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1729–1789

ROMANCE

Cláudio Manuel da Costa

Sábio, e reto Ministro, aquela idéia Que eu formo desse espírito, alguma hora Há de chegar a dispensar-se ao mundo, Inda que em sombras de uma imagem tosca.

Ver-se-á que quanto a mão do Rei Augusto Mais liberal, mais pródiga vos honra, Tanto o mérito vosso os mesmos prêmios Acredita, enobrece, e condecora.

Entregue à vossa direção prudente Foi o Erário Real; e apenas louva A fortuna este bem, já vos admira Cingir no Porto a Senatória Toga.

Estes os louros são que vos prepara Vossa egrégia virtude, que se de outra Estranha mão brotassem produzidos, Não seria a ventagem tão preciosa.

Do Real Decreto as cláusulas, que atendo, Desta mesma verdade hoje me informam: Ele nos insinua que os serviços Com este novo ascenso se coroam.

Outro, que aos cargos do Conselho assiste, Vigilante Ministro, assim o abona, Quando nos diz que do interesse régio Vossa atenção se preocupa toda.

Mas que muito, que o crédito daqueles Assim vos busque, assim vos corresponda, Se por vós, ó Ministro esclarecido, Falam cheias de alento as mesmas obras!

Seguindo os vossos passos, desde quando Pisais das Minas as montanhas toscas, Que cousa há que não seja testemunho Do zelo, que distingue as ações vossas?

Diga-o do Sabará na régia casa, Onde do Erário se regula a soma, Aquela perspicácia nunca vista, Aquela sempre vigilância pronta.

Velando pelo Rei, que segurança Não têm os seus Direitos! menor sombra Não pode subsistir no engano indigno, Da maldade uma vez cerrada a porta.

Este o teatro foi, onde a virtude Mil padrões erigiu à vossa glória, Acreditando em diligências graves Do serviço real vossa pessoa.

Sem temer as distâncias e os perigos Por ásperos sertões, empresa heróica, Desde lá vos conduz a ver os matos, Onde o Paracatu seu termo logra.

Ali provendo em equilíbrio tudo Quanto acredita da Justiça as normas, Desprezaste as calúnias, e somente Deste à verdade a subsistência própria.

Vencidas neste giro (quem tal crera!) Mais de trezentas léguas, a derrota Terminais, respirando sem fadiga, Ao ver que pelo Rei ela se abona.

Não bem cerraste os destinados dias Do cargo de Intendente, já sem nota, Que infame à residência, o Rei vos chama, Já da Fazenda o Tribunal vos goza.

E para seres com maior ornato Exposto a nossos olhos, vos coloca Na Junta da Bahia, entre os que a Beca Distingue, ilustra, qualifica, aprova.

Agora se outro alento me assistira, Eu descrevera as peregrinas provas Que fizeste avultar, juntando àquelas Que a Fama em tanto giro admira absorta.

Eu dera a conhecer que neste emprego Resplendeceu vossa virtude, posta No mais distinto grau: dissera ao mundo Que em vós do Erário se duplica a força.

A força se duplica: pois se aquele Sustenta o Reino dispendido, a nova, Interessante economia quanto O zela mais, é certo, o aumenta, e dobra.

A prática piedosa, bem que inteira, De uma exação ceder faz a demora Dos devedores; e arrecada o Cofre Quanto a avareza em subterfúgios forra.

O excesso das despesas se refreia, O menos útil se modera e poupa; O mesmo, que faltava, agora cuido, Não só não falta já, antes já sobra.

Revolvem-se esquecidos monumentos Que o tempo sepultava em cinza morta; E porque tudo ao Régio Erário sirva, Por eles se entra em recenseio às contas.

Oh! e que frutos deste exame tira A Fazenda do Rei! quantos se encontram Erros, e vícios, da maldade efeitos! Se este se averigua, este se nota.

Nunca das Minas o País dourado Com tão crescidas, avultadas somas, Honrando o real selo os cofres, pôde Ver tão soberba a lusitânia Frota.

