Ao campo alegremente concorria Da parte mais vizinha, e mais distante, Dos Pastores do Erro a companhia. Às portas dos currais o vigilante
Perro guardava o bem seguro gado, Latindo ao resplendor da Lua errante. Em fogos todo o sítio iluminado Tornava clara luz a sombra feia
Do gesto melancólico, e pesado. Vinham chegando de uma, e outra aldeia As flautas sonorosas, cujo acento O campo todo em júbilos recreia.
Trazia ao mundo o Sol com passo lento O dia, em que do Ebro os moradores Celebravam de Terce o nascimento. Terce, que glória fora dos Pastores,
Que naquela ameníssima ribeira Assunto foi de todos os cantores. Ninfa, de cuja graça lisonjeira No venturoso engano Alceio preso,
De Pastor se tornou penha grosseira. Que de um desdém no ingrato fogo aceso Por mercê foi dos Deuses transformado, Depois de ser de Tirce vil desprezo.
Este penedo ali assinalado Era do Ebro a trágica memória, Da devoção silvestre respeitado. E da Ninfa cruel a viva história
Celebravam Pastores, que aprendiam A ter de um peito bárbaro a vanglória. Um templo para culto lhe erigiam, E ornavam dele a fábrica elegante
Ingratos monumentos que esculpiam. De Alfeu mostra a parede o curso amante, Que de Artesas o cândido tesouro Segue no cristalino passo errante.
Negando a mão a Febo, a seu desdouro, Vê-se em rama o cabelo enverdecendo, De Anfriso a Ninfa transformada em louro.” Tremulamente ao ar se está movendo
A Semideusa convertida em cana, Atrás de si o hirsuto amante vendo. Enfim outras memórias de inumana Condição um Pastor destro, e polido
Na fábrica esculpira soberana. Já se escutava o músico ruído Das sanfonas, das flautas, dos cantores, Em que está todo o campo repartido:
Dispunham vários jogos os Pastores, Por prêmio consentindo ao que ganhasse Cajados de destríssimos lavores. Porque melhor o baile concertasse,
Na bela chusma das Pastoras vinha Antandra, que por guia as governasse. Era Antandra a mais bela, e como tinha, Mais do que as outras, coração ingrato,
Só em matar de amores se entretinha. Soava o canto harmonioso, e grato, Entoando em o número cadente Memórias do Pastor, desprezo, e trato.
O baile percebendo tristemente, Ao longe estava Eulino recostado Sobre uma penha, aflito e descontente. A Antandra amava, e seu maior cuidado
Era Antandra, Pastora que distante Vive do campo seu, do seu montado. Vendo-a presente o desprezado amante, E não podendo achar benigno efeito
No esquivo coração, chora constante. Desde o penhasco, em lágrimas desfeito, Vendo bailar a cândida Pastora, Que amor ateia em seu rendido peito,
Ingrata Ninfa, diz, se a quem te adora Fazes vaidade de ser ímpia e dura, Que val a uma alma quanto geme, e chora? A tanto chega já minha loucura,
Que hoje é no campo a infeliz notícia A qualquer que de mim saber procura. Só por tornar-te a condição propícia, É desprezo suave de meu gosto,
Quanto é do campo mimo, ou é delícia. Entregue sempre a meu fatal desgosto Vejo vagar (sem nele ter cuidado) O meu rebanho, ao voraz lobo exposto.
Que mais queres, cruel, de um desgraçado, Que uma alma tendo só para render-te, Uma alma a teu rigor tem consagrado! De meus ais eu pudera aqui trazer-te
Por testemunha toda esta montanha, Se esperara a ventura de mover-te. Mas o teu gênio, que a piedade estranha, Só prezaria ter esta certeza,
Por dar a teu rigor glória tamanha. Conta porém por mais distinta empresa Um coração, que tem maior vaidade, Quando mais nobre vítima despreza.
Eu clamarei, ó Ninfa, aos Céus piedade, Que pois de Alcemo hoje a memória existe, Sendo motivo à mísera saudade. Tempo virá, que de meu fado triste
Emendado se veja o influxo escuro, Que a um fino amor nem inda o Céu resiste. Algum penhasco, ou algum tronco duro Amor fará que só conserve o nome
De Eulino, porque a Antandra amou tão puro. Por mais que a sombra vença, o sono dome O ardor de uma lembrança, eu te prometo Que, ouvindo Antandra, o mundo injúria tome.
Não serás tu, idolatrado objeto, Como já noutra idade Tirce fora, Por não pagar de Alcemo o amante afeto. Entre nós hoje amor se não ignora,
Como naquela mais ingrata idade, Que a mais tirana era a melhor Pastora. Pintava-se modéstia a crueldade, E se atendia com maior decência
A que não se inclinava a ter piedade. Então o ser ingrata era inocência, E ao laço de Himeneu se sujeitava Uma alma, sem de amor sentir violência.
Hoje mais glória é ter uma alma escrava; Hoje o trazer um coração sujeito É bem que aquele século ignorava. Só de um Pastor se vê o nobre efeito
Em tributar à sua amada bela Doces obséquios de seu fino peito; Render-lhe o cordeirinho, que mais zela, Entre os seus recentais, ter-lhe guardado
O mimo, em que mais gosto empregasse ela; Oferecer o leite, o mel dourado, A fruta saborosa e a cestinha De rosas, que colheu no verde prado;
Da sua amada (ai bela Antandra minha!) Gostosa obrigação é a coroa Tecer-lhe de uma e outra ramazinha; Deve ornar-lhe o cajado, e se ele entoa
Entre as Pastoras algum hino, enquanto Erra o seu gado, o seu amor pregoa. Mas eu, que néscio advirto, obséquio tanto A quem, nada ignorando do que eu sinto,
Desprezo faz de meu saudoso pranto! Se só na idéia minhas glórias pinto, Que é o que estou sonhando, ou o que pertendo, Se a tudo o que te digo te estás rindo?
Oh! Não me vejas sempre estar gemendo, Ampare-me este alento que a constância Nos longes da esperança vem trazendo. Sufoque-se o tumulto de minha ânsia,
Se pode haver em tão fatal tormento Quem me encaminhe, Amor, à tolerância. Não dê mais meu cansado pensamento Tanto esforço ao pesar: essa inimiga
Veja-te, Amor, cantar o vencimento; E os teus triunfos por despojo siga.
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