Na margem deleitosa Do cristalino Tejo, Sentado um Pescador, a pobre rede Enquanto tem nas praias estendida,
Ao longe uma harmonia Nunca ouvida jamais, ao longe escuta Um canto tão sonoro, Que nem Glauco suave, nem o cego
Amante da formosa Galatéia, De Sicília entoou na branca areia. Corino era que vinha Da aldeia já voltando, onde o pescado
A vender estivera; ali no povo Uma notícia achou, a qual em trovas, Por um Pastor discreto Ordenadas ao som da acorde avena,
Trazia para o mar, quando aos ouvidos Foi mais próximo o som. Eu, que atendia, Estas doces cadências percebia. Que alegria, que gosto
Ao mundo comunica O nosso Maioral O grato rosto Do júbilo se explica Pela voz dos Pastores,
Títiro e Alcimedon, grandes cantores. Os campos neste dia Se cobrem de verdura: Pasta o gado contente a relva fria,
E na verde espessura Novo contentamento Desterra toda a sombra do tormento. Os Sátiros das covas,
Deixando o caro abrigo, Do seu rendido amor vêm a dar provas: Eles trazem consigo De Ninfas delicadas
Igualmente as mais belas e engraçadas. Em concertados hinos Soa toda a floresta: Pastores mais gentis, mais peregrinos,
Concorrendo na festa Do Maioral, oh! quanto Agradável se faz seu doce canto! Um louva a providência
Com que a tudo consulta; Outro aplaude entre todos a excelência Com que o seu gênio avulta, Tornando venturosos
Deste campo os Pastores mais ditosos. Já torna ao nosso mundo Aquela idade de ouro; O campo sem cultura já fecundo
Produz o trigo louro. Tudo está melhorado: A montanha, a campina, o vale, o prado. A nós torna a inocência
Do século primeiro: Torna a justiça, as Graças, a Clemência, Que do tempo grosseiro Desterra a maldade.
Oh! feliz estação! Oh! doce idade! Assim cantava, quando Ao chegar o seu barco Junto à margem frondosa
Um pouco se calou; eis entretanto Dos versos que lhe ouvia, Aplicando uma parte ao tosco alento Da flauta piscatória, desta sorte
A seu modo dispunha, Das praias onde estava, Fileno, o Pescador que o escutava.
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