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1729–1789

ÉCLOGA XII

Cláudio Manuel da Costa

A fúnebre harmonia, Dissonante lamento Dos estragos de Amor, escuta um dia, Adorada ocasião de meu tormento;

E em mísera figura, Verás do teu Pastor a desventura. Daliso sou, que canto De Salício a desdita;

A ver se deixo, pela voz do pranto, A minha mágoa duramente escrita, Tomando a sombra alheia, Por não fazer a mágoa inda mais feia.

Em um bosque sombrio, Funesto sítio escuro, Levado do seu louco desvario, Salício, a quem o duro,

Ingrato fado havia Roubado em Amarilis a alegria; Apascentava o gado De si tão esquecido,

Que todo pelas serras espalhado, Qual ficava perdido, Qual entre as garras era Despojo triste da maligna fera.

Enquanto o Sol guiando Para o berço das águas O luminoso carro vai girando, Coberto o rosto, e cheio enfim de mágoas,

Em si mesmo atendendo, Assim falando vai, assim dizendo: Aonde vou guiando o meu rebanho, Pobre de mim, sem tino e sem cautela,

Por tão escuro bosque, sítio estranho! Como perdida a minha amada bela, Me conduz meu tormento a esta estância, Se apenas o segredo habita nela!

Acaso o desafogo de minha ânsia Acharei entre os troncos e penedos, Que são imagens da maior constância! Acaso estes sombrios arvoredos

Poderão divertir a infausta história Dos, que Amor me teceu, tristes enredos! Malfeito, que o tumulto da memória Recobre algum sossego, quando lida

Com as lembranças da passada glória. Tão viva n’alma a dor desta ferida Está, que há de igualar da eternidade A larga série, a duração comprida;

E o pensamento meu, que se persuade De querer apagar da idéia a chama, Cada vez mais se cobre de saudade. Não se desmaia assim, de quem bem ama,

O extremoso afeto; o fogo ativo Com imortal ardor o peito inflama. Leva da morte o golpe executivo, Para os campos do Elísio a luz inteira

Do fino amor, que n’alma arde tão vivo: Lá dizem que se estende uma ribeira, Por onde andam as almas vagabundas, Seguindo a sorte ingrata ou lisonjeira.

Tu, brando rio, mansamente inundas Os férteis campos, onde a oposta via O passo inclina às regiões profundas. Neste País saudoso, a luz do dia,

Perpétua sempre, sempre vigilante, Põe em desterro as sombras da agonia. Se pois só lá descansa um triste amante, Se nem ainda a mesma morte apaga

O voto fiel de um coração constante, Como é possível que eu à idéia traga O delírio infeliz, de que alguma hora Alívio tenha minha infausta chaga!

Morra minha loucura: que eu já agora Seguir-te espero, ó peregrino enleio De um coração, de uma alma que te adora. Perdido o tino, e da razão o freio

Torpemente estragado, me disponho A viver sempre de pesares cheio. Toda a glória, e prazer terei por sonho, E crendo só na minha desventura,

Já no meu dano a ponderar me ponho. Dar não quero a meu mal outra mais cura, Que trazer sempre impresso na lembrança Todo o passado bem, toda a ventura.

Vamos pois recordando esta mudança; E não me esqueça do suave alento, Que achei de Amor na plácida bonança. Quero esse bem lembrar ao pensamento,

Em cujo ser depositado eu via, Cruel Amor, o teu contentamento. Vamos desentranhar da cinza fria As imagens do gosto, que apagadas

Têm do destino a dura aleivosia. Que peregrina em tudo... Ah! que embargadas São minhas vozes de um Pastor que chega, E vem talvez seguindo-me as pisadas.

Quanto comigo é a fortuna cega! Pois até este bem da soledade, Somente porque é bem, gozar me nega. Debalde é esperar que haja piedade,

Que vai da sorte o mísero progresso Abrindo sempre o seio da crueldade. Quem será? É Frondélio: eu o conheço; Importuno Pastor, inda que amigo;

Já não posso esconder-me: eu lhe apareço. Valha-me o Céu, Salício! que inimigo, Que ingrato, que maligno influxo é este, Que tanto é contumaz em teu castigo!

