Comigo falas; eu te escuto; eu vejo Quanto apesar de meu letargo, e pejo, Me intentas persuadir, ó sombra muda, Que tudo ignora quem te não estuda.
Há poucas horas que um ativo alento Te dirigia o ardente movimento, E em breve instante (oh! dor!), em breve instante Se torna em luto o resplendor brilhante.
Arrebatado em vão te solicito Por qualquer parte que se estenda o grito, E aos ecos, ao clamor, que aos troncos passa (Funestíssimo aviso da desgraça)
Apenas fala, apenas me responde O desengano, que esta penha esconde. Mas como em te encontrar minha ânsia tarda, Se só este penhasco é quem te guarda!
Ele a saudade tua recomenda, Ele me escute, pois, ele me atenda. Mármore bruto, que em teu seio encobres Triste despojo de relíquias pobres,
Eu me chego a escutar-te: a ouvir-te venho, Talvez de tanto ardor no heróico empenho, Ao crédito maior esta alma aspira. Se enlaçado nas redes da mentira
Amei té agora o meu profundo sono, De tanto anúncio ao peregrino abono, Eu quero despertar: volta a falar-me, Ó dura penha, eu quero aconselhar-me
Contigo mesmo. Que lições prudentes Hoje me estás ditando! Oh! que eloquentes Falam as sombras, os horrores falam, Quando os alentos, quando as vozes calam!
Dentro sepultas desse cofre infausto De Aônio o resplendor, o lustre, o fausto. Debaixo jaz dessa fatal dureza Aquele ativo engenho, que a destreza
De Minerva poliu; o que esgotara D’alta jurisprudência a luz mais rara. Aqui sepultas, ó penhasco duro (Tudo te digo), aquele Amigo puro,
Que ausente de minha alma hoje me ordena A companhia só da minha pena. No teu silêncio encontro o desengano Do caduco esplendor do alento humano.
Tu me dizes quão pouco ao mundo importa Esta cansada vida que suporta Das fadigas o peso intolerável. Venturoso Baixel em golfo instável
Me finges, me figuras: brando o vento Ordenava a carreira; solto o alento Das velas respirava a Nau segura; Tranquilo o mar com próspera brandura
Sustentava o seu peso: no acidente De ingrata tempestade de repente Se escandeliza o Céu; o mar se altera; Rompem-se as velas; pela crespa esfera
Vaga perplexo o lenho, absorto vaga; Já perde o rumo, e infeliz naufraga. E que se espera entre a fatal ruína? Que mais se espera? Se da luz benigna
Se desperdiça o breve auxílio, ao menos Enquanto a nós os Zéfiros serenos Nos influem propícios, indeciso Não vacile o discurso; o obséquio, o riso
Deste mísero golfo se aproveite, Abominando os vícios, e o deleite De tanto ardor profano: a razão venha, E vendo que no abismo se despenha,
De seus mesmos horrores triunfante, Sobre tanto desmaio o ardor constante Da antiga Babilônia, que se estraga, Novos alentos das ruínas traga.
Tudo, ó bruto penhasco, me insinua O teu mesmo silêncio, a sombra tua. E pois te encontro agora tão propício, Só te quero rogar o benefício
De que ao triste cadáver alguma hora A ânsia ardente com que esta alma o chora, Por último favor, lhe comuniques. Peço-te que de todo o certifiques
Do muito que o lastimo; e se há piedade Nessa estranha região, chegue a saudade Que te consagro, ô extremoso Amigo, Sempre a viver, sempre a morrer contigo.
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