Ó doce soledade! Ó pátria do descanso Da paz e da concórdia Grosseira habitação, tosco palácio!
Quantos a meus delírios Tu ditas desenganos, Oráculos fazendo Das árvores, dos troncos, dos penhascos!
Não fere os meus ouvidos O estrondo cansado, Que levanta a lisonja, Junto aos pórticos d’ouro em régio Paço:
A macilenta inveja Não derrama o contágio Nas inocentes almas, Que são de seu furor mísero estrago.
Dos olhos se retira O objeto sempre ingrato Dos que suspiram mudos, Em vez do prêmio, as sem-razões do dano.
Aqui tem a virtude Erguido o seu teatro, E nas rústicas cenas Aqui mostra a pobreza os aparatos.
As mal seguras canas Que move o vento brando, Da pobre rede tecem Ao mísero Pastor o abrigo caro.
Colhida a tenra fruta Vem de seu próprio ramo A adornar a choupana, Em vez dos altos capitéis dourados.
O sítio venturoso! Quanto te invejo, quanto! Ditoso quem possui O suave prazer de teu descanso!
Se tu bem alcançaras, Pastor, um bem tão raro, Não cessara o teu culto De consagrar obséquios ao teu fado.
Infeliz o que envolto No tráfego inumano Da aborrecida corte Só vê da confusão o rosto infausto.
Imagina do amigo Seguir os doces laços, E a torpe aleivosia Lhe abre o sepulcro onde buscou o amparo.
Se o valimento encontra, Teme, com justo espanto, Quanto é grande a subida, Que o despenho também seja mais alto.
Não há fronte segura Que enfim dissimulando Não veja os seus afetos, Como a flor entre os áspides ingratos.
Ah! mede, Pastor belo, O bem que alcanças: tanto Dar-te não pode a corte; Só pode a soledade deste campo.
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