Não só do Tribunal junto à fadiga, Vos aplicais, Senhor, mas vos remonta Novo cuidado a investigar os passos, Que abre o extravio por estranhas bocas.

Pela Comarca, aonde os verdes campos Têm do Sapucaí banhado as ondas, Atravessais, entregue ao real serviço, Os sertões, que inda as feras mal povoam.

Os caminhos do engano só trilhados, Por vós pisados são, por vós se cortam. Servem ao vosso zelo, ao vosso exame, O fundo rio, a serra mais medonha.

Nada vos horroriza, nada embarga A ilustre diligência, bem que aborta Fúrias o Inverno, cóleras o Tempo, Rotos os Céus em tempestades grossas.

Vedor Geral, fiada a vosso arbítrio A comissão da empresa mais custosa, Com quanta reflexão vos encontramos Regulando as reclutas para as Tropas!

Atende-se à pobreza, ao desamparo, Com a clemência a retidão se informa: A tudo consultais dando os ouvidos À Viúva, ao Irmão, ao Pai, à Esposa.

Mas que muito, Ministro inimitável, Que muito obreis assim, se a vossa própria Língua confessa que ao serviço régio, Não o interesse, só vos chama a honra!

O amor só da virtude é que dirige Iguais a vossa idéia as vossas obras, Conhecendo que é ela de si mesma O prêmio que mais val, que mais importa.

Por isso inda que ao mérito distinto Falte a retribuição, só vos consola Aquela sempre máxima adorável Que o Pai da Liberdade amava em Roma.

Contenta-se Catão que a estátua sua No Capitólio entre outras se não ponha, Porque pergunte absorto o passageiro: Quem é o que a Catão nega esta glória?

Tendes na fantasia sempre impressas As imagens do sonho que ainda aponta De Massinissa a Corte, quando ao Filho De Cipião se mostra a esfera toda.

Ali se vos descobre que a primeira Obrigação de um ânimo, que adora O esplendor da virtude, é que somente Se ame o seu Rei, a Pátria se socorra.

Daqui vem que é acerto tudo quanto Imaginais, ou emprendeis; sufoca A desgraça por vós o seu partido: Tudo serve ao prazer, tudo à lisonja.

Oh! mil vezes feliz aquele exemplo Que de vós se deriva! Se estudiosa A virtude pudera retratar-vos, Quantas ao mundo repartira cópias!

Nelas ensaiaria para as Becas Ilustres Magistrados; menos pompa Trajaram sobre a Fama outros Consultos, De que o corpo jurídico blasona.

Os Flávios, os Hermógenes, os Élios, Os Pérsios, os Papírios, os Mendonças, Os Pegas, os Macedos, os Pereiras Perderão junto a vós a glória toda.

Vós com justiça igual desempenhando De sábio o nome, entre virtudes outras, Sois afável, pacífico, prudente, Sois liberal, benévolo; isto sobra.

Assim dais a saber que o vosso peito Alenta aquele sangue, que se adora, De um Pai, de quem no emprego, que ocupara, Há de ser imortal sempre a memória.

Assim mostrais que ramo florescente Sois de um Irmão, que em dotes, em pessoa, Enobrece do Reino Lusitano Tudo o que o cetro em seus domínios doura.

Porque entre as perfeições que vos ilustram, Ainda a mais acidental, concorra, Até mostrais o quanto a natureza Se desempenha em vós, quando vos forma.

Cheios de atividade os olhos, dentro Dos corações, nos dão não sei que mostras De uma alma dominante: o que vos busca, Ao respeito, ao agrado igual se dobra.

Mas que debalde a examinar me empenho Os vossos atributos! Se se agoura Pelos princípios o progresso, quanto, Quanto o destino na esperança aponta!

Que comissões, que empresas vos auspica O fausto lusitano! Ah! cerre embora, Cerre a porta o futuro, porque a tanto Não sobe a inculta lira, a Musa rouca.

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