Não é preciso que eu te manifeste A forçosa razão que me acompanha Para o sentir: há muito que a soubeste. Tem assombrado a toda esta montanha

Este semblante teu tão carregado, Coberto de uma dor e mágoa estranha. Vaga sem guarda o teu faminto gado, Feito dos lobos inocente presa,

Pelos agrestes matos espalhado. Foges de todo o trato, e até te pesa Que um amigo os teus passos vá seguindo, Por saber a razão dessa tristeza.

Fala, dize; que tens? Que estás sentindo? Mas tu dás um suspiro, e emudecendo Co’a face sobre o peito vais caindo! Explica-te comigo; eu estou vendo

Que esperas que os teus males nos declare De alguma grande dor o estrago horrendo. Primeiro a doce vida desampare Este fraco despojo que hoje anima,

Que eu de outro algum, senão de ti, me ampare. Se o ver-me, caro Amigo, te lastima, Arranca-me esta vida, que eu não quero Um bem, que sem ventura não se estima.

Eu morro; eu enlouqueço; eu desespero: E só da morte dura o horror maligno É, Frondélio, a piedade que hoje espero. Já me entrego de todo ao desatino:

Pois a tanto pesar, a tanto susto, Alívio algum não há, bem que imagino. Nada faço empenar; a tanto custo Quero morrer, Amigo; arranca, arranca

Este meu coração: é justo, é justo. Se a corrente da mágoa não se estanca, Pela falta talvez do desafogo, Por negar-te a piedade a porta franca,

Comigo estale embora o ardente fogo Que recatas zeloso: ao doce efeito, Menos ativa a mágoa verás logo. Quero falar, Frondélio; mas desfeito

O coração em lágrimas, desmaia Balbuciente a língua, a voz no peito. Cobra sossego um pouco; e enquanto raia O sol já menos quente nessa esfera,

Para falar-me o teu valor ensaia. Custoso me será; mas ouve, espera, Escuta, meu Frondélio: ah! quanto é duro Sentir de uma lembrança a lei severa!

Perdoa-me, Amarílis; eu te juro Que amor sim, não a falta de decoro Rompe de meu silêncio o voto puro: Eu te respeito enfim, te amo, e te adoro.

Conheces a Amarílis, A Pastora mimosa, Mais bela do que Almeja, e mais que Fílis, Amarílis formosa,

Meu ídolo adorado, Filha de Alfemo, glória deste prado? Lembras-te quantas vezes Convidando a floresta

Às belas noites dos dourados meses, A pompa manifesta De seus dotes se via, E cada vez mais bela parecia?

Acordas-te de quando, Numa noite daquelas, Uma flor para o jogo ela tomando, Colhida entre as mais belas,

Fingindo que eu ganhara, Risonha me entregou a Ninfa clara? Aqui, Frondélio amado, O giro principia

De meu ingrato, meu injusto fado: Tomou naquele dia Por sua empresa a sorte Lavrar na minha glória a minha morte.

A inveja macilenta, Filha do monstro indigno, Começou a espalhar com mão violenta O bárbaro, o maligno,

Contagioso veneno, Que hoje é causa das mágoas em que peno. No bosque, prado, e vale, Não há quem de Salício

Depois daquele dia já não fale: Daquela flor no indício Já conhecido, o engano Se faz universal para meu dano.

A romper-se começa Pouco e pouco o segredo, Enquanto a bela Ninfa, que travessa De nada tinha medo,

Nutria os meus amores Com o doce alimento dos favores. Ah! quem, Frondélio, agora Lembrar-se não pudera

Daquela dita, aquela enganadora Glória, que detivera Toda a minha ventura Sobre a base gentil da formosura!

Mas se está meu tormento Tão patente, e tão claro, Quero lembrar o meu contentamento. Cegamente reparo

Em dar maior valia No decoro ao pesar, do que à alegria. Recolhiam-se os raios Ao centro cristalino

Desse eterno Planeta; a seus desmaios Sucedia o benigno Influxo de Diana, Êmula de Amarilis soberana.

