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1729–1789

FILENO

Cláudio Manuel da Costa

Na margem deleitosa Do cristalino Tejo, Sentado um Pescador, a pobre rede Enquanto tem nas praias estendida,

Ao longe uma harmonia Nunca ouvida jamais, ao longe escuta Um canto tão sonoro, Que nem Glauco suave, nem o cego

Amante da formosa Galatéia, De Sicília entoou na branca areia. Corino era que vinha Da aldeia já voltando, onde o pescado

A vender estivera; ali no povo Uma notícia achou, a qual em trovas, Por um Pastor discreto Ordenadas ao som da acorde avena,

Trazia para o mar, quando aos ouvidos Foi mais próximo o som. Eu, que atendia, Estas doces cadências percebia. Que alegria, que gosto

Ao mundo comunica O nosso Maioral O grato rosto Do júbilo se explica Pela voz dos Pastores,

Títiro e Alcimedon, grandes cantores. Os campos neste dia Se cobrem de verdura: Pasta o gado contente a relva fria,

E na verde espessura Novo contentamento Desterra toda a sombra do tormento. Os Sátiros das covas,

Deixando o caro abrigo, Do seu rendido amor vêm a dar provas: Eles trazem consigo De Ninfas delicadas

Igualmente as mais belas e engraçadas. Em concertados hinos Soa toda a floresta: Pastores mais gentis, mais peregrinos,

Concorrendo na festa Do Maioral, oh! quanto Agradável se faz seu doce canto! Um louva a providência

Com que a tudo consulta; Outro aplaude entre todos a excelência Com que o seu gênio avulta, Tornando venturosos

Deste campo os Pastores mais ditosos. Já torna ao nosso mundo Aquela idade de ouro; O campo sem cultura já fecundo

Produz o trigo louro. Tudo está melhorado: A montanha, a campina, o vale, o prado. A nós torna a inocência

Do século primeiro: Torna a justiça, as Graças, a Clemência, Que do tempo grosseiro Desterra a maldade.

Oh! feliz estação! Oh! doce idade! Assim cantava, quando Ao chegar o seu barco Junto à margem frondosa

Um pouco se calou; eis entretanto Dos versos que lhe ouvia, Aplicando uma parte ao tosco alento Da flauta piscatória, desta sorte

A seu modo dispunha, Das praias onde estava, Fileno, o Pescador que o escutava.

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