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1729–1789

CANTO VII

Cláudio Manuel da Costa

A Madre de Mêmnon dourava a terra, E já se descobria uma alta Serra Com três dias de marcha; de Itamonte O carregado aspecto está defronte.

Não repugna do Herói à nobre entrada, Mas tem presente ainda a retirada De Fernando; inda vê de sangue tinto O campo; e nota o ódio mal extinto

Dos infames rebeldes, conjurados. Embaraçar pertende os apressados Passos que vêm trazendo, e quer primeiro Co’a vista de um obséquio lisonjeiro

Demorar a Garcia: teve o indulto Este Vassalo de avançar-se oculto E entrar na povoação, notando o estado Da levantada gente: era chegado

À margem de um ribeiro; e os olhos tendo Mal enxutos ainda, se está vendo Na prisão insensível de um encanto, Que enfim lhe acaba de pôr termo ao pranto.

Uma voz se lhe finge, que feria Os ares docemente e assim dizia: Saudoso Ribeirão, Mancebo infausto, Seja perdida a pompa, a glória, o fausto,

Em pequena corrente convertido Vás regando este vale, o teu gemido Não acuse de Eulina o brando peito; Talvez Amor tirano a teu respeito

Quis que eu fosse cruel, e involuntário Seguiu meu pensamento esse contrário Influxo das Estrelas; eu te amava, E dentro da minha alma protestava

Não render o troféu desta beleza Mais que aos suspiros teus, e à chama acesa De Amor, que nos teus olhos percebia. Apolo, o ingrato Apolo é quem devia

Ser contigo mais brando e mais propício: A culpa é só de Aucolo; o sacrifício, O voto que ele fez ao Deus tirano, Tudo enfim se ajuntou para o teu dano.

Talvez não conhecia eu, desgraçada, Que eras tu o que então com mão armada Me estavas a esperar lá perto à fonte. Este aleivoso Deus, para que conte

Da minha história a triste desventura, Depois que presa a minha formosura Entre a nuvem levara enganadora, Faltando a toda a fé, me ordena agora

Que eu torne ao pátrio berço, e convertida Em Ninfa destas águas, passe a vida Entregue sempre a míseros lamentos. Oh! e quem crê de um Deus nos juramentos!

Aqui o teu sussurro estou ouvindo, E nele a tua queixa inda sentindo, Quando escapada aos amorosos laços Dizer-te escuto: “Onde a meus ternos braços,

Onde te escondes, onde, amada Eulina, Quem tanto estrago contra mim fulmina?” Aqui teu duro mal percebo e noto, Quando, do agudo ferro o peito roto,

Dás à cega ambição em cópias de ouro O que roubaste, mísero tesouro De Itamonte, teu Pai, que não sabia Que a seus cansados anos deveria

Suceder um tão fúnebre desgosto. Cheio de mágoas te estou vendo o rosto Com que acusas o humano atrevimento, Quando lhe acordas o furor violento

Que faz de Polidoro a desventura, Oh! ambição! Oh! sede! Oh! fome dura! Ouve Garcia o canto, e não atina De onde tanto prodígio, mas de Eulina

A delicada face está patente: Fita os olhos, e vê desde a corrente Lançar a mão à praia a Ninfa bela; Toma uma areia de ouro, e já com ela

Pulveriza os cabelos: neste instante O sonho de Albuquerque o faz avante Passar; os braços abre, à Ninfa chama; Ela o vê, e não teme, e já se inflama

De amor por ele; aos braços o convida, E abrindo o seio o Rio, uma luzida Urna de fino mármore os sepulta, Recebendo-os em si: ficou oculta

A maravilha a quantos o acompanham. Em busca de Garcia já se entranham Pelos matos mais densos, mas perdida A esperança de achá-lo, e recolhida

Volta ao Herói a esquadra aventureira. De inadvertido brinco ação grosseira Turbara neste tempo a comitiva; Querem que entre eles o partido viva

De Europeus e Paulistas, e já passa A desafio em uns o que foi graça. Conta-se que por mofa algum dizia Que seguro em si só não vai Garcia;

Que ao valor europeu em pouco ou nada Disputar do Paulista pode a espada. Leva-se Borba do furor ardente, Empunha o ferro, atreve-se valente

Ao mesmo tempo a rebater Pegado O colérico ardor; vê-se insultado No respeito Albuquerque: Olá! dizia, Os braços suspendei; de rebeldia

É este um sinal claro; não se deve Tanto despique à ofensa, que é tão leve. Se ao Paulista de fraco alguém acusa, Ele de seus espíritos só usa,

Quando a honra do empenho ao campo o chama. Não é valente, não, o que se inflama No criminoso ardor de a cada instante Dar provas de soberbo, e de arrogante.

Os Europeus são fáceis neste arrojo.” Se justo imaginais foi o despojo Das Minas, que lhes tiram, porque avaros Se pertendem mostrar (bem que são raros

Os que entre eles se arrastam da cobiça), Dizei: não pede a próvida Justiça Que zele cada um, que guarde, e reja O que adquire o seu braço, quando a inveja

Lho pertende roubar? Estas conquistas, A quem se deverá mais que aos Paulistas? Mas eu ponho de parte os argumentos, Que com substância igual os fundamentos

Fazem desta disputa assaz ligeira; Seguiremos a máxima grosseira Dos espíritos vis, que têm formado Nestas Minas um corpo levantado?

Acaso um mesmo Rei nos não protege? Uma só Lei a todos nos não rege? Do tronco português não é que herdamos O sangue de que as veias animamos?

