A ti me chego, ó Mausoléu sagrado, De um alto Herói depósito adorado, Permite que aos impulsos do gemido, Das lágrimas, dos ais, corra advertido
A venerar as cinzas que sepultas. Sei que ambicioso uma relíquia ocultas Do mais raro Varão, que aponta a história Nos eternos volumes da memória.
Daquele, que proposto como espelho De uma inteira virtude, no conselho, Na execução, mostrou que unir sabia As leis da temperança e da valia,
Sustentando por modo estranho e raro Do Monarca o amor, do povo o amparo. Sei que guardas (eu digo) nas entranhas O generoso braço, que às campanhas
Deu assombro e terror; sei (porque tudo Explique de uma vez) que no horror mudo Desse cofre soberbo a estranha dita De um Andrada imortal se deposita;
Que no busto fatal a estampa grata Do mais distinto Freire se retrata; Que se guarda e se adora a imagem bela Desse Conde feliz de Bobadela.
Ao romper o clamor das tristes vozes, Ao soltar estas cláusulas velozes, Oh! qual eco de dor, de pena, e pranto Se vê corresponder a impulso tanto!
Em lágrimas se rompe o peito aflito: De sombras veste o Céu; ao triste grito Soluça o ar, os elementos gemem; Todos da terra os fundamentos tremem;
E parece que a fúnebre saudade Não encontra na vasta imensidade De um mundo, que compreende, aquela esfera, Que para o desafogo achar quisera.
Mas que muito, que ao lúgubre gemido Se altere e cresça o universal ruído, Se perde Portugal, se o mundo perde Aquela sempre firme, sempre verde
Rama da heroicidade transtagana! Se enfim de toda a glória lusitana Um só Herói, que enchera o fasto inteiro, Hoje vem a jazer por derradeiro
Deste calado horror no abrigo triste! Aqui todo o valor de Marte assiste; Aqui jaz todo o alento da piedade; Aqui o desempenho da lealdade,
O magnífico, o sábio, o reto, o ativo, O liberal, constante, discursivo, Prudente, valeroso: ah! que a tal brado Confunde-se a razão, pasma o cuidado!
Amplificar a esplêndida figura De seus dotes quisera; abra a escultura Dos pórticos a Fama; os olhos entrem; Registem as estampas; reconcentrem
A longa admiração: desde a corrente Do cristalino Tejo, oh! que valente Neste quadro respira! Aqui, tingindo Do sangue ibero as preciosas veias,
Roxas tornando as pálidas areias, Une de Portugal ao cetro egrégio Tantos novos troféus; o privilégio De seu braço imortal quanto se aclama,
Quando em Campo Maior o cinge a rama, Por triunfar co’as lusitanas Quinas! Tu, soberba Castela, entre as ruínas De teus muros o choras, o teu susto
Lá lhe soube tecer o louro augusto, Com que apesar de tanto pranto e mágoas, Enobreceu do Guadiana as águas. Esse ferro, que agora dependura
Tinto de sangue a Fama, te assegura, Aflito Portugal, as leis e o trono. Da tua permanência o eterno abono Deves àquela espada; ela se ensaia
Nos ilustres Avós: qual em Cambaia O seu nome deixou! qual em Quiloa Debuxa o seu brasão! Lá vive em Goa A memória do sangue: honrado emblema
São de tanta virtude em nobre lema, Entre as chamas dos bélicos alfanjes, As ânsias do Indo, as lágrimas do Ganges. Feliz, ó Portugal, feliz mil vezes
Tu, que para esplendor dos Portugueses Deste ferro a memória tens guardado! Se queres ser no mundo respeitado Pela virtude, outro brasão não tomes,
Que ser Pátria dos Freires e dos Gomes. Quem haverá que a competir se atreva, Quando (porque imortal ouvir se deva) Desde o teu berço este pregão respire!
