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1729–1789

CANTO IX

Cláudio Manuel da Costa

Matéria é de coturno, e não de soco, O que a Ninfa cantava; eu já te invoco, Gênio do pátrio Rio; nem a lira Tenho tão branda já, como se ouvira

Quando a Nise cantei, quando os amores Cantei das belas Ninfas e Pastores. Têm os anos corrido, além passando Do oitavo lustro; as forças vai quebrando

A pálida doença; e o humor nocivo Pouco a pouco destrói o suco ativo, Que da vista nutrira a luz amada: Tampouco vi a testa coroada

De capelas de louro, nem de tanto Preço tem sido o lisonjeiro canto, Que os mesmos que cantei me não tornassem Duro prêmio; se a mim me não sobrassem

Estímulos de honrar o pátrio berço, Deixara de espalhar pelo Universo Algum nome, deixara... mas Eulina Me chama já: soava a voz divina,

E aos bustos discorrendo, assim cantava: Aquele (e no primeiro se firmava), Aquele que na frente traz gravado O caráter de um ânimo empregado

Em contínuas fadigas, que inda sua Por entre a espessa brenha e serra nua, Vencendo ásperos riscos e as correntes Dos rios não cortadas de outras gentes

Mais que do hirsuto e bárbaro Gentio, É Rodrigo, que junto àquele rio Que acabas de pisar a vida entrega Às mãos de uma ousadia infame e cega.

Em vão tentou ao Rei dar novo aumento Das Minas no feliz descobrimento, Que atalhando seus passos duro fado Aqui lhe tinha a urna preparado:

Em vez de roxos lírios e açucenas, Bárbaras flores lhe derrama apenas Piedosa mão, se acaso Monstro enorme Seu túmulo não pisa, e nele dorme.

Artur é quem sucede mais ditoso, Pois que atraindo ao Borba generoso, Que ao centro dos Sertões se retirara, Com ele emprende ver a terra avara,

Onde jaz de Rodrigo a sepultura: Vê qual próvida mão dar-lhe procura O luzente metal, que em longos anos Se negara à fadiga dos humanos.

O terceiro é Fernando, que sustendo Dificilmente as rédeas se está vendo Entre os insultos da rebelde gente; Desde longe o ameaça a bala ardente,

A crua espada e o punhal ferino, Se não volta e obedece ao seu destino: É prudente o Varão; vê-se arriscado Sem armas, sem defesa, e profanado

O respeito não quer e a autoridade, Que sustenta do Rei a Majestade. De vendicar o mando a empresa toma O famoso Albuquerque, e a grande soma,

Dos tesouros que guardo eu lhe preparo. Melhor do que nos mármores de Paro, Ou nos polidos bronzes de Corinto, Ele o seu nome levará distinto,

De uma vez as cabeças decepando Da Hidra venenosa, que soprando Ainda o fogo está da rebeldia. Fará subir com nobre valentia

De choupanas humildes a altas torres Essas povoações, que a ver discorres Desde esta margem te meu fundo centro; Quanto do seio meu se encerra dentro

Liberal eu virei dar-lhe em tributo; Da grande cópia do amarelo fruto Os curvos lenhos em fecundas frotas Irão levar às regiões remotas

As preciosas porções, que nunca vira Em tal grandeza o Rei, que dividira As águas do Eritreu, e desde o Tiro Ao claro Ofir voou com longo giro.

Do Carmo a Vila, e a Vila do Ouro Preto Formarão das conquistas o projeto; Junto ao Rio, a que as Velhas deram nome, A terceira erguerá, que o foral tome.

Já vens cortando o mar para rendê-lo, Magnânimo Silveira; do teu zelo Fia o Rei se adiante o novo Empório: Em trinta arrobas de ouro faz notório

Por esta vez o Povo o seu tributo, E agradecido o Rei conhece o fruto Da tua persuasão, sem que a violência Arrastasse os esforços da prudência.

Do teu Antecessor seguindo a estrada, Passas a ver com glória edificada A Vila que escondida o Fado tinha Com o precioso nome da Rainha;

E no distante Serro se levanta A outra, que do Príncipe se canta; Ditosas povoações, que hão de algum dia Encher de lustre a Lusa Monarquia.

