Agora, que do alto vem caindo A noite aborrecida, e só gostosa Para quem o seu mal está sentindo; Repitamos um pouco a trabalhosa
Fadiga do passado; e neste assento Gozemos desta sombra deleitosa. O brando respirar do manso vento Por entre as frescas ramas, a doçura
Dessa fonte, que move o passo lento; A doce quietação dessa espessura, O silêncio das aves, tudo, amigo, Ouvir a nossa mágoa hoje procura.
Principia, Palemo; que eu contigo À memória trarei, quanto deixamos No sossego feliz do estado antigo. Que esperas, caro amigo? Sós estamos:
Bem podemos falar: porque os extremos De nossa dor só nós testemunhamos. Não vi depois, que o monte discorremos, Há tantos anos, sempre atrás do gado,
Noite tão clara, como a que hoje temos: Mas muito estranho ser de teu agrado, Que despertemos inda a cinza fria Da lembrança do tempo já passado.
Oh! não sei, o que pedes: bom seria, Que desse qualquer bem não cobre alento O estrondo, que talvez adormecia. Loucura é despertar no pensamento
O fogo extinto já de uma memória: Não sabes, quanto é bárbaro o tormento. Em nos lembrarmos da perdida glória Nada mais conseguimos, que ao gemido
Dar novo impulso na passada história. Não se desperte o mísero ruído; Que veremos, amigo, o desengano De um bem caduco, de um prazer fingido.
Debalde é a cautela; que o tirano, Contínuo atormentar de uma lembrança Não o pode abrandar o esforço humano. Vê, como o teu ardor em vão se cansa;
E quanto mais te negas a meu rogo, Despertas mais dos fados a mudança. Buscar no esquecimento o desafogo É não saber, que neste infausto empenho
Se ateia da memória mais o fogo. Diga-o minha alma: porque nela tenho Impressa sempre a imagem de uma dita, Em que firmava o gesto o desempenho.
Recompensa uma dor quase infinita A grandeza do bem; a minha história Deixando em vivo sangue n’alma escrita. Quero estragar mil vezes a memória,
Meu amado Corebo, e a cada instante Tornar mais viva a imagem de uma glória. Oh tirana pensão de um peito amante! Que só fora feliz, se a água bebera
(Quando perde o seu bem) do Lete errante; Se na idéia pintada não trouxera A contínua lembrança de um veneno, Que Amor dissimulado oferecera.
Ah! Que soluço, amigo, estalo, e peno; Quando me lembra a hora, em que o tirano Fado roubou-me estado tão sereno. Caminhas, ó Palemo, de teu dano
Como insensível: Vês, que não tem modo Da funesta lembrança o golpe insano. Bem me advertes, Corebo: eu me acomodo Ao pensamento teu; e divertida
Fique a memória minha já de todo. Ao cântico sonoro te convida Esta flauta, que é fama em nós guardada, Que foi de Alfeu um tempo possuída.
Eu a tomo, e com ela se te agrada, Alterno o verso; e seja aquele, que antes Cantamos lá na nossa retirada. Se me lembra, assim era: Vinde, errantes
Sombras, a sufocar-nos: porque a inveja É só fiscal dos míseros amantes. Ficai, belas ovelhas: assim seja Convosco mais propício o duro fado;
Que pastor mais feliz vos guie, e reja. Aqui te deixo, rústico cajado; Que algum tempo, apesar do empenho cego, De ninguém, só de mim, foste logrado.
Tu, Amarílis, adorado emprego, Toma conta de duas ovelhinhas, Que mais que todas amo: eu tas entrego. Verás, Belisa, entre essas prendas minhas,
Que eu teci junto às margens dessa fonte, De vime desigual duas cestinhas. De ti, que ficas pois, saudoso monte, Me despeço; e talvez sem esperança
De tornar a ver mais este horizonte. Ficai-vos em pacífica bonança, Ó ninfas; que perdido o vosso agrado, Me ausento a lamentar tanta mudança.
Adeus, pastores; vós, que em doce estado Tantas vezes nos bailes, na floresta Me vistes sempre alegre, e sossegado; De vós me aparta agora a lei funesta;
E o tormento, a que esta alma está rendida, Bem o meu sentimento manifesta. Hei de trazer na idéia sempre unida A imagem de Amarílis, que venero,
E que estimo inda mais, que a própria vida. Alegria jamais nenhuma espero; Antes nesta saudosa soledade, Por último remédio, a morte quero.
Adeus, bela Amarílis; a vontade, Por ser único bem, levo abrasada Na chama inextinguível da saudade. Adeus, Belisa; adeus, ninfa adorada:
Veja-se neste campo eternamente A tua formosura celebrada. Basta já de cantar: que do oriente Já rompe o Sol vermelho; e o manso gado
Os balidos esforça de impaciente. As nuvens vão correndo; e a este lado O resplendor se vê, com que a Aurora Vai escondendo o rosto magoado.
Das lágrimas saudosas com que chora Se derrama o orvalho; aves, e plantas Despertam, levantando a voz sonora. Eu guiarei o gado se tu cantas:
Que prosseguindo tu, de meu tormento O excesso ao menos, e o rigor quebrantas. Não me negues, se podes, esse alento.
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