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1729–1789

ÉCLOGA XVI

Cláudio Manuel da Costa

Já vinha a manhã clara Dourando os horizontes, E os empinados montes Com a rosada luz, que os prateara,

Mostravam na campina O lírio, o goivo, a rosa, e a bonina. Nas ondas cintilava O rosto luminoso,

Com que de Cíntia o esposo A pobre terra clara luz mandava, Formando um transparente, Na verde relva, resplendor luzente.

Ambos os pescadores, Alicuto e Marino, A quem o Deus Menino Ateou na água o fogo dos amores,

As redes recolhiam; E de bastante peixe o barco enchiam. A praia procurando Vinham tão mansamente,

Que nem o mar se sente Ferido de um, e outro remo brando, Quando do seu destino Começou a queixar-se assim Marino.

Alicuto o acompanha Co’a sonora harmonia, Que, há tempos, aprendia De um pastor, que viera da montanha;

E a seu modo vertendo Para a ninfa do mar, ia dizendo. Se assim como a manhã clara, e brilhante É da minha adorada o belo rosto,

Como naufraga o peito vacilante, No incerto mar de um fúnebre desgosto! Eu vejo, que se alegram neste instante Cheios de glória, de prazer, e gosto,

Este mar, esta praia, esta ribeira: Só não há cousa, que alegrar me queira. Deiopéia adorada, a luz do dia, Como funesta nasce a um desgraçado!

Quanto me foi suave a noite fria, Tanto o rosto da Aurora me é pesado: O silêncio da noite dirigia O sossego também de meu cuidado;

E apenas foge o horror da sombra escura, Quando mais viva toco a desventura. Que importa, que em contínua sentinela Eu ande os crespos mares descobrindo,

Se ingrata sempre a luz da minha estrela Me vai desses teus olhos dividindo! O vento, que suave entesa a vela, A meu ligeiro barco a estrada abrindo,

Solícito me guia a esta praia; Onde sem ver-te o coração desmaia. Três dias há, que giro, amada minha, Desesperado nesta mortal ânsia

De ver o prêmio, que guardado tinha A meu peito fiel tua inconstância. Outra ventura, outra mercê convinha, De tanto amor, à fatigada instância

E quando o não mereça na verdade, Quem há, que não te estranhe a falsidade! Abrasadas as ondas deste pego Tenho já com meus ais, com meus suspiros;

Ele me escuta; eu cada vez mais cego Acuso a sem-razão de teus retiros. De meus males ao passo, que o navego, O peso sente, e se revolve em giros;

E até as brutas penhas mais pesadas Estão de meu tormento magoadas. Qual o peixe inocente, que enganado Bebe no curvo anzol a morte feia,

Sem ver, que o pescador lhe tem armado Escondida prisão, em que se enleia; Ou qual o navegante, que enlevado No canto está da pérfida sereia;

E prova sem cautela a morte dura Entre os penhascos, onde o mar murmura. Qual foge o grande monstro, que o mar cria, Do arpão ferido, em sangue o mar banhando;

Quando cuida, que escapa à morte fria, O alento pouco, e pouco vai deixando; O destro pescador, que a presa fia Do agudo ferro, a linha então largando,

Quando de todo já exangue o sente, O barco chega, e o colhe mais contente. Tal eu, doce inimiga, sem cautela Adorava a traição de um falso engano,

Que no teu rosto, ó sempre ingrata, e bela. Sonhe dissimular Amor tirano Acreditando aquela indústria, aquela Mal escondida imagem de meu dano,

Imaginei, que o que era aleivosia, De um fino, e puro coração nascia. Não de outra sorte a bárbara destreza Dessa homicida mão, dessa alma ingrata,

Depois de assegurar minha firmeza, De mim se ausenta, e com rigor me mata: Ah! quanto temo, ninfa, que a fereza De tua condição, que assim me trata,

Nestas ondas em penha convertida, Pague o delito de roubar-me a vida! De que serve, que eu traga do mar fundo, A preço de fadiga tão pesada,

Esta, que em tal excesso estima o mundo, Rama, que fora d’água é encarnada? De que serve; que lá do mais profundo Venha ofrecer-te a pérola engraçada,

Se encontro sem-razões, iras, rigores? Se os teus desprezos sempre são maiores? Para trazer-te o peixe delicado, No rio escondo as nassas, ninfa minha;

E ao levantar seu peso desejado, Vejo saltar a truta e a tainha: Não me fica também no mar salgado O retorcido búzio, e a conchinha;

Que supondo ser cousa, que te agrade, Tudo te vem render minha vontade. Em pensamentos mil eu me desfaço, Ao ver traição tão bárbara, e tão crua;

Rompo o vestido, o corpo despedaço Quando me lembra a falsidade tua: Loucuras mil, mil desatinos faço, Sem pejo, e sem vergonha; em pele nua

Corro esta praia, giro esta ribeira; E ninguém há, que socorrer me queira. Mas que é isto, Alicuto? O nosso canto Quase que vai passando a impaciência.

Que há de ser, se o meu mísero quebranto Se apodera de mim com tal violência? Mal haja o ter amor, que pode tanto. Mal haja o conhecer uma inclemência.

Que intentar-lhe fugir é desatino. Que assim o sinto eu, e tu, Marino. Temos chegado ao porto: larga o remo; Salta na praia tu; que eu aqui fico;

A ver, se vejo a ninfa, por quem gemo, E a quem as minhas lágrimas dedico. Não fiques não, Marino: porque temo Maior mágoa; que a dor, que sacrifico.

Carreguemos o peixe; que na aldeia Talvez estejam Glauce; e Deiopéia. Assim se acomodavam, E o peixe dividindo

Entre ambos, vão subindo Um levantado oiteiro, a que chegavam, Deixando entanto posta No barco a vara, a rede ao Sol exposta.

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