Aqui tens, minha Lise, o teu vaqueiro, Que vem pelo calor do Sol ardente, A suspirar por ti o dia inteiro. Com a glória, meu bem, de ter presente
A meus olhos a tua formosura, Passo de pesaroso a estar contente. Toda esta noite vi tua figura Em uma sombra vã, que me fingia
A minha inconsolável desventura. Só nisto fui feliz: porque te via Tão branda, tão suave, como aquela Que a natureza em outra convertia.
Abracei-te, Pastora; e tu, mais bela, Mais compassiva, ouviste o meu lamento, Tornando venturosa a minha estrela. Bem puderas, Laurênio, desse intento
Desvanecer-te já; pois é sabido Que não posso atender a teu tormento. Tu conheces mui bem que em meu sentido Só vive aquela lei, que me sujeita
A não ser livre, como tenho sido. Eu conheço: mas sei que n’alma aceita Pode ser a fineza de um serrano, Que adora uma Pastora tão perfeita.
Se entre os amantes teus é só Montano O ditoso senhor de um tal tesouro, De que anda entre nós outros tão ufano: Soprou-lhe a sorte com melhor agouro,
Que o seu gado não foi de mais estima, Nem o cajado seu de prata, ou ouro. É um tosco vaqueiro, que de cima Da serra aqui desceu: nós o alcançamos
Em tempo de Natércia, tua prima. De bois uma só junta lhe contamos, Quando entrou neste campo: triste, e pobre, Aqui fez uma choça entre estes ramos.
Agora o seu rebanho os vales cobre: Talvez que o fazer mal isso lhe desse, E que co’alheio bem hoje os seus dobre. Miserável daquele que os perdesse!
Que ele, só porque é rico, teve a dita De que tão bela mão teu Pai lhe desse. Oh! muitas vezes condição maldita Esta, que fez no mundo diferença
Entre aquele que tem, ou necessita! Laurênio, o meu decoro não dispensa Nessa prática tua: a honestidade Tem a mais leve sombra por ofensa.
Inda que o meu Pastor te não agrade, Ou seja murmurada a minha sorte, É sua esta minha alma, esta vontade. A lei que me prendeu, somente a morte
A pode desatar: culpa o destino, Que eu tenho sobre mim poder mais forte. Pois nem sequer, meu bem, meu desatino Te chega a merecer uma esperança,
De ser pago algum dia amor tão fino? Não emprendas de mim mais segurança Que aquela que te dou: ao Céu protesto Que em meu obrar não há de haver mudança.
E tu, se me não queres ser molesto, Deixa de repetir-me essa loucura: Pois viste o meu desgosto manifesto. Ó bárbara, ó cruel, ó ímpia, ó dura!
Que, em vez de agradecer-me, te conspiras Contra uma alma que amar-te só procura. Se quem te ama merece as tuas iras, Quem pode estar seguro desses raios,
Que contra tantos mil, cruel, atiras? Só quem não vê, nem morre nos ensaios Do cego Deus de Amor. Tudo te adora: Que em tudo influi Amor os seus desmaios.
Eu só (triste de mim!), eu só, Pastora, Te adoro mais que todos: que Amor cego Quis que eu dos tiros seus vítima fora. Lá desde as verdes margens do Mondego,
Fez Amor que na lira eu me ensaiasse Para cantar de ti, meu belo emprego. Mas ah! tirano Amor! quem te arrancasse Essas asas, com que teu vôo elevas?
Quem arco, aljava, e flechas te quebrasse! Como é possível, Monstro, que te atrevas A pôr teu pensamento em tanta altura, Para cair depois no horror das trevas?
Que bem se diz que vens da massa dura Do Ródope, ou do Mauro! Que bem creio Ignoras, cego Amor, nossa brandura! Tu me condenas a chorar sem freio
Por aquela que zomba do meu pranto; Que farta o seu rigor do sangue alheio! Ah! Não, Laurênio, não: não passe a tanto Esse ingrato delírio: eu inda espero
Que tenha a tua dor algum quebranto. Apouco apouco me entra o golpe fero A traspassar esta alma; bem que ignoro Se é piedade, se amor o que pondero.
Verei se sem ofensa do decoro Posso achar algum modo de pagar-te Esse suspiro teu, esse teu choro. Em todo aquele alento, aquela parte,
Que da casta prisão se julgue isenta, Eu prometo, Laurênio, de estimar-te. Vai: leva esta esperança, e te contenta.
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