Skip to content
1729–1789

EPISTOLA I

Cláudio Manuel da Costa

A vós, Pastor distante, Bem que presente sempre na lembrança, Saúde envia Alcino, que a vingança Da fortuna inconstante,

Do bárbaro destino, Chora na própria terra peregrino. Se a flauta mal cadente Entoa agora o verso harmonioso,

Sabei, me comunica este saudoso Influxo a dor veemente, Não o gênio suave, Que ouviste já no acento agudo, e grave.

Entorpeceu-se o canto, E a Musa tristemente enrouquecida Se viu, depois que a sorte desabrida Trocou o doce encanto,

Das Ninfas do Mondego, Pelo deste retiro inculto emprego. Como presente vejo, Fileno, para estrago da memória,

Aquele doce bem, que a maior glória Formava a meu desejo! Como na estampa grata Da lembrança o perdido se retrata!

Pela margem frondosa Desse, que corre, vagaroso rio, Quantas vezes, Pastor, a calma, o frio Vencemos na gostosa,

Alegre sociedade, Que alentava do canto a suavidade! Quantas vezes rompendo Das claras águas a corrente fria,

Das Ninfas do Mondego a companhia A ouvir se estava erguendo, Por entre a espuma bela, Que uma hora se desfaz, e outra congela!

Quantas vezes parava A doce Filomena o triste acento, E do álamo frondoso (enquanto o vento As folhas meneava)

Os números ouvia, Que a nossa acorde flauta repetia! Que mudança importuna Hoje diverso faz o gênio antigo!

Negando à Musa o generoso abrigo Da plácida fortuna, Porque habite uma estância, Em que só vive a pena, a mágoa, a ânsia!

O gênio antes festivo, Pronto no baile, jogo, e na floresta, Quanto se oprime, quanto se molesta Ao golpe executivo

Do fado, que tem posto Tanto empenho em tecer o meu desgosto! O seu giro, ó Fileno, Não seja em vosso dano assim violento:

Discorra só no bem, no obséquio atento, Porque no mais ameno Campo, e entre os Pastores, Vos consagre Amarílis seus amores.

Não erre o vosso gado, Qual vaga o meu, sem dono: antes contente Paste do campo a relva florescente. O pomo sazonado

Colhei; e na floresta Tende fortuna mais ditosa que esta. E se no prado ou monte Pastor vive, que guarde inda a memória

Da minha triste, lastimosa história, Dizei-lhe vós que conte O seu verso canoro Meu caso triste no silvestre coro.

A minha tosca avena Sempre há de respirar na atividade Da, que me arde no peito, ímpia saudade: E creio, à minha pena,

Se há de ver algum dia Respirar estes bosques alegria.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
EPISTOLA I · Cláudio Manuel da Costa · Poetry Cove