Skip to content
1729–1789

CANTO II

Cláudio Manuel da Costa

Caía a noite, e apenas cintilava No Céu alguma estrela; ao chão baixava Escassamente a luz, que Cíntia fria Mal distinta espalhava entre a sombria

Rama da espessa mata e duros troncos. Não se ouvem mais que os formidáveis roncos De aves noturnas, e famintas feras. Só tu, Garcia amante, consideras

Oportuna a teus ais a estação triste; Amor, que ardendo no teu peito assiste, Vai buscar o remédio a seu cuidado; Ele te guia e leva disfarçado

À choça que às três índias deu abrigo. Oh! quanto louvas o silêncio amigo, Quanto o sono dos mais! Chega, repara Na velha aflita, que a choupana avara

Apenas cobre com a palha agreste; A leve cana, que as montanhas veste, Já seca ao sol se acende, e a luz ministra Com que uma a uma as índias três registra.

Na língua nacional, que não ignora, Saúda, e neste instante a Mãe de Aurora Conhece; Aurora, a bela prisioneira Que houve da mão de Arzão, que co’a primeira

Medalha de ouro ele prendara; cresce De novo a admiração, e se oferece A Índia a dar-lhe relação da filha. Se o ver-me neste estado é maravilha,

Ó Garcia, lhe diz, humilde e nua, Eu sou Neágua, eu sou a escrava tua. Muitas luas, me lembro, têm passado, Desde quando dos vossos atacado

Foi meu esposo Caribó: seguidos Vínheis de muitos arcos, socorridos Do Coroa, do Paraci valente: Assaltastes de noite a nossa gente,

E mortos os mais destros na peleja, Fosse rigor do Céu, ou fosse inveja Da Fortuna, eu, que a Aldeia governava, Passei com minha filha a ser escrava.

Era ela em seus anos tão mimosa, Que à vista sua desmaiava a rosa, Seus olhos claros, as pupilas belas, Oh! quantas vezes cri que eram estrelas!

Não tinham nossos campos, nem o prado Planta mais tenra, flor de mais agrado; Enfim, porque de vós as cores tome, De Aurora os vossos lhe dão hoje o nome.

Vagando estes sertões na companhia Dos vossos, eu me lembro como um dia, A preço do metal, que desprezamos, Vós nos comprastes; ainda nos lembramos

Do mimo do agasalho que fizestes, Quando na vossa casa recolhestes A mim e a minha Aurora: esta memória Desperte toda em vós a antiga história,

Como? Por que arte? Por que modo fora Trazida dentre os seus? A sua Aurora, Se a seguira também? Se vive? E aonde? Garcia lhe pergunta; ela responde:

Vive, senhor, eu creio que inda vive A minha e vossa Aurora: dela tive Notícia há pouco tempo; um desses bravos, Que o nosso bom Pori tem feito escravos,

Me contou como lá na sua Aldeia, Que não longe é de nós, ela passeia, Do Cacique estimada; ele contente A busca esposa, e ela o não consente.

Mas por que quereis vós da minha boca Ouvir todo o sucesso? Só me toca Referir uma parte, que outra ignoro. Lá na domada Aldeia, onde sonoro

Se vê correr o Paraíba, postas Fomos por vosso mando: ali dispostas A viver de outras leis, outros costumes Detestávamos já dos nossos Numes

(Se alguns Deuses talvez nós conhecemos Na bruta liberdade em que vivemos), O culto, a religião; já divertidas No curvo anzol, nas redes bem tecidas

Armávamos ao peixe; sobre o rio Nos viu um dia o bárbaro Gentio, Que em pequenas canoas rouba e mata; Fugíramos talvez, mas o pirata

Nos surprende e conduz: vimos cativas A viver entre os seus, e apenas vivas De povo em povo nos transportam; fico Co’a nação do Pori, e passa o rico

Tesouro de uma filha, que inda choro, Ao crespo Monaxós; qual fosse, ignoro, O triste resto do fatal destino. Dos braços ma arrancaram: de ouro fino,

Ao despedir-se terna a Filha amada, Com esta jóia então me quer prendada. Se pois de Aurora o caso vos incita À compaixão, se em vosso peito habita

O antigo amor, fazei que a liberdade Se dê a quem desperta esta saudade; Esse vizinho povo ao fogo, ao ferro Abatei, destruí: pague o seu erro;

E alegre eu veja em vossa companhia A vossa Aurora, que ao meu lado via. Absorto está Garcia; do que escuta, Apenas deixa ver a face enxuta;

De Aurora o caso o tem sobressaltado, Quer para logo dar a seu cuidado O desafogo da cruel vingança; Mas bem que o lisonjeie inda a esperança

De ver a bela Indiana, a incerta sorte Lha pinta, antes que viva, entregue à morte. Baixel, que sobre o Egeu de mil procelas Combatido se viu, rotas as velas,

Não soçobra talvez mais duvidoso Ao grave Noto, ao Euro tormentoso. Farei... clamava; e eis que interrompido Foi de um aviso, com que o Herói erguido

Chama a Conselho os companheiros todos. Se combatidos por diversos modos, Diz Albuquerque, de trabalhos tantos, Entre estas penhas só despertam prantos

As memórias da morte de Rodrigo, Deixemos este assento; o sonho antigo Tenho de descobrir-vos, com que a idéia Igualmente me aflige e me recreia.