A estas horas, quando Ao sono se rendia O velho Alfemo, a Ninfa o véu tomando, A um jardim descia,

Aonde alegre Flora Espalha as águas, que uma fonte chora. Tu, dize, tu, mimosa, Sonora fontezinha,

Que regas a campina deliciosa Que pisa a Ninfa minha, Tu, dize aquela glória, Se inda a guardas impressa na memória.

Dizei-o vós, ó plantas, Vós o dizei, ó flores; Que vós testemunhastes vezes quantas, Propícia a meus amores,

Amarilis, a bela, No vosso campo pareceu estrela. Mas não digais; e antes Discretamente atentas,

Observai sempre os votos vigilantes, Que as leis da dor violentas Têm de todo estragado No recato infeliz de meu cuidado.

Pois que a dita alcançaste, Ouve, Frondélio, a pena; Tu mesmo o meu pesar desafiaste; Teu respeito me ordena,

Ou a amizade tua, A que te faça narração tão crua. Esta glória gozava, Amigo, quando a inveja

Aos ouvidos de Alfemo se avançava; E como ver deseja Vivamente o seu dano, No descuido da Ninfa tece o engano.

Compreende o delito; Acusa a ligeireza; E com ímpio rigor lhe tem perscrito Que em um cárcere presa

Pague a culpa que eu tenho De a ter rendido ao amoroso empenho. Vê, considera, e dize Com quanta dor, com quanta

Suportará minha alma este castigo! Lembrar-me glória tanta Perdida em um instante! Ah! que dor tão cruel a um peito amante!

Estar na minha idéia Pintando a tirania, Que oprime a bela Ninfa! A alma cheia De angústia, e de agonia,

Em tanto sentimento, Sufoca-se no horror do pensamento. Como há de estar aquela, Formosa como o dia,

Cerrada em sombra escura? Como a bela Imagem da alegria, No fúnebre aposento, Dormirá entre os sustos do tormento!

Ora a fineza minha De cobarde acusando, Ora a piedade, que em minha alma tinha, De ingrata condenando;

Tudo oposto em meu dano, Convertida a esperança em desengano! Ah! Quando em tal discorro, Frondélio meu, a vida

Me enfada e me aborrece; expiro, e morro Entre a confusa lida De tão profunda pena, Que injusto Amor em meu martírio ordena.

Vê tu quanto hei perdido, E quanto enfim me resta! De Amarílis o encanto apetecido, A minha dor funesta,

A glória, a dita, o gosto, A desventura, a mágoa, e o desgosto. Na verdade, Salício, o teu sucesso Notável compaixão me tem devido.

Sei onde chega o bárbaro progresso De uma dor na lembrança do perdido; Porém não devo desculpar o excesso A tempo, que parece o teu gemido

Algum remédio tem: vê, discorramos; Podemo-lo aplicar, se acaso o achamos. Pertendes que nos laços da esperança Outra vez, caro Amigo, a vida ponha!

Queres que entre as ruínas da mudança Para novo tormento me disponha! Hei de ser como aquele que a bonança No meio da tormenta acaso sonha,

E os olhos desatando o sono amigo, Se acha infeliz no centro do perigo? Já não creio que pode haver ventura Para o pobre Salício decretada;

Salvo se vem com máscara perjura A desgraça impiamente disfarçada: Eu, que em tantos triunfos vi segura A glória, que hoje é sombra, é fumo, é nada,

Posso esperar que torne a minha dita? Quem tão grande loucura inda acredita! Se em laço de Himeneu o velho Alfemo Te une à bela Amarílis, eu confio

Que passando um extremo a outro extremo Não terás de culpar teu fado impio. Ah! Que nessa lembrança, Amigo, gemo; Pois é néscia loucura, é desvario

Aspirar um Pastor humilde, e pobre, À ventura de um bem tão rico, e nobre. O que faz o tormento mais dobrado É ver a lei sagrada do decoro,

Impondo-me um silêncio tão pesado No que sofro, suspiro, peno, e choro: Eu, um triste Pastor, triste o meu gado; Ela, Pastora de um divino coro;

Não pode haver igual correspondência; Sempre temo os excessos da violência. Mas se Amor é das almas harmonia, Que o peito escuta, o ouvido não entende,

Esperar posso ainda que algum dia Seja pago este amor que assim me acende. Mas enquanto a soberba tirania De Alfemo os meus gemidos não atende,

Como alívio terei, como descanso? Como andarei com gesto alegre, e manso? Sítio sei eu, de donde me parece Que suposto Amarílis presa esteja,

Pode ser, se de ti se não esquece, Que inda chegue a escutar-te, e que te veja. Guia-me tu, Frondélio: qual é esse Venturoso retiro, oculto à inveja?