Criadas as três Vilas, já demarcas Os distintos limites das Comarcas: Dás com próvida mão leis, e moderas As discórdias civis; já consideras

Domado o povo, e em sucessão gloriosa Ao claro Almeida entregas a preciosa Porção das Minas do Ouro: ó tu, mil vezes Digno filho de Marte, que os arneses

Acabas de romper entre os Iberos; Que ousados braços, que semblantes feros Te não cabe aterrar! Ao longe eu vejo Erguer-se a multidão, que em vão forcejo

De atrair e render; vem arrastando Infames Chefes o atrevido bando: Chegam, propõem, disputam; nem se nega Teu intrépido rosto à fúria cega

Do fanático orgulho. Ah! não se engane O Vassalo infiel; bem que profane, Que ataque e insulte a Régia Autoridade, Ao destroço da vil temeridade

Será o campo teatro, e em sangue escrito Chorarão sem remédio o seu delito. Cai a sublevação, e restablece Outro Almeida o real decoro; cresce

A opulência no Estado; um Melo e Castro, Da esfera lusitana feliz astro, Já sucede ao bastão que Almeida empunha; Deste Herói as virtudes testemunha

Itália toda, e as suas glórias soma, Cheia de tanto nome, a ilustre Roma. Mas qual te chamarei, ó sempre digno Sucessor de Galveas; o benigno

Céu, que te envia a nós, de riso cheio O seu semblante inculca; ah! que do meio Do Guadiana te arrancou! Pendente Lá vejo a espada, e vejo a areia quente

Do sangue derramado! Que destino Tão fausto para nós! Já imagino Que eternos os teus dias lograremos! Dos Tritões sobre as costas levaremos

Ao luso Atlante, nunca tão pesados, Os Reais Cofres; vinde, ó dilatados Sertões, vinde montanhas, vinde rios; Chegai também, ó bárbaros Gentios

Do bravo Cuiabá, do Mato Grosso, De Pilões, de Goiases, vede o vosso Destro Governador, que desde as Minas Sustenta a rédea, e manda as peregrinas

E sábias direções, com que reparte Em uma e outra dilatada parte Sua próvida mão, com que segura O bem do Rei, dos Povos a ventura!

Já do pardo Uraguai busca a corrente; O Irmão o substitui; o sangue ardente Lhe lembra a imitação de heróicos feitos, Generosos A Andradas, dignos peitos!

Este alimpa os Sertões da gente ociosa, Que do roubo se nutre; a deliciosa Margem do Rio Grande é povoada. Toda a larga campina que pisada

Fora do cafre vil ao Régio Erário Rende os tributos; pode o Céu contrário, Sim, roubar-vos, ó Freires, mas na idade Há de ser imortal nossa saudade.

Vês ora o grande Lobo: este caminha Seguindo a Serra, que lá tem vizinha De Paulo a Capital; impede os passos, Que abre o extravio; pronto aos ameaços

Da Guerra acode, a Terra fortalece De militares tropas, e a guarnece De bélicos petrechos: já fundido Sai da fornalha o bronze, e convertido

Em raios de Vulcano atroa os montes. Mas ai! que já do Tejo os horizontes Se vêem escurecer! Já deixa a praia Aquele Herói saudoso, que se ensaia

De verdes anos a ganhar vitórias! Já nos demanda e busca: nas memórias Seu nome impresso guardarão as Minas. Oh! e de que influências tão benignas

Seu governo não é! Ao conquistado Quanto de novo tem acrescentado! Domésticas aldeias reconhecem A proteção do Rei; já obedecem

As distantes regiões; vem o Tapuia Do escuro Cuieté, ou do Urucuia Beijar o Santuário: qual se esconde Rio, ou montanha tão remota, aonde

Não se investigue por seu mando o ouro? Que crime há tão seguro, que ao vindouro Com o exemplo profane? Oh! singulares Dotes do Conde meu de Valadares!

Assim cantava a Ninfa, arrebatada Do profético espírito; dourada E sonorosa a trompa já se ouvia Entre um tropel de brutos, que feria

A praia oposta; a luminosa sala Se ia negando aos olhos; já não fala Itamonte, e o Mancebo já se esconde; E Garcia (oh! prodígio!) se acha aonde

Há pouco antes se achara, e adverte, e nota Que para ali com plácida derrota Vêm chegando Albuquerque e os companheiros. Já festivos clarins pelos oiteiros

Se deixam perceber, louvando a vinda; Em vivas tudo soa; e corre ainda O mesmo bando que turbara a entrada A protestar a fé, já detestada

A torpe idéia, que o arrastara um dia. Alegre o Herói se abraça com Garcia; Alegres dão-se as mãos Borba e Camargo; Conta o Mancebo do feliz letargo

As horas; conta o Herói o que passara, Como um e outro Chefe ali o buscara; Como já com certeza achado tinha O sítio, aonde levantar convinha

A Capital das Minas: vem Fialho, Afirma que, seguindo um breve atalho, O fundo registrara de Itamonte; Que vira o vale e a aprazível fonte,

Onde de Eulina inda a memória vive. Presente, diz o Herói, também eu tive Toda esta noite quanto viu Garcia. O Gênio celestial, que pôde um dia

Descobrir-me o segredo deste empório, Tudo aos meus olhos, tudo pôs notório; Vi este sítio, o Vale, o Rio, a Serra, E os tesouros, que o monte ao longe encerra;

