apertar o vínculo jucundo, O sangue traz o fio, Amor o tece; Assim se lavra o tálamo fecundo. Nesta amena campina reverdece,
A memória dos Reis, segredo raro Que de Mântua o Pastor saber merece. Logra Amor o triunfo mais preclaro, Que junta a Majestade à formosura;
Não precisa a virtude de outro amparo. Tu és do nosso Jove imagem pura, Ao grande Deus do Céu bem te pareces Nesta alma toda afagos e ternura.
Tu, Ninfa, entre as mais Deusas só mereces Este obséquio que agora satisfaço, Que entre elas sobre todas resplendeces. Será sempre imortal o terno laço,
Que o não pode cortar a morte feia, Nem da fortuna o movimento escasso. Feliz foi o agouro; nem se creia Que me engana de louca a fantasia,
Ou que o meu pensamento me recreia. Eu o vi nessa estampa que luzia Na outra parte do Céu sobre a direita, E n’alma trago impressa a profecia.
A memória feliz nesta alma aceita, Fixa sempre se guarda, sempre pura, Qual não pode acabar a sorte estreita. Uma palma triunfal ao Céu segura
Se via remontar, que se enlaçava Das ramas de uma vide; uma escritura Desta sorte o segredo declarava.
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