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1729–1789

ÉCLOGA XIII

Cláudio Manuel da Costa

Que é isto, Sílvio? Aqui tão solitário À sombra deste freixo! Já não vejo Na tua companhia o amado Agrário, Pastor tão belo, que no fresco Tejo

O repete a saudade a cada instante, Por onde quer que gire a vista errante, Vales correndo, atravessando serras! Como também da nossa companhia

Tu, a quem tanto amamos, te desterras, Com tão triste e fatal melancolia, Que tudo já teu mal tem estranhado, Os Pastores, o monte, e o mesmo gado!

Tão diferente estás, tão outro admiro O teu gênio, Pastor, e o teu aspecto, Que cuido, neste fúnebre retiro, Do fado injusto o bárbaro decreto

Te há de usurpar a vida, se entregando Toda a alma ao sentimento, em ócio brando Não divertes a mágoa; e se alivia Qualquer pena, que a um mísero atormenta,

Do amigo, que lhe assiste, a companhia, Aqui me tens, Pastor; comigo alenta Essa dor; bem que a vejo tão profunda, Que temo que este alívio mais confunda.

Que mal, ó Sílvio, foi tão penetrante, Que este penhasco imóvel da constância Pôde abalar? Que dor há, que quebrante Um peito, aonde nunca a mortal ânsia,

O cuidado impaciente, a mágoa aflita Entrar puderam? Cuido que esquisita Causa tens para tal: se é que a funesta, Dura ausência daquele Pastor caro

Teu coração amante assim molesta, Não chores, não, ó Sílvio: pois reparo Que em todos nós geral é a saudade, E o mal comum alívio persuade.

Não eras tu aquele, que ocupando Entre os Pastores o lugar primeiro, Em doce estilo os versos entoando, Te fazias ao monte lisonjeiro?

Que de vezes as árvores e os montes, As duras penhas, as sonoras fontes, Correndo atrás do canto que entoavas, Te vimos atrair, sendo verdade

Então o que tu mesmo nos contavas Da harmoniosa e cadente suavidade Do Músico feliz, que já houvera, Cuja voz os Delfins render soubera!

Agora já dos versos esquecido, Que alternaste contente, só lembrado Da insuportável mágoa do sentido, Tão entregue te vejo a teu cuidado,

Que já não soa o lírico instrumento: Antes ali de um choupo corpulento, Como se ele de tédio te servira, Na tosca rama o vejo estar pendente.

E tu (ai triste!), como se ferira Teu coração um íntimo acidente, Confuso estás, pasmado, mudo, absorto, E menos vivo ainda, do que morto!

Que tens, Pastor? A causa me declara, Se da minha amizade enfim te fias; De tão grande tristeza eu desejara Dar-te todo o prazer; e se porfias

Em ir dobrando a dor, maior excesso Tens na imaginação; eu te confesso Que daqui não me aparto, enquanto a dura Paixão, que te maltrata e te exaspera,

Me não matar também. Ouve; procura Suavizar, Amigo, a pena fera; Ou conta-me sequer: na mesma história Que aviva a dor, diverte-se a memória.

Quem senão tu, Algano, quem pudera, Senão tu, que os meus passos sempre alcanças, Achar-me nesta soledade austera, Onde me conduziu entre esperanças

De alívio não, mas sim, de cruel morte, Do incerto fado o duvidoso norte! Aqui estava eu só; e se podia Haver algum prazer, que inda lograsse

Na desigual fortuna, eu te diria, Sem que nisso o teu trato desprezasse, Que nenhum outro fora, mas somente Seria o estar só, e não ver gente.

Mas já que tu vieste, e pode tanto Comigo a tua súplica, a corrente Suspenderei um pouco ao largo pranto; Enquanto rompo a dor que o peito sente,

Sabe, Pastor amigo, que me custa Dizer-te a minha queixa: mas se é justa Esta expressão, escuta o desafogo, Que entre os largos espaços da saudade

Descobriu o martírio; e só te rogo, Se alguma compaixão te persuade Este horroroso, mísero progresso, Culpa a causa, desculpa-me o excesso.

Querendo lisonjear-me por tais modos, Tu mesmo a agravar vens a ferida. Que importa ser geral a mágoa em todos, Se em quem mais ama a pena é mais crescida!

Agrário, sim, de todos era amado; Porém de mim foi quase idolatrado: A qualquer hora, ou fosse noite, ou dia, Nos vias sempre juntos: a frequência,

O cuidado, o desvelo e a porfia De um grande amor é certa consequência; Se Agrário ao monte alguma vez faltava, Também de Sílvio a ausência se notava.

Fosse de amor segredo, ou simpatia, Que influi cada estrela na criatura, Vi-o uma vez; e desde aquele dia Larga amizade em nós se fez segura.

Podes de seu amor ter por certeza, Que em mim quase venceu a natureza. Um gênio me assistia solitário Até então, de sorte que somente

O doce trato do fiel Agrário Me fez comunicável entre a gente. Entre todos vivi; mas ocupado De Agrário era somente o meu cuidado.