Eu quero vê-lo: vamos, vai diante. Vem; e não te demores um instante. Vês este vale? Para aquele assento Fica um pequeno oiteiro, e se divisa

Vizinha a ele a choça, o aposento De Alfemo, de Amarílis, e Feliza. Sagrado sítio a meu gemido atento, Se é que amparas propício a quem te pisa,

Mostra a minha Amarílis: dize aonde Amarílis, meu bem, em ti se esconde. Que mais queres? Aquela é a beleza Da tua amada Ninfa: o seu semblante

Coberto está de fúnebre tristeza. Triste vem: que pesar a um pobre amante! Alguém viu, como eu vi, a gentileza Daquele rosto, mais que a luz brilhante,

Mais bela do que a rosa matutina, Engraçada, gentil e peregrina! A seu lado Feliza está sentada, Ambas na história triste discorrendo:

Talvez de teus amores magoada A formosa Amarílis vai dizendo. Escuta: nesta estância retirada Irei o que ambas dizem percebendo;

Ah! Que um ai Amarílis deu sentida! Triste fadiga! Lastimosa vida! Mal haja a feminil loucura minha, Que de um homem na falsa ligeireza

Imaginou firmeza. Mal haja o cego monstro que me tinha Na louca fantasia debuxado Tão belo o meu cuidado,

Para comprar meu desengano agora Nas mãos da experiência roubadora. Habitar esta sombra, ver o dia, Cheia a alma de horror, de assombro o peito,

Trazer sempre sujeito O coração à vil melancolia, Oh! quanto me atormenta, Amor, oh! quanto! Ah! mísero quebranto,

Fiscal de meu amante rendimento! Só porque soube amar, sinto o tormento. Estas eram, Salício fementido, As lágrimas que eu vi banhar teu rosto!

Artifício disposto, A contrastar o Nume desabrido De minha condição! Ah! se eu não fora Tão crédula à traidora,

Lisonjeira eficácia de teu pranto, Engenhosa em meu mal não fora tanto. Quantas vezes, ingrato, esta montanha Girando por buscar-me à calma, ao frio,

Com generoso brio, Vieste para empresa tão estranha! Quantas a noite te deixou no prado! Quantas o rosto amado

Da Aurora te encontrou, pérfido amante, Às portas desta choça vigilante! Que inventos não achaste peregrinos, Para me contrastar! Que cedro, ou faia,

Que ao tempo não desmaia, Não guarda ainda os sonorosos hinos, Que na bem temperada, acorde avena, Para tecer-me a pena,

Entoaste depois em meu tormento, O veneno ocultando no instrumento! Amarílis, o tempo tem mostrado Que a palavra do amante apenas dura,

Enquanto da ventura Corre propício o giro acelerado. Verás, Irmã, mudar-se aquele outeiro De seu lugar primeiro,

Que se veja nos homens algum dia Segura a fé que um deles prometia. Onde, Frondélio meu, me hás conduzido? Que ao escutar da minha amada a queixa,

Tão magoado me deixa A constante razão de seu gemido, Que ao passo que igualando o seu estrago Lhe recompenso, e pago

O martírio que o fado lhe destina, É maior que o seu mal minha ruína. Quero que ela me veja: eu lhe apareço. Que importa aventurar-me a seus rigores,

Se chegam minhas dores Do último golpe ao lastimoso excesso! Se hei de morrer distante à sua vista, Onde é força resista,

Por lograr este bem da morte ao laço, Vá-se o temor, o susto, o embaraço. Chega-te muito embora: arrependido Já de minha piedade, bem me pesa

De que a tua tristeza Encontre aqui motivo mais crescido. Mal haja a compaixão que enganadora Me persuadiu que uma hora