Aqui entre estes povos se levante A Vila, e já passando mais avante Se erija a Capital: isto dizendo, Reparte as ordens; todos concorrendo

A um tempo vão na fábrica luzida De um e outro edifício! Da ferida Que abria o ferro em um robusto lenho, Cômodo à obra, por notícia tenho

Que um cheiroso licor se derramava Da cor do sangue; absorto o Herói estava, E vendo a maravilha, diz a Bueno: Acaso crera que o país ameno

Lembra o sucesso das irmãs piedosas, Que inda choram no Erídano as saudosas Memórias do abrasado irmão; coalhadas Assim se vêem as lágrimas brotadas

Dos moles choupos. Bueno, que não perde A oportuna ocasião, do tronco verde Toma argumento e diz: A antiga história Desta árvore, eu a guardo de memória,

Desde a primeira vez que um índio velho Encontrei nos Sertões, e de conselho Saudável quis que eu fosse socorrido. Nestes montes me conta que nascido

Fora um mancebo: Blázimo era o nome, Que a corrupção do tempo em vão consome, De bálsamo guardando inda a lembrança. Este, tão destro em sacudir a lança,

Como em matar às mãos o tigre ousado, Da formosa Elpinira namorado, E seguro no cetro que mantinha De trinta aldeias que a seu mando tinha,

A demandava esposa: disputava Argante um tal amor; a grossa aljava Dos ombros lhe pendia, e sempre em guerra Fumar fazia a ensanguentada terra.

Elpinira, que causa se conhece De tanto estrago, entre ambos se oferece A dar a mão ao que a ganhasse em sorte (Por que caminhos não buscava a morte!).

Convêm os dois rivais, e o pacto aceito, Um dos dias do ano têm eleito, Em que o seu Paraceve festejavam. Brancas e negras pedras ajuntavam

Em uma concha e, em roda juntos todos, Ao grande ato concorrem; vários modos Inventam já de baile, jogo e dança, Coroando cada um sua esperança.

Preside às sortes o bom velho Alpino, Pai de Elpinira e Rei: vem o ferino Argante, pés e mãos tendo cercado De verdes penas, onde amor firmado

Traz a esperança da vitória; a frente Blázimo adorna de um laurel florente, Que tecem muitas rosas, misturadas De suavíssimo cheiro; estão sentadas

Várias índias, cercando em meio a bela Elpinira; orna a testa uma capela De rosas, e folhetas pendem de ouro Das orelhas; por tudo um triste agouro

Respirou: muitas árvores tremeram, Os pássaros do dia se esconderam, Só os da noite sussurrar se viram. Juram, dando-se as mãos os dois, e tiram

Cada qual sua pedra; a branca expunha Sorte feliz; a negra testemunha A perda da consorte; está jurado Sofrer com paz o que não for premiado.

Blázimo vence, Argante se retira, E simulando a dor, geme e suspira. “Viva Blázimo!”, dizem: logo as vozes A Argante vão ferir, e tão atrozes

Passam a ser as fúrias em seu peito, Que desde aquele instante faz conceito De vingar sua dor, roubando a glória Ao mesmo que o privara da vitória.

Com rosto disfarçado quer contudo Lograr o golpe; um meditado estudo Lhe lembra a ocasião, o sítio, e a hora De banhar toda em sangue a mão traidora:

“Eu, diz Argante, eu devo entrar em parte Nas vossas glórias; todo o esforço d’arte E do engenho porei, por que se veja Que cedo alegre, e não me arrasta a inveja.

Na minha aldeia, e entre os meus povos quero Festejar vossas núpcias; nela espero Dar-vos provas do gosto e da alegria Que me sabe trazer tão fausto dia.

Ali de firme paz e de aliança Farei novo concerto, e da vingança Cederá de uma vez o vil projeto” (Oh! dura força de um mentido afeto!).

Aceita Alpino: Blázimo é contente, E Elpinira também, que já presente Crê a ventura que esperava ansiosa. Três dias pede Argante, e a insidiosa

Idéia lhe propõe um torpe meio De executar o dano sem receio. Manda alimpar a estrada, funda cava Faz abrir no mais plano, que abarcava

Ambas as margens; desde o centro ao alto Mete a aguçada estaca, e quanto falto De terra está cobre de ramo brando; Sobre ele moles folhas vai deitando,

Que a mesma terra entaipa, e já figura A superfície igual, e limpa, e pura. Chega a terceira Aurora; desde a Aldeia Alegres vêm saindo, e os lisonjeia

Argante, tendo em fronte aparelhado Do lugar da traição o costumado Baile, com que na paz se festejavam De muitos dos seus índios. Já pisavam

A estrada os dois amantes: o Pai vinha De um lado, e de outro lado da mão tinha Blázimo presa a idolatrada Esposa (Que alegre vista, que ilusão faustosa!).