Como não pode haver bem tão seguro Que o não estrague a bárbara mudança, No mar incerto do destino escuro, Tornou-se horror a plácida bonança.

Interpôs-se uma ausência, com que abrindo O caminho à saudade, consumindo Esta constância foi, que me animava, Que tu me louvas tanto: já de todo

Eu, que do fado nada receava, A arrastar o seu carro me acomodo, Prostrado já, desfeito e destruído O templo, que à vaidade tinha erguido.

Bem vejo, Sílvio; a causa do tormento É justa: eu sei, Amigo, que a amizade Não se atreve a abrandar-te o sentimento, E é ofensa o alívio, que persuade.

Mas se nos longes vês de uma esperança O bem que choras, ó Pastor, descansa; Que se a dita não pode estar segura, O mesmo é a desgraça: igual Astréia

Ao peso da balança mede e apura Tanto o que aflige, como o que recreia. Aqui tens o instrumento; dá-me o gosto De ouvir os versos, que aí tens composto.

Na casca deste tronco, onde feria Mais livremente a ponta deste estilo, Ao meu Agrário uns versos escrevia; Duro tormento; e tu queres ouvi-lo!

Mui diferentes são do antigo estado; É triste o estro; o gênio é magoado. Não são os que Fileno me ensinava, A louvar de Amarílis a divina

Beleza, que outro tempo me arrastava: São porém os que a mágoa hoje me ensina A lisonjear meu mal: mas se tu queres, Ouve, que eu leio os tristes caracteres.

Caro Pastor ausente, Que o teu retrato deixas na lembrança, Por lograr-te presente, Quem na memória mais tormento alcança,

Com que contentamento eu te asseguro No centro d’alma o meu afeto puro! Tão louca é, e tão cega De amor a natureza, que sabendo

Que o alívio, a que se entrega, O seu maior martírio está tecendo, Gostoso o segue, e adorando o estrago De ver que o logra, vive muito pago.

Qual aspid se afigura A lembrança do ausente, que lhe assiste; Pois entre a pompa escura, Como entre a flor, o seu veneno triste

Se forja, se alimenta, se fabrica; E em vez de alívio, morte comunica. A morte, digo: oh! antes O encurvado ferro separara

O alento; mas constantes Os espíritos (pena inda mais rara!), Como alegres, do mal atormentados, Na mesma pena vivem obstinados.

Estes discursos forma Não a razão (que toda está perdida); A dor, que se conforma Com a causa, trazendo repetida

A lembrança do bem, é que discorre; E idéia de outro bem lhe não ocorre. Contempla as prendas raras De um Pastor, que na rústica palestra,

Tu, monte, assinalaras Entre todos distinto, quando a destra Barra jogava, ou quando mais ativo Corria atrás de um tigre fugitivo.

Adverte o gênio belo, Com que o geral agrado concilia, Podendo ser modelo De quantos dons a natureza cria:

Lembra-te do sonoro, acorde acento, Com que entoava o métrico instrumento. Porém onde me guia A cansada memória, se conheço

Que está minha agonia Na mesma frágua, onde os alívios peço! Destrua-se a memória: acabe embora Lembrança, que me aflige a toda a hora.

De teu canto foi tal a suavidade, Que enchendo de prazer este arvoredo, Tornou alegre a mesma soledade Que estava de horror cheia, e mais de medo:

Moveu-se aquele tronco de piedade; Abalou-se este rústico penedo; Não será de teu mal o rigor tanto, Que o não mova também teu doce canto.

Para lisonja de meu triste dano, Essa expressão, bem vejo que retrata Não teu conhecimento, amado Algano, Mas teu amor, que tão fiel me trata.

Se as duras queixas de meu mal tirano Ouvir tua atenção, cousa é tão grata, O coração, que cheio está de pena, Repetir outras mais inda me ordena.

Bem te quisera ouvir: mas estou vendo Que já o pardo crepúsculo do dia, Por entre as serras ásperas rompendo, A luz espalha pela sombra fria.

Já o ferro do arado vem gemendo; Os bois tornam à mísera porfia; E todos os Pastores despertando, Da pobre choça as portas vão cerrando.

Bem sinto que me dês tal novidade, Porque eu vivo de sorte em meu tormento, Que inda que despertasse a claridade, Distinguir não pudera o luzimento.

Mas já que este sucesso te persuade Que a sorte até me quarta o sentimento, Por não lograr um bem, vamos: mas onde O meu rebanho (ai mísero!) se esconde?

Não sei por onde pasta o triste gado, Que eu ontem neste monte apascentava: Tanto me arrebatou o meu cuidado, Que nem de mim, nem dele me lembrava;

Vai tu, Algano; cerca deste lado, Que eu vou bater aquela mata brava, Onde o trilho é talvez mais perigoso. Anda; busca o Bargado, e o Baroso.

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