Quartada a tua pena, quebraria (Presente o bem, que adoras) a porfia. Se a fantasia acaso não me engana, E a luz já menos firme no Horizonte,

Vizinho a este monte Vejo um vulto chegar deforma humana. Se de meu triste horror não é pintura, Nele se me figura,

Amarílis, presente o teu Salício. Será: oh! que funesto precipício! Salício sou, querida, não te espantes; Se bem que de meus males a aspereza,

Qual nunca a vil fereza Igualou da fortuna nos amantes, Mudado tem de todo a humana forma: E este corpo se informa

Da mágoa, dos pesares, da amargura, Das sombras, da aflição, da desventura. Tão outro enfim me vejo do que fora, Que uma estátua da pena me contemplo,

Dos martírios exemplo Me proponho à vingança; esta alma ignora O uso da razão; se bem, querida, Ao passo que duvida

Minha alma, se do corpo o moto ordena, Conheço que só vivo para a pena. Vivo só para a pena; e também vivo Para sempre te amar, Ninfa formosa.

Consulta esta amorosa, Viva estampa de Amor; no fogo ativo Verás a tua imagem que respeita Tão pura e tão perfeita,

A minha adoração, verás prostrado A teu desprezo duro o meu cuidado. Inda a meus olhos vens, pérfido amante, As traições escondendo em teu gemido?

Tu, monstro fementido, Tu, coração mais duro que diamante, Escândalo e horror destas montanhas! Nas ásperas entranhas

Da Hircânia o humor primeiro achar pudeste, Onde a fereza indômita bebeste. Crês que inda, ingrato, o cego desatino De meu primeiro amor me tem cerrada

Na ilusão adorada De acreditar-te verdadeiro e fino? Vens privar-me do alívio que ainda gozo No desterro penoso,

Sendo força que alívio considere, Quando ver-te, cruel, jamais espere! Vens protestar finezas? Que esperança Tão delirante e louca desordena

A face tão serena Dessa tibieza tua? Vai, descansa, Segue o sossego teu; deixa que eu triste, Na mágoa que me assiste,

Deva à piedade tua o grande excesso De escusar-me este horror com que faleço. Não venho, amada, não, porque tirano Fiscal de teu martírio me imagines;

Só para que me ensines A vencer de meu fado o desumano, Ingrato giro, venho; da firmeza, Da fé que guardo ilesa,

Eu venho assegurar-te a chama ativa, Mais fina, cada vez mais pura, e viva. Vai-te, inimigo, vai: o desamparo, Em que viva me tens, morta me deixa:

Verás que a minha queixa Fora de mim não busca outro reparo. O desengano meu, que me acompanha, Será de tão estranha,

Tão inflexível sorte, última cura. Fora de mim não quero outra ventura. Desta só breve luz, que me permite (Por melhor ver a sombra macilenta)

Um Pai, que me atormenta, Aflita gozarei, pondo limite Neste oculto retiro ao meu cuidado. Memórias do passado

Entrada não terão neste aposento, Habitação da sombra e do tormento. Ausentou-se Amarílis: ah! Que errado A contrastar, Salício, se aventura

De uma paixão tão dura A posse, que em seu peito tem tomado! Mal haja o monstro cego que mantinha, Irmã querida minha,

Teu enganoso passo, onde tão crua Vejas a face da desgraça tua. Mas enquanto o volúvel movimento Dessa Deusa inconstante não descansa,

À rapida mudança Me conformo do giro seu violento. Já agora seguir quero o curso ingrato De seu ligeiro trato;

Se pode ainda o fado pôr baliza Aos casos de Amarílis e Feliza. Onde foges, cruel? Onde, adorada, Belíssima ocasião de meu gemido,

Ocultas essa face delicada? Em que tenho, Amarílis, delinquido? Por que fazendo agravo da fineza Me ordenas um rigor tão desabrido?