Eu te prometo que por mais que gire O Planeta da luz, outro portento, Outra estirpe maior em todo o alento Da fama se não logre: aqui se estende,
Aqui se alcança, aqui se compreende Tudo quanto por glória, e por vaidade, Engrandece o esplendor da heroicidade. Mil séculos, e mil se tem passado,
Desde que o Céu com próvido cuidado Vem lavrando a feliz genealogia De Varões tão fiéis: a Monarquia Os honra no solar de Bobadela
Em um Nuno, um Bermudes, um Fruela, Um Rodrigo, um Forjaz, Peres, Fernandes, Um Mendes, um Pauzona, e outros Grandes, Que apontam com espíritos sublimes
A Desidério, Rei dos Longobardos. Estes os imortais progenitores, Que intimando no exemplo dos suores A imitação de um Freire, em glória estranha
Enchem a Portugal, a Itália, e Espanha, As Barras inculcando por divisa No brasão, que o seu nome soleniza. Mas como em um só quadro me detenho,
Admirando o valor, se o desempenho De outras tantas virtudes tem chegado A encher da Fama o generoso brado! Fale a acorde harmonia, com que o vejo
Temperando o governo: aqui do Tejo A Nau soberba se desata, aonde O valeroso espírito se esconde, Que ao antártico clima foi mandado
A governar todo o País dourado. Este é das Minas, este o áureo hemisfério, Nobre porção do lusitano Império: Aqui, ó Rei, ao meu Herói confias
As rédeas do governo. De teus dias A dilatar o esplêndido progresso Terias outro abono! Eu não conheço Vê qual desinteresse o acredita
Digno de teu favor: entre a esquisita Cópia de tanto Ofir, a prata, o ouro, O topázio, as safiras, o tesouro Dos diamantes, que a terra desentranha,
Não sabem conceber a empresa estranha De atrair-lhe a ambição; ao seu desprezo Serve apenas de objeto o raio aceso Do precioso metal; a alma se cria
Com tão nobre, louvável rebeldia, Que nada menos a molesta e cansa Que sustentar a sólida aliança Que fez com a justiça: este progresso
Ganha em teu peito o luminoso apreço De um vassalo fiel, nele guardando De três governos repartido o mando O Rio de Janeiro lhe obedece;
De São Paulo o empório reconhece A alta moderação; e as Minas douro Se esclarecem, tecendo o fausto agouro. Mas oh! e com que inteiro movimento
A propagar do cetro o régio aumento, Apesar do trabalho, a mão se aplica, Quando o peso se dobra, ou se triplica! Como a sagrada lei primeiro objeto
É da sua intenção, o alto projeto De encher a obrigação do cargo ilustre Quanto na execução lhe esforça o lustre! De Nêmesis, parece que a balança
Nunca teve outro ponto; a segurança Do fiel observou tão finamente, Que se o digno se alegra, o delinquente Não acusa o castigo: a pena, o prêmio,
Achando na justiça igual o grêmio, Saíam dentre as mãos tão bem pesados, Que se viram talvez equivocados O prazer e a dor: louva o aflito
A justa punição do seu delito; E chora o benemérito, no susto De não ser imortal Herói tão justo Pronto o despacho, a súplica atendida,
Castigada a maldade, agradecida A retidão, a idéia vigilante Não conhece repouso um só instante: Enfim o seu descanso, o seu sossego
É só a instância do zeloso emprego. Oh! que estranha se inculca a nobre idéia Deste saudoso Herói! Tanto de Astréia O espírito igualou, que ao Rei, ao povo
Soube conciliar por modo novo. O vasto empório das douradas Minas Por mim o falará: quando mais finas Se derramam as lágrimas no imposto
De uma capitação, clama o desgosto De um País decadente; e ao seu gemido Se enternece piedoso o esclarecido, O generoso Herói: ao Soberano
Conduz a queixa, representa o dano. Chega o remédio pela mão piedosa, Ministra do favor; menos penosa Já se modera a imposição: contente
Já ri o povo, já se alegra a gente. Lisonjeiro o prazer cada um descobre, Os pequenos, o grande, o rico, o pobre. Ó alma grande! Ó alma esclarecida!
