Aquele pastor amante, Que nas úmidas ribeiras Deste cristalino rio Guiava as brancas ovelhas;
Aquele, que muitas vezes Afinando a doce avena, Parou as ligeiras águas, Moveu as bárbaras penhas;
Sobre uma rocha sentado Caladamente se queixa: Que para formar as vozes, Teme, que o ar as perceba.
Os olhos levanta, e busca Desde o tosco assento aquela Distância, aonde, discorro, Que tem a origem da pena:
E depois que esmorecidos Da dor os olhos, na imensa Explicação do tormento, Sufocada a luz, se cegam;
Só às lágrimas recorre, Deixando-se ouvir apenas Daquelas árvores mudas, Daquela mimosa relva!
Com torpe aborrecimento A companhia despreza Dos pastores, e das ninfas; Nada quer; tudo o molesta.
Erguido sabre o penhasco Já vê, se é grande a eminência: Por que busque o fim da vida, Na violência de uma queda.
Já louco se precipita; E já se suspende: a mesma Apetência do tormento Maior tormento lhe ordena.
Pastores, vêde a Daliso; Vede o estado qual seja De um pastor, que em outro tempo Glória destes montes era:
Vêde, como sem cuidado Pastar pelos montes deixa As ovelhas ofrecidas As iras de qualquer fera.
Vêde, como desta rama, Que fúnebre está, suspensa Deixou a lira, que há pouco, Pulsava pela floresta.
Vêde, como já não gosta Da barra, dança, e carreira; E ao pastoril exercício De todo já se rebela.
Segundo o volto, que neste Rústico penedo ostenta, Cuido, que o fizeram louco Desprezos da bela Altéia.
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