Foi crime o adorar tua beleza? Seria: mas o Céu só é culpado Num delito (ai de mim!) que não me pesa: Ele deixou em ti recopilado

De seus astros a face peregrina, A pompa de seu rosto prateado. Ele por influência nos destina A adoração de um bem, cuja luz pura

A liberdade em cárceres domina. Se minha estrela pois, infausta e escura, Me conduz a teus olhos, destinada Vítima de tão rara formosura,

Aos Céus há de chamar minha ânsia irada Porque dando-me amor tão peregrino, Me ordenaram fortuna tão pesada. Injusto, ó Céu, comigo te imagino:

Ou não fora Amarílis tão querida, Ou fora mais feliz o meu destino. Mas se era todo o bem da minha vida Aquela rara idéia da beleza,

Aquela formosura tão crescida, Como injuriando o obséquio da fineza, Inda resiste meu cansado alento Aos assaltos da pérfida fereza!

Quero encurtar da vida o passo lento, A desgraça igualando, que Anaxarte Testemunhou no fúnebre instrumento. Terás, bela Amarílis, terás parte

Na minha ingrata sorte: eu o consinto Pela glória que tenho de adorar-te. Frondélio meu, do triste labirinto Em que já sufocada está minha alma,

Resgata este despojo tão distinto. Nesta, que os membros gira, mortal calma, Já nada me consola; nada quero, Mais que em fé deste Amor render-lhe a palma.

Sossega, meu Salício; eu ainda espero Que daquela que vês, ingrata, e dura, Possa ver o semblante menos fero. Do tempo a direção branda e madura

Tudo sabe mudar; a natureza É vária; e em variar sempre é segura. Amarílis, que bárbara despreza O teu suspiro agora (eu o discorro),

Há de um dia ceder dessa aspereza. Ah! Que pede meu mal outro socorro Mais pronto, mais ligeiro: eu imagino Que te contenta, Amigo, o ver que eu morro.

Sim, meu Frondélio, sim: que onde tão fino De Amor se ateia o fogo, outro concerto Não há mais, do que um cego desatino. Quando não foi de Amor no golfo incerto

A paixão, o delírio, e a loucura, O norte, que conduz ao desacerto! Apenas escapou da força dura De Amor a liberdade, que anda atada

À direção de uma prudência pura. Jove, o senhor da esplêndida morada, Deixa do eterno Olimpo a estância amena, E deixa a Divindade abandonada;

De Europa, Dânae, Leda, e mais Almena, Vê como foi despojo aquele raio, Que a soberba de Encélado condena. Em quantos desatinos faz ensaio

Aquele ativo incêndio, que nos peitos Imprime Amor com um mortal desmaio? Gira esses campos; vê os seus efeitos Tão raros, que estampados na memória

Nunca do tempo se verão desfeitos. Mas esta de Amor bárbara vitória Há de crescer mais peregrina, e rara Na que pertendo dar-lhe, imortal glória.

Tudo já me roubou a sorte avara: Nenhum bem eu espero já, perdida A melhor glória, que o meu peito amara. Aqui quero acabar, Frondélio, a vida,

Dando novas memórias, que este monte Respeitará na idade mais crescida. Girando Eco saudosa este Horizonte, Eu espero que ainda em rouco acento

A minha infausta história ao mundo conte. Horrorizando a todo o pensamento Vivirei, aos amantes desatinos Mil desenganos dando em meu tormento.

E trazendo em lembrança os peregrinos Excessos de um amor, no bosque inculto Serei assunto a números divinos. De hirsutos Faunos no retiro oculto,

Permitida a saudosa cantilena, Logrará meu amor perene culto. E tu, por desafogo à minha pena, Enquanto meu espírito tornado

Em cisne voa à região serena, Ao triste caminhante encomendado Um padrão erguerás compadecido, Naquele monte agreste e descalvado.

Nele fique por último esculpido: “Aqui jaz... (diga assim a cifra breve) Salício, por amante perseguido. Foi infeliz: seja-lhe a terra leve.”

Isto dizia, quando, Já desmaiado o alento, Nos braços de Frondélio descansando O peso triste, em fé do sentimento,

Apenas um gemido Despediu na lembrança do perdido. Então o Sol ausente Aos pousos convidava;

Já de pastar a relva florescente O seu rebanho cada qual chamava; Frondélio era um penedo, Triste, mudo, pasmado, absorto, e quedo.

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