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1729–1789

EPICÉDIO II

Cláudio Manuel da Costa

Espírito imortal, tu que rasgando Essa esfera de luzes, vais pisando Do fresco Elísio a região bendita, Se nesses campos, onde a glória habita,

Centro do gosto, do prazer estância, Entrada se permite à mortal ânsia De uma dor, de um suspiro descontente, Se lá relíquia alguma se consente

Desta cansada, humana desventura, Não te ofendas, que a vítima tão pura, Que em meus ternos soluços te ofereço, Busque seguir-te, por lograr o preço

Daquela fé, que há muito consagrada Nas aras da amizade foi jurada. Bem sabes, que o suavíssimo perfume, Que arder pode do amor no casto lume,

Os suores não são deste terreno, Que odorífero sempre, e sempre ameno, Em coalhadas porções Chipre desata: Mais que os tesouros, que feliz recata

A arábica região, amor estima Os incensos, que a fé, que a dor anima, Abrasados no fogo da lembrança. Esta pois a discreta segurança,

Com que chega meu peito saudoso, A acompanhar teu passo venturoso, Oh sempre suspirado, sempre belo, Espírito feliz: a meu desvelo

Não negues, eu te rogo, que constante Viva a teu lado sombra vigilante. Inda que estejas de esplendor cercada, Alma feliz, na lúcida morada,

Que na pompa dos raios luminosa Pises aquela esfera venturosa, Que a teu merecimento o Céu destina; Nada impede, que a chama peregrina

De uma saudade aflita, e descontente, Te assista acompanhando juntamente. Antes razão será, que debuxada Em meu tormento aquela flor prostrada,

Sol em teus resplendores te eternizes, E Clície em minha mágoa me divises; Entre raios crescendo, entre lamentos, Em mim a dor, em ti os luzimentos.

Se porém a infestar da Elísia esfera A contínua, brilhante primavera Chegar só pode o lastimoso rosto Deste meu triste, fúnebre desgosto,

Eu desisto do empenho, em que deliro; E as asas encurtando a meu suspiro, Já não consinto, que seu vôo ardente A acompanhar-te suba diligente:

Antes no mesmo horror, na sombra escura Da minha inconsolável desventura Eu quero lastimar meu fado tanto, Que sufocado em urnas de meu pranto,

A tão funesto, líquido dispêndio, A chama apague deste ardente incêndio. Indigno sacrifício de uma pena, Que chega a perturbar a paz serena

De umas almas, que em campos de alegria Gozam perpétua luz, perpétuo dia; Que adorando a concórdia, desconhecem Os sustos, que da inveja os braços tecem;

Que ignoram o rigor do frio inverno; E que em brando concerto, em jogo alterno Gozam toda a suavíssima carreira De uma sorte risonha, e lisonjeira.

Ali, entre os favônios mais suaves, A consonância ofenderei das aves, Que arrebatando alegres os ouvidos, Discorrem entre os círculos luzidos

De toda a vegetante, amena estância. Ali pois as memórias de minha ânsia Não entrarão, Salício: que não quero Ser contigo tão bárbaro, e tão fero,

Que um bem, em cuja posse estás ditoso, Triste magoe, infeste lastimoso. Cá vivera comigo a minha pena, Penhor inextinguível, que me ordena

A sempre viva, e imortal lembrança. Ela me está propondo na vingança De meu fado inflexível, ó Salício, Aquele infausto, trágico exercício,

Que os humanos progressos acompanha. Quem cuidara, que fosse tão estranha, Tão pérfida, tão ímpia a força sua, Que maltratar pudesse a idade tua,

Adornada não só daquele raio, Que anima a flor, que se produz em maio; Mas inda de frutíferos abonos, Que antecipa a cultura dos outonos!

Cinco lustros o Sol tinha dourado (Breves lustros enfim, Salício amado), Quando o fio dos anos encolhendo, Foi Átropos a teia desfazendo:

Um golpe, e outro golpe preparava: Para empregá-lo a força lhe faltava; Que mil vezes a mão, ou de respeito, De mágoa, ou de temor, não pôs o efeito.

Desatou finalmente o peregrino Fio, que já tecera. Ah se ao destino Pudera embaraçar nossa piedade! Não te glories, trágica deidade,

De um triunfo, que levas tão precioso: Desar é de teu braço indecoroso; Que inda que a fúria tua o tem roubado, A nossa dor o guarda restaurado.

Vive entre nós ainda na memória, A que ele nos deixou, eterna glória; Dispêndios preciosos de um engenho, Ou já da natureza desempenho,

Ou para a nossa dor só concedido. Salício, o pastor nosso, tão querido, Prodígio foi no raro do talento, Sobre todo o mortal merecimento;

E prodígio também com ele agora Se faz a mágoa, que o lastima e chora. A lutuosa vítima do pranto Melhor, que o imarcescível amaranto,

Te cerca, ó alma grande, a urna triste; O nosso sentimento aqui te assiste, Em nênias entoando magoadas Hinos saudosos, e canções pesadas.

Quiséramos na campa, que te cobre, Bem que o tormento ainda mais se dobre, Gravar um epitáfio, que declare, Quem o túmulo esconde; e bem que apare

Qualquer engenho a pena, em nada atina. Vive outra vez: das cinzas da ruína Ressuscita, ó Salício; dita; escreve; Seja o epitáfio teu: a cifra breve

Mostrará no discreto, e no polido, Que é Salício, o que aqui vive escondido.

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