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1729–1789

EPÍSTOLA V

Cláudio Manuel da Costa

Recebo, Alcido amado, O transunto feliz, o delicado, Numeroso desenho Do vosso belo, peregrino engenho.

Nele respira aquela suavidade Com que outro tempo a délfica Deidade, Pelas ribeiras do saudoso Anfriso, Tornava todo o monte de improviso,

De Tebaida alegre, Chipre amena, Centro da mágoa, habitação da pena. A imagem da saudade retratada Qual se descobre aos ecos animada

Da vossa acorde lira! Ali geme, ali chora, ali suspira O rosto macilento, Reclinando com brando movimento

Já sobre a mão, já enxugando o pranto, Que os olhos vertem com mortal quebranto. Menos suave, menos elegante Pintou o Português a frágua amante

Em que Vênus dispunha aos Lusitanos A dourada lisonja dos enganos, Quando aos olhos descobre a feliz Ilha, Do mar d’Atlante oculta maravilha.

Mas que muito respire tão ativo O fogo da saudade executivo, Se da razão no intrínseco conceito Bebe a força eficaz do agudo efeito!

É sempre menos dura A pena, que na rústica cultura Ao Pastor acompanha, Na choça, no redil, que aquela estranha

Paixão que segue o cortesão polido, Na civil sociedade introduzido. Assim o vosso engenho agudo, e raro Concebe em grande excesso o estrago avaro

Do saudoso tormento; Dando-lhe tanto mais crescido alento Que ao vigor do discurso, ponderada, É em vós a saudade mais pesada.

Oh! se a guerra implacável que se acende Por dentro de minha alma, e que se estende Pelo campo espaçoso da lembrança Pudera retratar-vos, que mudança

Tão contrária, tão fúnebre, tão dura Em mim veríeis da fortuna escura! Aquele aspecto afável da alegria, Que o coração brotava, quando via

Presente em vós o bem que adora tanto, Apenas pelas cláusulas do pranto, Pelas sílabas mudas do gemido, Hoje publica o fúnebre ruído,

Que ergue a dor nas imagens da memória, Tentando em sombras a passada glória. O confuso girar de meu cuidado Encontro vivamente retratado

Em um baixel vagando, que sem norte Guia com vária sorte A onda impetuosa No golfo Egeu, soprando a tormentosa

Fúria dos ventos, que na estranha guerra O crespo Eolo no penhasco encerra. Mas cesse de meu mal aquela ativa, Tirana agitação, que se deriva

Do tormento fatal da vossa ausência; Já parece desmaio esta violência, Quando do vosso espírito suave A bela produção canora e grave

Enche os ares de acorde melodia, Que arrebata de todo a fantasia. Dos nossos fiéis amigos, que a lembrança Vossa com tão gostoso excesso alcança,

Testemunho a plausível recompensa, Enviando-vos dum a cópia imensa Desses de Apolo gratos desperdícios, Doutro, intérpretes sendo os sacrifícios,

Que repete nas chamas da saudade A vossa em tudo cândida amizade. Mas desta, que deixaste tão saudosa Ribeira em outro tempo venturosa,

Quando animada do sonoro acento Do vosso acorde, harmônico instrumento, Como é possível que eu traslade as vozes Que entre os ais e suspiros mais velozes,

Me estão recomendando a cada instante As lembranças do seu obséquio amante? Ela me pede (que discreto rogo!) Que aquele generoso, ardente fogo,

Em que por vós se abrasa, vos refira; E que outra vez do vosso plectro e lira (Por que a pena sufoque, extinga a ânsia) O toque busque, empenhe a consonância.

Eu o suplico assim, meu caro Alcido, E a vossos pés rendido Ofereço a vontade, com que posso Dizer que sou fiel amigo vosso.

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