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1729–1789

EPÍSTOLA IV

Cláudio Manuel da Costa

Ao duro tronco atado, O Grego enganador da Ninfa bela, Ouvindo o som daquela Consonância do coro levantado,

Foge à ruína, teme o precipício. Mas se o canto, Salício, Que alternastes no verso harmonioso, No golfo perigoso

Das úmidas Deidades se entoara, Do acorde acento à suavidade rara, Que alegre cederia Ulisses aos encantos da harmonia!

Hidrópico, bebendo A líquida corrente, nunca tanto Se vê, com o quebranto Do sol ardente, o gado que descendo

Vem de uma e outra parte da floresta. Quanto se manifesta Ansioso o meu desejo, achando agora A lisonja sonora

Desse canto, Salício, que respira Tão doce, que por mais que a alma ferira O impulso harmonioso, Sempre o meu peito suspirara ansioso.

Oh! ditoso salgueiro Aquele, Pastor belo, em que pendente A cítara cadente, No silêncio me viu por derradeiro,

Enquanto choro a vossa ausência dura! Quanto maior ventura É ver da solitária sombra fria A perdida alegria,

O gosto desmaiado expor brilhante, Mais risonho esta vez o seu semblante, Bem como a tenebrosa Noite, que a luz do Sol faz mais formosa!

Do músico instrumento O espírito té agora sufocado, Bebeu mais esforçado O que respira, harmonioso alento:

Deva-se tanto obséquio à saudade. De Pã a Divindade, Que uniu primeiro a cera à débil cana, Nunca tão soberana

A voz ergueu; nem lá no Idálio monte, Ao murmurar feliz do Xanto, a fonte Respirou tão suave, De Enone bela no tormento grave.

Só vós, Pastor querido, As sombras desterrando da tristeza, Podeis lograr a empresa De sufocar os ecos do gemido,

Com tão acorde, sonoroso excesso! A tanto bem confesso Que do campo os prodígios celebrados Serão mal comparados,

Inda quando a memória os eternize Pelos troncos das faias, bem que avise Um e outro letreiro Qual o segundo foi, qual o primeiro.

Se pois é de Salício Tão poderosa a voz; se a mão tão destra, No jogo, na palestra, Tem a glória maior; se no exercício

Do canto o verde louro ele consegue, Salício não me negue, Que desigual a competência fica, Quando a seguir se aplica

Do mísero Meliso a mal pulsada Cítara, que é somente acompanhada De Faunos da espessura, Não de branca Napéia, ou Ninfa pura.

Turva, e feia, a corrente Deste ribeiro nosso não habita Dríada, que repita Em branda voz o número cadente:

Que tudo nele triste fez o fado. Ditoso aquele estado Em que, pobre pastor, me contentava A terra, que lavrava,

O gado, que a pastar guiava errante Desta montanha àquela: ah! que inconstante Fortuna em mim figura De Melibeu a triste desventura!

Mas eu cuido que vejo Aquela carregada sombra feia, De gosto, que recreia, (Se não mo finge a imagem do desejo),

Ir a face vestindo já mais clara. Oh! que mudança rara Estou nesta ribeira contemplando! Pouco e pouco dourando

Se vai o escuro vale, e o alto monte: Nova chama ilumina este Horizonte. Tanto gosto se deve Do sonoro Salício ao canto leve.

Vivei, ó Pastor grato, E o vosso campo eternamente seja Dos Elísios inveja, Ditosa cópia, plácido retrato

Daquele que o Pastor pisou de Anfriso: E vivei para glória de Meliso.

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