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1729–1789

CANTO IV

Cláudio Manuel da Costa

A continuar a marcha se dispunha O Herói, que um vivo zelo testemunha Em todos que os seguem; repartidos Aqueles a quem são mais conhecidos

Os Sertões, pela margem se espalhavam À direita do Rio e se empregavam Em socavar a terra, em diligência Do metal de que têm verde experiência.

Tinha Pegado adiantado o passo Algum tanto dos mais, e o corpo lasso Junto a um lago, que sobre uma campina Se espraia e quebra as ondas, brando inclina,

Procurando em um tronco em parte encosto Ao ombro, e alívio à cabeça, e rosto. Estende-se na areia e reclinado Se vê apenas, quando (oh! inesperado

Prodígio, que o surprende!) eis que mover-se Pouco a pouco se admira, ora estender-se, Ora encurvar-se o formidável tronco. Levanta-se assustado e logo um ronco

Ouve medonho, que de todo o rende; A causa do prodígio não entende, Não pensa, não discorre o bom Pegado; Grita aos índios atônito, pasmado,

E o tronco então com rapto mais furioso Se arroja desde a praia e busca ansioso Sepultar-se no lago, o seio abrindo Das águas, que co’a cauda vai ferindo.

Não de outra sorte sobre os grossos mares, Que do Antártico Céu cobrem os ares, De mergulho se vê buscar a areia O pardo e negro monstro da baleia,

Quando do arpão do pescador ferida Tinge as ondas de sangue e, submergida, Ao fundo leva a barbatana dura. Vêm os índios chegando, e entre a escura

Sombra do lago inda estão vendo o rasto Da fera, que conhecem; tanto ao pasto Da presa que avistou Leão não corre, Como um e outro Tape se socorre

Dos pés nadantes, e nas mãos levando O pronto ferro, o tronco vão rasgando Co’as cortadoras facas; já de todo Boiando o fazem vir; por arte e modo

Não pensado o arrojam sobre a praia. De curioso ardor cada um se ensaia Em arrancar-lhe das entranhas tudo Quanto a fome tragara; absorto e mudo,

Pegado está notando a maravilha. Três veados comera, enquanto trilha A margem da lagoa; estão inteiros No ventre e ainda em pêlo os dous primeiros.

Riem-se os índios de Pegado, e o riso Tem ao Mancebo então mais indeciso, Vendo que novo ali não conhecera Que é o Sucuriú aquela fera,

De quem ouvido aos nacionais havia Que um tronco na grandeza parecia. Mas não foi tão debalde este portento, Que olhando para o sítio, aonde assento

Fizera o monstro, o chão não descobrisse Inda mal apagado, e não se visse Um vestígio de humana sepultura. Manda cavar Pegado a terra dura,

E dentro (oh! pasmo!) os ossos encontrava De um cadáver, a quem assinalava A cruz que tem de Cristo e lhe servira De hábito, ou mortalha; então se admira

Mais cada um; e aviso ao Herói dando, Todos ao mesmo passo vão cercando Em roda a sepultura: Borba chega, Afirma que é Rodrigo e logo alega

Como dos índios seus à pressa fora Sepultado, fugindo os mais; e agora Reconhece o sinal na Cruz bendita, O autêntico padrão mais acredita

Vizinho um tronco, à mão cortado, aonde De ordem do mesmo Borba corresponde Outra Cruz à memória deste ofício. Celebrou-se o devoto sacríficio

Junto ao sepulcro; e as últimas piedades, Pela mão de Faria, as saudades Temperaram do Morto, consoladas As memórias de sangue inda banhadas.

Urnas fastosas, que cobris no Egito Heróis famosos, sobre vós escrito Viva embora o epitáfio, que em memória Dos Ptolomeus inda respira a glória!

Sobra ao bom General, sobra a Rodrigo Da nua areia o mísero jazigo; A vida pelo Rei sacrificada Basta a deixar a sepultura honrada!

