Valha-me o Céu; e como estou pasmado De ver quão brevemente Um Pastor que mostrava tanto aviso, Que era aqui respeitado
Da nossa pastoril, sincera gente, Pelo mancebo de melhor juízo, Em louco transformado, o campo todo Admira, de tal modo,
Que já fogem de ouvir seu triste enredo Alguns de compaixão, outros de medo! Ah! grande Umbrano! E quem entenderia Que a desatino tanto
Uma alma conduzia Amor injusto! Quem seu golpe creria De tal vigor, de tal esforço, quanto Neste Pastor se emprega a tanto custo!
À margem desse lago, macilento, Pálido e sem alento, Anda girando este infeliz amante, Absorto sempre, e sempre delirante.
Que loucuras a idéia fatigada Não persuade a um triste Na saudosa lembrança do perdido! A alma, que estampada
Traz a imagem do bem, que mal resiste Da infausta pena ao fúnebre ruído! Deste Pastor tão belo bem sabemos, Com que finos extremos
De Angélica adorava o doce encanto! A sua ausência é causa de seu pranto. Mas bem que ouvir ingratos desatinos Mais parece impiedade
Que compaixão que alente humano peito, A ouvir os peregrinos Desconcertos me chego, que a saudade Dita em seu coração, de amor desfeito.
Agora que tem posto Dentro do lago os olhos, e o desgosto No semblante se vê mais declarado, Chegar-me quero a ouvir o seu cuidado.
Não são águas mimosas Estas correntes, não; eu nelas vejo As desfolhadas rosas Das faces de meu bem: o meu desejo
Com enganosa tinta Esta glória nas águas me não pinta. Vós, olhos, que serenos Representais as lúcidas estrelas,
Que suaves venenos Alimentando estais nas faces belas! Venenos, que bebidos Sempre hidrópicos têm os meus sentidos.
Enredados cabelos, De donde Amor me despediu as setas, Fostes a meus desvelos As correntes mais doces, e inquietas,
Que em mãos de suavidade Me prendem para sempre a liberdade. Choras? Ou te estás rindo? Se choras, a saudade te agradeço;
Se te ris, eu sentindo Fico o mal desta ausência, que padeço. Quem fora premiado Em tão ilustre fé, em tal cuidado!
Aqui vagando vivo À margem deste lago, aqui discorro Confuso, e pensativo, Buscando sempre a causa porque morro:
O seu divino rosto O Céu, por consolar-me, aqui tem posto. Dentro desta corrente Habita a minha Angélica; o semblante
Rico e resplendecente, Aqui vejo nesta água a cada instante. Em Ninfa transformada, Aqui quis eleger sua morada.
Mil vezes no despenho Me lembra Alfeu rendido e namorado; A segui-lo me empenho, E me impede, não sei se Amor, se o Fado;
Buscara a sua sorte, Mas dele não invejo mais que a morte. Consolação pesada É seguir este alívio; se não gozo
A face delicada, Termo de meu destino venturoso, Quanto o ver me atormenta Que o mesmo, que possuo, se me ausenta!
Nesse lago do Averno É bem sabido como um desgraçado Vive em tormento eterno, Só por lhe ser (oh! dura lei!) negado
O licor da corrente, E o pomo que se mostra florescente. Retrata o meu martírio De Tântalo infeliz a desventura:
Qual lhe chama delírio, Qual excesso da dor! Mas se a loucura Vem tão discretamente, Louco me espere sempre toda a gente.
Não há, nem pode haver mais desconcerto Que o deste infausto amante: Quão grande é o poder da fantasia! Julgar que tem tão perto
Aquele bem, que vive tão distante, Delírio é só da mísera porfia. Imagina presente o bem amado O triste desgraçado
(Ah! ditosa loucura!). Pois na idéia Trazes aquele alento, que recreia. Porém (oh! que delírio a alma alcança!) Como nunca o destino
Nos conduz para o bem de uma ventura! Pacífica bonança Encontrara este amante peregrino, Se obrasse uma hora igual a sorte escura:
Mas para mais desgosto Todo o prazer na idéia está disposto, E seu tormento infiel por derradeiro Tanto é mais duro, quanto verdadeiro!
A noite vem caindo, eu me retiro: Pois querer dar sossego A quem tem no seu erro o seu descanso, Que é tirania, infiro,
Só natural a um coração tão cego, Que ignora o desconcerto que eu alcanço. Que triste anda um amante, A quem traz seu cuidado delirante!
Pois para ser maior sua agonia, Tem todo o seu prazer na fantasia!
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