Não faz comuas um Vassalo as glórias Do seu Rei? Do seu Reino? Das vitórias Que um ganha, o outro perde, não alcança A todos o infortúnio ou a bonança?

Somos nós dessa estirpe, que brotara Do antigo Cadmo a bárbara seara, Onde uns irmãos com outros pelejando O ferro no seu sangue estão banhando?

Árbitro entre vós outros me conheço, Do Europeu, do Paulista faço apreço, E distinguindo em todos a virtude Não espereis que de projeto mude.

Não faz a Pátria o Herói, nascem de Aldeias Almas insignes, de virtudes cheias; E nem sempre na Corte nobre e clara Ingênua série, portentosa e rara

Se vê de corações, que resplandecem Pela glória somente, e nela crescem Dizia; e ao mesmo passo de Pereira Um aviso chegava, de onde inteira

Informação o Herói já recebia Da sacrílega, ousada rebeldia. Sabe que ao longe os montes estão cheios Dos conjurados Chefes; nisto os meios

Consulta de passar; e tem presente A imagem, que no vidro transparente Formara o Gênio; de Garcia ousado Só quisera partir acompanhado;

Por ele chama, e teme, e se entristece Ao ver que falta, e apenas aparece Quem dê notícia, ou conte a sua ausência. Teme que surprendido na violência

Ficasse dos Rebeldes; resolvido Já tem partir sem ele; do vestido Que traja, militar, e rica banda Se despe; humilde capa aos ombros manda,

E por tudo disfarça o alto respeito, Que inculca o aspecto: a todos no conceito Segura desta empresa, e lhes ordena Que em marcha vagarosa, entre a serena

Sombra da noite ao longe o vão seguindo; Parte, e encostado à Serra vai subindo Uma colina, que lhe põe defronte O pico, o grande pico de Itamonte.

Chegava o dia ao termo derradeiro, E ao vale vem descendo desde o outeiro A sombra carregada; humilde tenda Aqui recolhe o Herói; como pertenda

O Interesse adiantar o seu partido, Bem que o Gênio a seu ímpeto escondido Tinha as idéias com que o Herói salvava, Na mesma tenda a um tempo abrigo dava

O indigno Monstro aos Chefes levantados. Todos em um congresso declarados Entre si praticando estão na vinda De Albuquerque, nem crêem que esteja ainda

Tão próximo a chegar; longe o figuram, E muitas vezes protestando juram De obrigá-lo a voltar; a morte certa Prometem, se o resiste; descoberta

A Albuquerque se faz por este modo A torpe idéia do desígnio todo. Recolhem-se a dormir, e se recolhe Albuquerque também, que não lhe tolhe

A constância o temor; cauto pertende Aos Pereiras juntar-se, e mais se acende No desejo de ver ao bom Garcia, Que aos três irmãos já crê que passaria.

Cheio destes cuidados entregava Ao leito os lassos membros, e pensava Em vencer da alta noite por diante O caminho. Eis o Gênio vigilante,

Que o perigo iminente está prevendo, Com seus influxos sobre o Herói descendo, Da mão o prende e o guia a um sítio aonde O escuro Caeté de acordo esconde

Um magnífico Paço, em que destina Que tenha o Herói habitação mais digna. Aqui dos três Pereiras o esperava O nobre ajuntamento, e protestava,

Cada um em seu nome, que faria Cair por terra a infame rebeldia; Que de amigos, patrícios e parentes Tinha a seu mando prontas e obedientes

Muitas esquadras, que traria ao lado. Tudo agradece o Herói; mas tem pensado Mover por arte e por indústria os Povos. Estamos, disse, em uns países novos,

Onde a polícia não tem inda entrado; Pode o rigor deixar desconcertado O bom prelúdio desta grande empresa. Convém que antes que os meios da aspereza

Se tente todo o esforço da brandura. Não é destro cultor o que procura Decepar aquela árvore que pode Sanar, cortando um ramo, se lhe acode

Com sábia mão a reparar o dano. Para se radicar do Soberano O conceito, que pede a autoridade, Necessária se faz uma igualdade

De razão e discurso; quem duvida Que de um cego furor corre impelida A fanática idéia desta gente? Que a todos falta um Condutor prudente

Que os dirija ao acerto? Quem ignora Que um monstruoso corpo se devora A si mesmo, e converte em seu estrago O que pensa, e medita? Ao brando afago

Talvez venha a ceder; e quando abuse Da brandura, e obstinado se recuse A render ao meu Rei toda a obediência, Então porei em prática a violência;

Farei que as armas e o valor contestem O bárbaro atentado; e que detestem A preço de seu sangue a torpe idéia. Disse; e deixando a todos a alma cheia

De uma nobre esperança, já passava A saber de Garcia; nem lhe dava Notícia dele algum dos três Pereiras. A um fundo Rio estavam sobranceiras

Espessas matas de árvores copadas; De seus ramos, quais) á foram mostradas Ao Troiano, que tenta o Reino escuro, Em vãs imagens pende o sonho; um duro

Tronco escolhera o Gênio; ali fizera Em uma e outra fúnebre quimera Respirar o terror, forjar-se o susto. Dali manda se espalhe a todo o custo

Uma e outra ilusão; partem voando As fantásticas sombras; vão pintando Grilhões, cadeias, cárceres, suplícios, Degoladas cabeças, artifícios

Nunca inventados de instrumentos vários Que estão ameaçando aos temerários, E rebeldes Vassalos a ruína: Confundem-se os infames, e destina

Cada um desde já buscar o meio De pôr de parte o crime enorme e feio, E acreditar aos pés do Herói que chega A fé, com que ao seu Rei se rende e entrega.

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