Magoado deste objeto se cansava O Herói, e já partir dali pensava, Mas o deteve e lhe cortou o passo, Convalescido da ferida, Argasso

(Este era o nome do índio); em companhia Vinha da sentinela, a quem pedia Que à presença do Herói o conduzisse; Como acaso a seu lado então não visse

A Garcia, falou mais animado: De traidor e aleivoso sou culpado, Magnânimo Albuquerque; ouve-me, atende, Saberás que o meu braço não te ofende,

Nem se conspira contra os teus; a dura Condição de uma bárbara, que jura Não ser minha, apesar dos meus desvelos, Meu coração encheu tanto de zelos,

Que imaginei na morte de Garcia Vingar o meu desprezo, e a tirania Castigar do meu bem: fui desgraçado, Inda não me arrependo do passado.

Albuquerque lhe diz que exponha a história De seu furioso amor e que em memória Traga todo o sucesso; ele, mordendo Raivoso os beiços e mil ais vertendo,

Não posso, diz, não posso em tudo ou parte Dizer-te o que padeço; o esforço, a arte Vos sobra a vós; em mim obra a rudeza, Que mais desculpa a natural fraqueza.

Amo a bela Indiana, a linda Aurora, Que não daqui muito distante mora: Prisioneira em meu braço a vim trazendo Lá desde o Paraíba, e discorrendo

Que entre os meus Monaxós se renderia, Só o nome lhe lembra de Garcia. Neágua, a Mãe, desde o Pori roubada, Conheceu-me e me informa da chegada

Deste bom Cavalheiro; não sabia Que o meu curioso ardor se dirigia A mais árduo projeto; tento a morte, E em despojo cuidei do braço forte

Por triunfo levar à minha amada A cabeça do tronco separada. Assim fala arrogante; o Herói piedoso Quer dar provas do peito generoso:

Chama a Garcia; informa-se do resto, E por voz de Neágua é manifesto O vário giro da amorosa história. Argasso (diz), da portuguesa glória

Tu não sabes o timbre; a Indiana bela Não disputa Garcia, e a tua estrela Não queiras contrastar por modo estranho; Ele ta cede, eu próprio te acompanho,

E contigo pertendo ver a Aldeia, Onde ela vive e o teu amor te enleia. Que vós partais, Senhor, eu não consinto, Disse Garcia; ao meu valor distinto,

Ao meu zelo católico era injúria Saber-se que a conter a minha fúria Necessária se fez vossa presença; A Argasso desde já perdôo a ofensa,

E quero que conheça aos Portugueses; Com ele partirei, e as suas vezes Sustentando ao favor da bela Indiana, Farei que ele ditoso, e mais humana

Ela, se abrasem no gostoso alento De um santo, de um perpétuo sacramento. Fia de mim (ao índio se tornava), Que a mesma que já viste minha escrava,

Há de ver-me a seus pés por ti rogando; Nem de ti outro prêmio então demando Mais que em uso melhor convertas logo Esse tão louco, como ilustre fogo,

Que alimentas no peito; serás nosso Amigo e não escravo, e quanto eu posso, Nobre rival, te digo desde esta hora, Neágua é tua, é tua a minha Aurora.

Ó tu, Ciro famoso, se pudeste Eternizar teu nome, quando deste A formosa Pantéia ao nobre Araspe; Se na dádiva bela de Campaspe

Ao namorado Apeles, glória tanta Te adquire, ó Macedônio, a voz que canta Teu nome inda por toda a redondeza, Vê quanto mais se avança esta grandeza,

Com que de uma paixão a rebeldia Doma, e castiga o esplêndido Garcia. Convém o Herói e espera que domado O Monaxós, e à Religião chamado

Se veja por tal modo; do projeto Se faz parcial Faria; turvo o aspecto O Índio tem a tanta ação, nem sabe Como no coração de um homem cabe

Subjugar tão valente a paixão dura, Que inspira amor. Neágua se procura Unir à companhia; as outras ficam Entregues ao favor dos que se aplicam

A povoar entanto aquela margem. Despedem-se; e Albuquerque, pela vargem Que ali se estende, a marcha ao centro guia; De Borba tendo pronta a companhia,

E dos mais, parte em tropas do Gentio, E das Velhas o nome impõe ao Rio.

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