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1729–1789

CANTO III

Cláudio Manuel da Costa

As paixões acalmara de Garcia A chegada do Borba, e suspendia Ela mesma a partida de Albuquerque. Sem que temor algum lhe oprima, ou cerque

O nobre coração, na tenda entrava, E cortejando o Herói, assim falava: Terás ouvido, ó General famoso, Variamente o meu caso; e duvidoso

Talvez estás da fé, que guardo atento Ao meu Rei em sinal do juramento. Acusado por cúmplice na morte Do grande Dom Rodrigo, a minha sorte,

Mais que o delito meu, desculpar venho; Sem adorno o sucesso agora tenho De dizer-te; e verás, hoje informado, Que sou mais infeliz do que culpado.

Pouco mais de três léguas em distância Deste sítio me via, quando a instâncias Do novo General, que aqui chegava, A voz de um mensageiro me ordenava

Entregasse os socorros prevenidos Da pólvora e do chumbo e os cometidos À minha guarda prontos instrumentos Do ferro e do aço: oponho a seus intentos

A razão que me assiste; e enfim me escuso, Dizendo que das ordens não abuso Do meu fiel Parente, a quem espero A cada instante, e perto considero

De entrar comigo a registar as faldas Das montanhas e minas de esmeraldas. Mal satisfeito da resposta volta O importuno ministro, e já se solta

Contra mim declarada toda a fúria Dos vis aduladores: por injúria Reputam toda aquela resistência, E protestam que aos braços da violência

Há de ceder a repugnância minha. Um e outro se oferece, mas detinha Ao prudente Fidalgo o árduo projeto Da brandura e da paz; o nobre objeto

Do serviço do Rei a mim o guia; Em pessoa aparece, e me seria Muito fácil ceder, se não houvesse Mais forte obrigação, que me prendesse.

Uma e mil vezes represento o empenho, Que a duvidar me induz e me detenho Irresoluto um pouco (nem atino Se obrava nisto a força do destino!);

Constante era a razão, pois esperando As Reais Ordens para a empresa, quando Fernão Dias voltasse, não teria Os provimentos que deixado havia.

Enfim ele de cólera se acende, Nem às minhas desculpas mais atende; Enfurece-se, grita e ameaça: E eu (ó duro extremo da desgraça!),

Rendido a todo o lance, só procuro Mitigar-lhe o rancor; um braço duro, Sacrílego, insolente, infame, ousado, Sem que eu presuma o bárbaro atentado,

Se arroja dentre os meus; dispara um tiro, E a alma envolta no mortal suspiro Voou, deixando a mágoa em que me vejo, Para salvar a vida, a honra e o pejo.

A notícia do caso acende a ira Em todos os que o seguem; já conspira Em meu dano o parente e mais o amigo; Querem vingar a morte de Rodrigo;

Em vão lhes serve de reparo ou freio, A inocência em que estou; medito um meio De salvar-me; em esquadras divididas Reparto a gente, sobre as mais crescidas

Montanhas, de onde fossem descobertas. As estradas ao longe em parte abertas Davam já vista aos ímpios conjurados, Quando os tambores e os clarins tocados

Em vários sítios amotinam tudo: Cresce o temor ao meditado estudo, E crêem que era chegado Fernão Dias. Amparado do engano, as Serras frias

Destes Sertões dobrei; passo a corrente De um grande Rio, e a margem florescente Piso, apenas de alguns acompanhado; Aqui descubro um plano dilatado,

Cômodo à criação; nele apascento Por muito tempo o gado, e em novo aumento Às descobertas Minas já preparo Na fome e na penúria o bom reparo.

Estes são os serviços com que chego, Estes os testemunhos são que alego Da inocência em que vivo; os meus parentes, Amigos e obrigados, que presentes

Em grande parte estão, por mim te falem, E quando todos por lisonja calem, Do teu antecessor terás ouvido Quanto servem de informe; e este luzido

Bastão, dádiva sua (então levanta A insígnia militar), é prova tanta, Que sobra a escurecer qualquer suspeita Que ao mesmo Rei pudesse ser aceita.

Dizia; e sempre grave e sempre airoso, Deixava ver no rosto generoso O espírito magnânimo que o alenta. O Herói, que sem mudança se contenta

De ouvir todo o sucesso por inteiro, Suave acolhe ao nobre Aventureiro, E dando-lhe mil mostras de amizade, De ordem do mesmo Rei o persuade

A que viva seguro do delito; Informa-se do sítio e do distrito Em que está, e o convida para a empresa, E por ele pertende haver certeza

Da serra que demanda, onde fundada Veja uma vez a povoação sonhada. Consultando as precisas providências Se detém alguns dias, e as urgências

Do estéril sítio apenas socorridas Eram de algumas caças, que trazidas Vinham dos índios menos assustados Co’a chegada dos mais, que estão listados

À comandância do Hóspede: entre vários Da nação Monaxós, que voluntários Ao Herói visitavam, se encontrava Um mancebo gentil, a quem cercava

Branco penacho a testa; os braços cinge De amarela plumagem; bravo o finge A tinta do urucu: a cor, nem preta, Nem branca por extremo, mas que afeta

Do gelado Samiúte o estranho gesto; Pouco ao braço e ao ombro lhe é molesto O arco e a aljava; o rosto, a fala e tudo Verte um ar de respeito, ar sem estudo.

Em vão das flechas a purpúrea arara Fugir-lhe espera; em vão na garra avara Mosqueado tigre lhe ameaça a morte: Empunha o dardo, e valeroso e forte

O faz despojo do robusto braço, A fere, e corta no vazio espaço. De impulso por então não conhecido, O índio, a quem Amor tinha ferido,

Se deixava arrastar, e praticando Tudo quanto a paixão lhe está ditando, Do valor de seu braço ele confia Roubar traidor a vida de Garcia.

Protegido da noute, às horas quando Jaziam todos, n’ũa mão tomando Uma faca e em outra o dardo agudo, Por tudo olhando e precavendo tudo,

A tenda busca do saudoso amante; A luz lhe rege o passo e ao mesmo instante Na cama o tenta e lhe prepara a morte. Houve uma vez de ser propícia a sorte,

Que não dorme Garcia e sente o ruído; Ergue-se; toma a espada e acometido Se vê apenas, quando reparada A ferida do dardo, mete a espada

Por um lado ao traidor, em sangue envolta A tira e a mão suspende; a um tempo solta, A corrente de sangue inunda a terra; O índio semivivo os dentes ferra,

Acena de morrer, e grita, e brada Em roucas vozes, com que amotinada Tem toda a gente, que ao sucesso acode. Debalde a conjectura alcançar pode

O mesmo, que está vendo; estranho e oculto É o motivo do aleivoso insulto. Faminto lobo no redil fechado Assim receoso entrou; mas acossado

Do molosso feroz, foi de repente Cair despojo ao sanguinoso dente. Conhecendo Albuquerque, que respira Inda vivo, a um dos pousos o retira,

E lhe põe sentinelas; manda entanto Se lhe apliquem remédios: o óleo Santo, Que ministra de Bueno a mão experta, Estanca o sangue, e da ferida aberta

Cerrando a boca, inda a esperança anima De que a morte de todo o não oprima.

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