Todos diante vêm; este o costume É da nação; nem teme, nem presume Algum dos três, e inda o povo todo, A urdida morte por tão novo modo.

Com Argante e seus índios se avistavam, Em vivas desde longe se saudavam. Infelizes (que dor!) as plantas punham Sobre a coberta cava, e já supunham

Que os braços ao amigo se estendiam, Quando passados os seus peitos viam Das aguçadas farpas: volta Argante Colérico, soberbo e triunfante

Sobre os desprevenidos que acompanham Sem armas ao seu Rei; todos se apanham Presos às mãos das emboscadas; morrem Imensos índios; a fugir recorrem,

Mas a gente que às costas lhes ficava, O resto, o infeliz resto destroçava. Já mortos os três índios, lançam terra Sobre os seus corpos; uma só urna encerra

O mísero despojo. O Céu procura Vingar o grave horror: da sepultura Vê-se brotar uma árvore, que verte Cheiroso sangue. O caso se converte

Em fabulosa história, e se acredita Que Blázimo, a quem segue esta desdita, Das mesmas flores de que a testa ornara, E do seu sangue a cor e o cheiro herdara;

E que o Céu testemunhos multiplica, Multiplicando os troncos; assim fica A tradição nos nacionais guardada; O Índio que me conta a dilatada

História diz-me, então, que mal segura É sempre a fé que o inimigo jura. Ouve Albuquerque o caso, e não ignora Que alto mistério dissimula agora

Em suas vozes Bueno; tem previsto Quanto o nome do Rei se vê malquisto Entre os Chefes do povo levantado; E trazendo em memória o já passado

Encontro adulador, que de Fernando Acobardara a entrada, então chamando Os membros principais, que arrebatava A fanática idéia, assim falava:

Vassalos sois de um Rei, que não vos deve O cetro, ou a coroa; a origem teve Já dos vossos Senhores; por herança O Reino Augusto em suas mãos descansa.

Sendo assim, bem sabeis que é só tributo, E não dádiva vossa aquele fruto Que adquirem vossas forças; dou que fosse Vossa a conquista; o seu domínio e posse

Só cede ao vosso Rei; causa comua Seja ela embora, é nossa, porque é sua. Ele os seus braços para nós estende, Nos manda e rege; e tudo compreende

O seu Império na maior distância; Nós juramos das Leis toda a observância, E do primeiro pacto não devemos Apartar-nos, pois nele nos prendemos.

Do castigo e do prêmio ele confia Das minhas mãos o arbítrio; eu deveria Usar do meu poder; porém cedendo À piedade o rigor, de vós pertendo

Só dignas provas de obediência pura. Não quero crer a sem-razão perjura, Que dominou em vós; a caluniosa, Torpe mentira, cuido que enganosa

Fez voar tudo quanto é já notório Que tem feito a ruína deste empório; Enfim perdôo a todos o passado; Firma o Rei o perdão que tenho dado.

Conheço (e com Viana só falava) Que em vós, e em vosso peito dominava Um zelo justo pelas leis que guardo; De dar as providências já não tardo

Sobre os dous ímpios, que influir puderam Nas discórdias civis: eles se alteram Com a minha chegada, e vão buscando Estranhos climas, libertando o bando,

Que atraíram talvez, ou que arrastaram: Os poucos membros, que entre nós ficaram, Farei por conservar na paz, que espero; Mas da vossa obediência aprova quero

Mais sólida e mais firme; ao longo centro Dos Sertões passareis, e ali dentro Dos seus limites contereis seguros Na doce paz os ânimos impuros;

Que os não manche outra vez o humor nocivo Da infame Rebeldia; o braço ativo Saberá, esgotando todo o empenho, Destroçá-los, puni-los: mas que venho

A meditar? De vós tudo confio; De vós, do vosso zelo, esforço e brio. Isto dizendo, os braços estendia Para Viana: neles recebia

Logo a Francisco, a quem recomendava O mesmo, e muitas vezes protestava Que do seu Rei poria na presença Um tal serviço; ordena sem detença

Que partam desde logo; têm por dita Os dous Vassalos ver que os acredita O conceito do Herói; as mãos lhe beijam, E o desterro político desejam

Cumprir, mais que por força, por vontade. Conrado e outro conspirado Frade Ao longe vão marchando; e dão as costas À torpe Hipocrisia, que dispostas

Tinha em vão as idéias do atentado; A Rebeldia ao centro tem baixado; Cheio de fúrias mil vomita fogo O Interesse, que o guia e arrasta logo

O falso Engano e a Traição malvada, Que vêem tanta fadiga malograda.

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