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1729–1789

CANTO X

Cláudio Manuel da Costa

De Flégon e Pírois as rédeas de ouro Batia o Sol, e com feliz agouro Em giros onze ao lusitano fasto Sobre mil setecentos que tem gasto

Pelo eclítico cerco, enfim trazia O mês que Roma do seu Júlio fia Eis que Albuquerque, adiantando o passo Da margem que deixara, em breve espaço

Pisava as faldas do Itamonte: estava Co’os olhos fitos o Gigante, e dava Vivos sinais de uma alegria interna; Certo que de seus braços já governa

Tão grande parte a direção prudente Do magnânimo Herói, ele impaciente Na dilação de ver a Vila erguida, Conta-se (nem do caso se duvida),

Que assim falara quando o viu diante: Ó tu, por tantos riscos triunfante, Albuquerque feliz, pois que a fortuna Te conduziu com máxima oportuna

A registar de perto os meus domínios, Pois que cortados os fatais desígnios Do conjurado bando alegre pisas Este verde País, onde eternizas

Em gloriosos feitos o teu nome, Deixa que em teu obséquio a empresa tome De ir já desentranhando do meu seio Os mármores mais finos; nisto veio

Pulando desde o centro um Padrão liso Da mais subida massa; eu já diviso Nele entalhadas do cinzel agudo As Régias Armas; tanto ao destro estudo

De Praxíteles não devera a idade: Sobre o quadro da base à eternidade Se recomenda a estampa; ao alto erguida Sobre a coluna, a ponta está partida

De um aguçado alfanje; assim denota Que aos crimes ameaça, e o sangue esgota Dos que entregues à pérfida maldade Desconhecem as leis da humanidade.

Este Padrão no meio se coloca Da Régia Praça, que os Céus provoca Soberba torre em que demarca o dia Volúvel ponta, e o Sol ao centro guia.

De férreo pau já sobe, e já se estende Magnífico edifício, onde pertende A Deusa da justiça honrar o assento. Aqui das penas no fatal tormento

A liberdade prende o delinquente, E arrastando a misérrima corrente Em um só ponto de equilíbrio alcança Todo o fiel da sólida balança.

Da sala superior teto dourado Já se destina ao público Senado, Que o Governo econômico dispensa. Lavra artífice destro sem detença

Os mármores cavados; de polidas E altas paredes já se vêem erguidas As majestosas casas, que recolhem Régios Ministros que os tributos colhem;

Em respectivos tribunais decentes Dão as próvidas leis: talvez presentes Tem Itamonte já no claro auspício De um e outro magnífico edifício

As que espera lavrar líquidas fontes, Que vomitam delfins, e régias pontes, Que se hão de sustentar sobre a firmeza De grossos arcos da maior riqueza.

Presentes tem talvez os Santuários, Em que se hão de esgotar tantos erários, Onde Roma há de ver com glória rara Que debalde aos seus templos disputara

A grandeza, o valor e a preeminência. Trajando as galas da maior decência Na casa do Senado o Herói entrava; Da cor da tíria púrpura talhava

A farda militar; cinge-lhe o lado A rica espada, que já tem provado Mil vezes o furor do irado Marte; E a mão, que os prêmios liberal reparte

E dispõe os castigos, já sustenta O bastão que os poderes representa. Estão no plano os esquadrões formados, Monta a Cavalaria, e cinge os lados;

O centro ocupa a Infantaria; tudo Respira da grandeza um novo estudo: Brilha o asseio e a ostentação; a idéia Crê que dos Céus na vista se recreia,

Vendo nos recamados fios de ouro Que o Sol retrata ali o seu tesouro. Desta arte entrando vai na Régia Sala, Senta-se, mede a todos, e assim fala:

Felizes vós, feliz também eu devo Chamar-me neste dia, pois que escrevo Com letras de ouro o meu, e o nome vosso. Entre as vitórias e entre as palmas posso

Seguro descansar: enfim caída Vejo de todo a rebeldia erguida, E Vassalos de um Rei, que mais vos ama, Buscais acreditar a vossa fama

Com o dote imortal, que a Nação preza, De uma fidelidade portuguesa. De meus antecessores longe o susto; Goze-se a doce paz, e um trato justo

De amizade e de fé, de hoje em diante Acabe de apagar o delirante, Fanático discurso, que inda excita De algum Vassalo a dor; não se limita

O Régio Braço: a todos se dilata, A todos favorece, acolhe, e trata Sem outra distinção mais do que aquela Que demanda a virtude ilustre e bela.

