Em região distante, Aonde o Sol dourado Mal os raios estende sobre os montes, Em um sítio funesto e carregado,
Alcino, que de Tisne foi amante, Dos olhos duas fontes Derramava em seu líquido lamento, Dura e precisa lei do seu tormento.
A rústica floresta Apenas habitada Era do rude gênio dos Pastores, A quem a dope flauta desagrada,
A quem o baile, o jogo mais molesta. Os suaves Amores Não param a esputar Ninfas mimosas, De adorno inculto, sem louvor, formosas.
Turvo e feio, um ribeiro O campo dividia Por entre as penhas com medonho estrondo. A vista se assustava, quando via
Baixar seu curso de um soberbo oiteiro, Os troncos descompondo, As profundas raízes arrancando, Por onde a crespa enchente o vai levando.
Se os olhos levantava Às altas serranias, O peito de uma nuvem de tristeza (Qual se vira da noite as sombras frias),
Ansioso em triste luto se ocupava: E sempre a chama acesa Da memória propunha o nem perdido, Para maior verdugo do sentido.
Nesta cansada vida Se achava aquele amante Pastor, que já nas margens florescentes Do Mondego guiara o gado errante,
Trocado o antigo nem na infausta lida De fadigas veementes, Transformando-se em pena aquele gosto, Que em braços da ventura o teve posto.
A um penhasco, que os ares Igualava na altura, Uma tarde subia o pobre Alcino. Ali, depois que a sua desventura
Chorando esteve em dons amargos mares, Seu louco desatino Rompe o silêncio gravemente mudo, E para ouvi-lo suspendeu-se tudo:
Alegres praias, úmidas ribeiras Do Mondego, que plácido discorre, Que do olmo a copa em raias lisonjeiras Com a sombra suavíssima socorre;
Vós, que pelas campinas mais grosseiras, Que hoje o meu gado sei ventura corre, Trocadas fostes, quando a inveja tinha Postos os olhos na fortuna minha;
Mimosas águas, delicioso hospício De Ninfas, que na espuma prateada Fazendo estão gostoso desperdício De uma beleza docemente amada;
Vós, que ouvis de Paleio e de Salício A flauta brandamente temperada, Quando um a rede estende, o outro colhe Em seus currais o gado, que recolhe;
Dizei-me vós se acaso aquele pranto, Com que estou a chorar esta saudade, Tem tanto impulso, tem esforço tanto, Que vos empenhe a conceber piedade.
Dizei-me vós se aquele amado encanto, Que laço foi de minha fiel vontade, Vive alegrando essa mimosa esfera, Como no pampo faz a primavera.
Dizei-me se entre os rústicos Pastores Na floresta o rebanho inda apascenta; Se ainda ornada de vistosas flores Ela entre todas mais gentil se ostenta;
Qual foi o emprego enfim de seus amores, Quando o mísero Alcino se lamenta; Alcino, queda sua formosura Desterrado suspira sem ventura.
Dizei-me se inda cresce na beleza: Porque, segundo meu cuidado via, Cheguei a imaginar que a natureza Mil perfeições lhe dava pada dia:
Vendo-a eu, muitas vezes a alma presa Em tanta gentileza se sentia; Crescendo a admiração, logo encontrava Beleza, que de novo se admirava.
Dizei-me se ao cair da fresca tarde Sai a gozar do vento que respira, Quando o maior Planeta menos arde, Quando aos currais o gado se retira.
Se do seu belo encanto faz alarde, Sentada à sombra do álamo, onde ouvira Muitas vezes os ecos de meu pranto, Nas vozes sentidíssimas do canto.
Dizei-me se inclinando suavemente Os ouvidos ao toque lisonjeiro, De algum Pastor esputa a voz cadente, Que o gado guia desde o crespo oiteiro.
Se alguma compaixão se lhe persente, Girando os olhos, pomo no primeiro Movimento do nosso amor ouvia, Ou quando olhava, ou quando me atendia.
Porém vós vos calais: Ah! que a distância, Ninfas do brando Rio, vos impede Ouvir os tristes ecos de minha ânsia, Que a mortal agonia tanto expede.
Sem dúvida a ruína da constância, Que a mim me prometeu, Ninfas, vos pede Este silêncio. Ah! quanto em uma ausência Periga a mais segura persistência!
Mas se tanto em vós pode a lei sagrada Do modesto decoro, e à singeleza De vossos corações somente agrada Encobrir as traições dessa beleza,
Minha alma, que nas fráguas abrasada De tanto ardente amor suspira acesa, Vingança clamará, dando o segredo Ao bosque escuro, ao fúnebre arvoredo.
Aqui me esputará esta corrente, Que despenhada os duros troncos banha: Ouça-me este penhasco, aonde ausente Me vejo a lamentar traição tamanha.
Tenha este Rio enfim sempre presente, Presente sempre tenha esta montanha De Tisbe ingrata a pérfida memória, De Alcino amante a lastimosa história.
E aqui desta alta penha (Que se remonta aos ares), de um amante Sempre firme e constante, A quem seu mal despenha,
Da mais infiel Pastora na mudança, Se recomenda a mísera lembrança; Sabei, ó rochas duras, Que de quantas o Céu alenta e cria,
Tão belas pomo o dia, Perfeitas criaturas, Nenhuma é, do que Tisbe, mais formosa, E nenhuma também mais aleivosa.
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