Ao duro tronco atado, O Grego enganador da Ninfa bela, Ouvindo o som daquela Consonância do coro levantado,
Foge à ruína, teme o precipício. Mas se o canto, Salício, Que alternastes no verso harmonioso, No golfo perigoso
Das úmidas Deidades se entoara, Do acorde acento à suavidade rara, Que alegre cederia Ulisses aos encantos da harmonia!
Hidrópico, bebendo A líquida corrente, nunca tanto Se vê, com o quebranto Do sol ardente, o gado que descendo
Vem de uma e outra parte da floresta. Quanto se manifesta Ansioso o meu desejo, achando agora A lisonja sonora
Desse canto, Salício, que respira Tão doce, que por mais que a alma ferira O impulso harmonioso, Sempre o meu peito suspirara ansioso.
Oh! ditoso salgueiro Aquele, Pastor belo, em que pendente A cítara cadente, No silêncio me viu por derradeiro,
Enquanto choro a vossa ausência dura! Quanto maior ventura É ver da solitária sombra fria A perdida alegria,
O gosto desmaiado expor brilhante, Mais risonho esta vez o seu semblante, Bem como a tenebrosa Noite, que a luz do Sol faz mais formosa!
Do músico instrumento O espírito té agora sufocado, Bebeu mais esforçado O que respira, harmonioso alento:
Deva-se tanto obséquio à saudade. De Pã a Divindade, Que uniu primeiro a cera à débil cana, Nunca tão soberana
A voz ergueu; nem lá no Idálio monte, Ao murmurar feliz do Xanto, a fonte Respirou tão suave, De Enone bela no tormento grave.
Só vós, Pastor querido, As sombras desterrando da tristeza, Podeis lograr a empresa De sufocar os ecos do gemido,
Com tão acorde, sonoroso excesso! A tanto bem confesso Que do campo os prodígios celebrados Serão mal comparados,
Inda quando a memória os eternize Pelos troncos das faias, bem que avise Um e outro letreiro Qual o segundo foi, qual o primeiro.
Se pois é de Salício Tão poderosa a voz; se a mão tão destra, No jogo, na palestra, Tem a glória maior; se no exercício
Do canto o verde louro ele consegue, Salício não me negue, Que desigual a competência fica, Quando a seguir se aplica
Do mísero Meliso a mal pulsada Cítara, que é somente acompanhada De Faunos da espessura, Não de branca Napéia, ou Ninfa pura.
Turva, e feia, a corrente Deste ribeiro nosso não habita Dríada, que repita Em branda voz o número cadente:
Que tudo nele triste fez o fado. Ditoso aquele estado Em que, pobre pastor, me contentava A terra, que lavrava,
O gado, que a pastar guiava errante Desta montanha àquela: ah! que inconstante Fortuna em mim figura De Melibeu a triste desventura!
Mas eu cuido que vejo Aquela carregada sombra feia, De gosto, que recreia, (Se não mo finge a imagem do desejo),
Ir a face vestindo já mais clara. Oh! que mudança rara Estou nesta ribeira contemplando! Pouco e pouco dourando
Se vai o escuro vale, e o alto monte: Nova chama ilumina este Horizonte. Tanto gosto se deve Do sonoro Salício ao canto leve.
Vivei, ó Pastor grato, E o vosso campo eternamente seja Dos Elísios inveja, Ditosa cópia, plácido retrato
Daquele que o Pastor pisou de Anfriso: E vivei para glória de Meliso.
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