Disse; e solenizando a ação, procura Se lavre logo a sólida escritura, Onde o foral da Vila se establece. Entanto o pátrio Gênio lhe oferece,

Por mão de destro artífice pintadas Nas paredes, as férteis, dilatadas Montanhas do País; e aqui lhe pinta, Por ordem natural, clara e distinta

A diferente forma do trabalho Com que o sábio mineiro entre o cascalho Busca o louro metal, e com que passa Logo a purificá-lo sobre a escassa

Tábua, ou canal do liso bulinete, Com que entre a negra areia ao depois mete Todo o extraído pó nos lisos vasos (Que uns mais côncavos são, outros mais rasos)

E aos golpes d’água da matéria estranha O separa e divide; alta façanha De agudo engenho! A máquina aparece, Que desde a sua altura ao centro desce

Da profundada cata, e as águas chupa. Vê-se o outro mineiro, que se ocupa Em penetrar por mina o duro monte Ao rumo oblíquo, ou reto; tem defronte

Da gruta, que abre, a terra que extraíra; Os lagrimais das águas que retira Ao tanque artificioso logo solta; Trazida a terra entre a corrente envolta,

Baixa as grades de ferro; ali parados, Os grossos esmeris são depurados, Deixando ao dono em prêmio da fadiga Os bons tesouros da fortuna amiga.

Por entre a pedra estoutro vai buscando As betas de ouro; aquele vai trepando Pelo escabroso serro, e as águas guia Pelos canais que lhe abre a pedra fria.

Não menos mostra o Gênio a agricultura Tão rara do País, aonde a dura Força dos bois não geme ao grave arado; Só do bom lavrador o braço armado

Derriba os matos, e se ateia logo Sobre a seca matéria o ardente fogo. Da mole produção da cana loura Verdeja algum terreno, outro se doura;

O lavrador a corta, e lhe prepara As ligeiras moendas; ali pára O espremido licor nos fundos cobres: Tu, ardente fornalha, me descobres

Como em brancos torrões haja tornado A estímulos do fogo o mel coalhado. O arbusto está, que o vício tem subido A inestimável preço, reduzido

A pó sutil o talo e a folha inteira. Não menos brota a oriental figueira Com as crescidas folhas, e co’o fruto, Que inda nos lembra o mísero tributo,

Que pagam nossos Pais, que já tiveram A morada do Éden e não puderam Guardar por muito tempo a lei imposta (Ó natureza ao Criador oposta!).

Os pássaros se vêem de espécie rara Que o Céu de lindas cores emplumara; As feras e animais mais esquisitos Todos no alegre mapa estão descritos,

Os olhos deleitando e entretendo O Herói que facilmente o está crendo, Ao ver que destra mão dar-lhes procura A vida que lhes falta na pintura.

Mas já lavrado estava e já firmado O termo, que escrevera o bom Pegado; Quando mais que a eleição, podendo o acaso, Manda o Herói que se extraiam dentre um vaso

Os nomes dos primeiros a quem toca Reger a Vara que a justiça invoca. A ti te chama a sorte, ó grande Melo, E tu, Fonseca, em nobre paralelo

Cedes nos anos teus a precedência, Do que contemplas próvida influência. Seguem-se àqueles dous um Figueiredo, Um Gusmão, um Faria, e te concedo

Que sejas tu, Almeida, o que completes O número na ação em que competes. Ansioso o Povo às portas esperava Pela alegre notícia, e já clamava

Viva o Senado... Viva! Repetia Itamonte, que ao longe o eco ouvia. Enfim serás cantada, Vila Rica, Teu nome impresso nas memórias fica;

Terás a glória de ter dado o berço A quem te faz girar pelo Universo.

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