Digna de ser guardada, ser nutrida Na pompa dos Elísios, entre os belos Espíritos dos Élios, dos Metelos, Dos Cipiões, Temístocles, Zopiros
E outros, que em felicíssimos retiros Gozando estão as auras lisonjeiras, Em prêmio desse amor, com que as primeiras Fadigas de um solícito cuidado
Pelo Rei, pela Pátria hão consagrado. Estes os frutos são dessa doutrina, Que bebeste na cândida oficina De uma ética inata: ali se alcança
Aquela inalterável confiança, Que em ti sabes firmar, mostrando ao mundo, Com desprezo da inveja, o mais profundo, Positivo esplendor, que te reserva,
Superior à emulação proterva. Que importa que de estrada dissonante, Seguindo outros talvez o curso errante, Assegurar pertendam sobre o trono
De um alto valimento o régio abono, Se essa idéia injustíssima que os guia, Estragando os desígnios, algum dia Fará gemer com lástima importuna
O mal seguro alento da fortuna! A idéia mais feliz de ser aceito À vontade de um Rei é ter o peito Sempre animado de um constante impulso
De amar o que for justo: este acredita Ao servo, que obedece; felicita Ao Rei, que manda; este assegura a fama; Este extingue a calúnia, e apaga a chama,
De um ânimo perverso, que atropela O precioso ardor de uma alma bela. Pelos degraus desta feliz escada, Subiste, ó Freire excelso: ao braço, à espada,
Ou na civil Minerva, ou na Castrense, Há um Rei, que as fadigas te compense. Triplica-te o governo; honra-te o cargo; Teus méritos confessa; um campo largo
Aos prêmios abre; a General te chama; Te fia os seus exércitos; te aclama Na régia comissão seu substituto. De tão alta virtude o egrégio fruto
Respira enfim no esplêndido apelido, Título grande, sim; mas tão devido, Que inda que teus serviços ornar venha, Cuido que a régia mão não desempenha.
Não te faz grande o Rei: a ti te deves A glória de ser grande; tu te atreves Somente a te exceder; outro ao Monarca Deva o título egrégio, que o demarca
Entre os Grandes por Grande; em ti louvado Só pode ser o haver-te declarado. Mas que muito, que a tanto Herói assista Este influxo feliz, se ele conquista
Com seus braços o Céu! ele desata Com a mão liberal a cópia grata De tantos cabedais: é confiado Menos o soldo, para o nobre estado,
Que para sustentar com régio empenho Do coração devoto o desempenho. A dispêndios do ardor, que a alma respira, Ali aquele pórtico se admira,
Por onde se abre ao mundo a excelsa entrada De uma casa, que a Deus é consagrada. Têm de Teresa as religiosas filhas Ali um santo abrigo: as maravilhas
De um zelo nunca visto ali se inculcam. Buscas o Autor da nobre arquitetura? Queres saber quem ergue essa estrutura, O dórico, o coríntio frontispício?
Esse mármore o diga: mas o indício Na pedra se não grava: oh! que a piedade Lhe encurtou esse alento na vaidade! Foi providência, não foi erro: ignora
Esse mármore egrégio a mão que o fora Desentranhando desde a terra dura, Que o erguera e polira. O Herói procura Que se esconda o seu nome. Em glória tanta
O seu mesmo silêncio é quem o canta. Vê que o dogma evangélico encomenda Que a direita co’a esquerda não se entenda: E esta máxima tanto a Freire agrada,
Que até com Deus a deixa praticada. Deu a Deus só por Deus: ao padrão sobra Saber que a Deus é consagrada a obra. E quem (oh! Céus!), quem há que não presuma
Educado este espírito na suma, Penitente fadiga dos desertos! Quem há que estes estímulos despertos Não julgue na Tebaida mais austera!
