Já vinha a manhã clara Dourando os horizontes, E os empinados montes Com a rosada luz, que os prateara,
Mostravam na campina O lírio, o goivo, a rosa, e a bonina. Nas ondas cintilava O rosto luminoso,
Com que de Cíntia o esposo A pobre terra clara luz mandava, Formando um transparente, Na verde relva, resplendor luzente.
Ambos os pescadores, Alicuto e Marino, A quem o Deus Menino Ateou na água o fogo dos amores,
As redes recolhiam; E de bastante peixe o barco enchiam. A praia procurando Vinham tão mansamente,
Que nem o mar se sente Ferido de um, e outro remo brando, Quando do seu destino Começou a queixar-se assim Marino.
Alicuto o acompanha Co’a sonora harmonia, Que, há tempos, aprendia De um pastor, que viera da montanha;
E a seu modo vertendo Para a ninfa do mar, ia dizendo. Se assim como a manhã clara, e brilhante É da minha adorada o belo rosto,
Como naufraga o peito vacilante, No incerto mar de um fúnebre desgosto! Eu vejo, que se alegram neste instante Cheios de glória, de prazer, e gosto,
Este mar, esta praia, esta ribeira: Só não há cousa, que alegrar me queira. Deiopéia adorada, a luz do dia, Como funesta nasce a um desgraçado!
Quanto me foi suave a noite fria, Tanto o rosto da Aurora me é pesado: O silêncio da noite dirigia O sossego também de meu cuidado;
E apenas foge o horror da sombra escura, Quando mais viva toco a desventura. Que importa, que em contínua sentinela Eu ande os crespos mares descobrindo,
Se ingrata sempre a luz da minha estrela Me vai desses teus olhos dividindo! O vento, que suave entesa a vela, A meu ligeiro barco a estrada abrindo,
Solícito me guia a esta praia; Onde sem ver-te o coração desmaia. Três dias há, que giro, amada minha, Desesperado nesta mortal ânsia
De ver o prêmio, que guardado tinha A meu peito fiel tua inconstância. Outra ventura, outra mercê convinha, De tanto amor, à fatigada instância
E quando o não mereça na verdade, Quem há, que não te estranhe a falsidade! Abrasadas as ondas deste pego Tenho já com meus ais, com meus suspiros;
Ele me escuta; eu cada vez mais cego Acuso a sem-razão de teus retiros. De meus males ao passo, que o navego, O peso sente, e se revolve em giros;
E até as brutas penhas mais pesadas Estão de meu tormento magoadas. Qual o peixe inocente, que enganado Bebe no curvo anzol a morte feia,
Sem ver, que o pescador lhe tem armado Escondida prisão, em que se enleia; Ou qual o navegante, que enlevado No canto está da pérfida sereia;
E prova sem cautela a morte dura Entre os penhascos, onde o mar murmura. Qual foge o grande monstro, que o mar cria, Do arpão ferido, em sangue o mar banhando;
Quando cuida, que escapa à morte fria, O alento pouco, e pouco vai deixando; O destro pescador, que a presa fia Do agudo ferro, a linha então largando,
Quando de todo já exangue o sente, O barco chega, e o colhe mais contente. Tal eu, doce inimiga, sem cautela Adorava a traição de um falso engano,
Que no teu rosto, ó sempre ingrata, e bela. Sonhe dissimular Amor tirano Acreditando aquela indústria, aquela Mal escondida imagem de meu dano,
Imaginei, que o que era aleivosia, De um fino, e puro coração nascia. Não de outra sorte a bárbara destreza Dessa homicida mão, dessa alma ingrata,
Depois de assegurar minha firmeza, De mim se ausenta, e com rigor me mata: Ah! quanto temo, ninfa, que a fereza De tua condição, que assim me trata,
Nestas ondas em penha convertida, Pague o delito de roubar-me a vida! De que serve, que eu traga do mar fundo, A preço de fadiga tão pesada,
Esta, que em tal excesso estima o mundo, Rama, que fora d’água é encarnada? De que serve; que lá do mais profundo Venha ofrecer-te a pérola engraçada,
Se encontro sem-razões, iras, rigores? Se os teus desprezos sempre são maiores? Para trazer-te o peixe delicado, No rio escondo as nassas, ninfa minha;
E ao levantar seu peso desejado, Vejo saltar a truta e a tainha: Não me fica também no mar salgado O retorcido búzio, e a conchinha;
Que supondo ser cousa, que te agrade, Tudo te vem render minha vontade. Em pensamentos mil eu me desfaço, Ao ver traição tão bárbara, e tão crua;
Rompo o vestido, o corpo despedaço Quando me lembra a falsidade tua: Loucuras mil, mil desatinos faço, Sem pejo, e sem vergonha; em pele nua
Corro esta praia, giro esta ribeira; E ninguém há, que socorrer me queira. Mas que é isto, Alicuto? O nosso canto Quase que vai passando a impaciência.
Que há de ser, se o meu mísero quebranto Se apodera de mim com tal violência? Mal haja o ter amor, que pode tanto. Mal haja o conhecer uma inclemência.
Que intentar-lhe fugir é desatino. Que assim o sinto eu, e tu, Marino. Temos chegado ao porto: larga o remo; Salta na praia tu; que eu aqui fico;
A ver, se vejo a ninfa, por quem gemo, E a quem as minhas lágrimas dedico. Não fiques não, Marino: porque temo Maior mágoa; que a dor, que sacrifico.
Carreguemos o peixe; que na aldeia Talvez estejam Glauce; e Deiopéia. Assim se acomodavam, E o peixe dividindo
Entre ambos, vão subindo Um levantado oiteiro, a que chegavam, Deixando entanto posta No barco a vara, a rede ao Sol exposta.
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