Mas oh! quanto a virtude mais se esmera, Lá cultivada desde a tenra idade, Entre a perversa, mísera vaidade Da militar licença, onde se apura
Toda a relaxação, toda a soltura! Outro talvez de escola, que é tão fera, Razão de seus escândalos trouxera: Só acha Gomes da virtude a chama
No mavórcio exercício; ali se inflama Na alta meditação de um pensamento, Que só em Deus contempla o fundamento De toda a humana glória: na vigia,
Nos sítios, nos ataques, na porfia Dos choques, dos assédios, lá protesta Que a mão é só de Deus; nada lhe resta Que esperar de si mesmo: neste estudo
Tudo se logra, se prospera tudo. Não me suspenda deste templo o objeto; Discorra a admiração: o ardente afeto, Com que se entrega ao Céu, que bem se explica
Nessas casas de Deus! ele se aplica A Protetor da caridade santa. Com seu fervor congregações levanta, Onde aos pobres assista. O Pão Sagrado
Se ministra aos enfermos; acha o aflito No cárcere o favor, para o delito Se deputa Advogado; ao morto acode Com o supremo ofício a mão piedosa.
Tu, Vila Rica, tu, a mais saudosa, Nessa casa de Deus, que hoje sustentas, O choras, o suspiras, o lamentas. Tu o choras, ó mundo: mas que digo!
O Céu o chora, o Céu: que o braço amigo Não fez mais grato o mundo, que fizera Agradecido o Céu: ele quisera Este Herói imortal; a lei sagrada
Da Providência, a lei sempre adorada É quem o rouba da ventura nossa, Quem de nós o separa, sem que possa Suspender-se a si mesma: é Providência;
Mas que digo! é decreto; é obediência. E quem sabe se lá no eterno seio Das idades futuras (não o creio), Quem sabe se apesar da estranha inveja
Outra alma tornará, onde se veja, Para consolação desta ânsia aguda, A virtude exemplar, que aqui se estuda! Em que tão largos séculos prepara
O Céu uma alma grande! O Tejo o diga Se de Heróis lusitanos na fadiga Deu à Fama, em idade dilatada, Outro Freire, outro Gomes, outro Andrada.
Consolação pesada eu te proponho, Ó Reino, em tal memória: sei que choras Os breves dias, as ligeiras horas, Que lhe cortou o próvido destino.
Ah! se o viras no susto intercadente Do mortal desalento! o pranto infausto Se convertera em júbilo. O holocausto De uma alma pura ele feliz votava
Ao Criador eterno, e se abraçava Com a celeste imagem de Teresa. Dos amigos, dos servos a tristeza Em melhor sorte converter queria.
O alento pouco e pouco se extinguia; E seguro da empresa... ah! que emudeço! Eu pasmo; eu tremo; eu choro; eu desfaleço. Já roto, já quebrado o nobre escudo,
Guarda o Gênio o brasão: entre o horror mudo O Templo de Teresa já demanda Conduzido o cadáver; surda e branda Se ouve a harmonia do tambor guerreiro;
Arrastam-se as bandeiras; pregoeiro É o rouco metal; o pó sulfúreo Em salvas se dispende: uma ânsia interna A pompa funeral rege e governa.
Cingido dos Brandões, que a mágoa sofre, Prossegue logo em um dourado cofre O ilustre coração. Oh! quanto é digno De respirar eterno o ardor benigno
Que o nutriu, que o gerou! penhor sagrado, Do caráter de um Freire fiel traslado! Deva ao bálsamo, deva o benefício De triunfar do infausto precipício
Dos anos, nele achando a atividade, Que não pôde encontrar na humanidade. Não pode, excelso Herói, não pode esta ânsia Permitir mais esforços à constância.
A registar de todo não me atrevo O Templo, que busquei; a cifra escrevo, Porque o mundo jamais de ti se esqueça: Aqui jaz... mas que digo! aqui começa
A nascer a virtude: não se apaga Uma ilustre memória; não se estraga Uma excelsa relíquia; antes mais templos Se produzem da vida dos exemplos.
Oh! que enganadamente solicito Achar letra que explique aquele invicto Espírito, que choro: em vão se atenda O risco, que lavrei. Tudo se emenda,
Tudo já se desfaz. Se o néscio intento Eternizar procura o monumento, Seja túmulo o mundo. A cobertura Seja o Céu: honre a esplêndida figura
Das faixas toda a luz, a impulso tanto, Suspiro o fogo, e oceano o pranto.
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