Lembrados estareis que há mais de um ano Vos fiz saber que o nosso Soberano, Que dos quatro Joões o nome e glória Herdou para triunfo da memória,

Vendo ao Norte da terra povoada, Que atrás deixamos na primeira entrada, Que fazem vossos Pais, achar-se o ouro À custa me ordenou do seu Tesouro,

Que entrasse ao centro dos Sertões, buscasse As novas minas, e que examinasse As margens, onde em vão tomaram porto Fernando, Artur e Dom Rodrigo, o morto.

Cheio deste projeto eu vejo um dia Que um rochedo fatal, a quem a fria Neve branqueja a descalvada testa, Com medonha carranca me protesta

Não passe a descobrir o seu segredo; Avizinho-me a ele e rompo o medo: Quem és, pergunto, que ignorado encanto Se esconde em ti? Ele me torna entanto:

“Eu sou dos filhos que abortara a Terra, E fiz com meus Irmãos aos Deuses guerra (Tu, negro Adamastor, hoje em memória Me obrigas a trazer a tua história).

Meu caso um dia o Fado te destina Que escutes inda pela voz de Eulina, No centro vivo dos Sertões, que apenas Tocam das aves as ligeiras penas;

De feios monstros grande cópia habita Meu triste seio; ali se deposita Tudo quanto de grande, novo e raro O Cetro Lusitano fará claro.

Ali... mas tudo aos olhos patenteio.” Disse, e deixando ver o escuro seio, De uma pequena lágrima, que a penha Derrama das entranhas, se despenha

Gota a gota um ribeiro; logo a raia De ambas margens excede e já se espraia, Separado do berço na campina. Um murmúrio sonoro só de Eulina

Repete o nome; a maravilha estranha Inda mais se adianta; ao longe apanha Uma Ninfa na areia as porções de ouro, Com que esmalta o cabelo e o torna louro.

A margem deste rio povoada Vejo da portuguesa gente amada, Toda entregue à solícita porfia, Com que o rico metal da terra fria

Vai buscar a ambição: vejo de um lado Erguer-se uma Cidade, e situado Junto ao monte, que um vale aos pés estende, Vejo um Povo também: tudo surprende,

Tudo encanta a minha alma, estou detido No fantástico objeto. Eis que um gemido Arranca desde o seio o monstro escuro, E diz: “Entre as imagens do futuro

Talvez te espera... mas...” e nisto em nada Se torna toda a máquina ideada; Desfez-se a Penha, a Ninfa e o Ribeiro, Solto dos olhos o sopor grosseiro.

Não de outra sorte no último horizonte Ao sepultar-se o Sol, lá desde um monte Podem ver-se as imagens diferentes Às refrações da luz: estão presentes

Bosques, cidades, ruas e castelos, Que os raios em distintos paralelos Talvez figuram; despertando a Aurora, Desaparece a sombra enganadora.

O sonho muitas vezes repetido, Desde que tenho a idéia concebido De entrar para estas Minas, me figura Um mistério na sombra e na pintura.

Vós, que por tantas vezes discorrido Tendes estes Sertões, tereis ouvido, O nome de Itamonte; esta lembrança, Este sinal só tenho de esperança;

Talvez tomando o cume desta Serra, Acharemos um dia o Rio, a Terra, A Ninfa e os mais portentos, donde tome, Dos tesouros que espero, a Vila, o nome.

Calou-se o General, e qual murmura Uma abelha, e mais outra, quando a pura Substância chupam das mimosas flores, Assim, não de outra sorte, entre os rumores

Do inquieto coração, estão falando Entre si cada um, e estão pensando; Rompe o silêncio o próvido Faria: Eu dos primeiros fui, eu fui, dizia,

Dos primeiros que o berço abandonado Deixei, mais do fervor estimulado De reduzir os Índios à justiça Da nossa religião, que da cobiça.

Entrei estes países e inda noto Em cada tronco os pousos onde, roto O vestido, tentei passando avante O giro dos Sertões; de bem distante

Parte dos grossos matos descobria Uma elevada e tosca penedia, A quem coroa um pico a altiva frente. Demandei esta rocha, e do eminente

De toda ela um ribeiro vi que nasce, Que do Sol recolhendo dentro a face Pareceu converter-se todo em ouro. Não vou buscar no meu invento o agouro,

Nem creio que este o Itamonte seja, Mas sei que a língua pátria, se deseja Explicar sempre em tudo a natureza, De Itá nome lhe deu, e na rudeza

Do Gentio talvez, que hoje alterado, O nome Curumim lhe seja dado. Itá é nome pátrio (diz Garcia, Que apenas sua dor n’alma alivia),

Este o Gentio a toda a pedra estende; O esperado Itamonte em vão se entende Na confusão das Serras e dos montes, Que assombram todos estes horizontes.

Eu também discorrera de outra Serra O mesmo que Faria, aonde a guerra De feroz Botecudo inda me assusta, Mas pouco à conjectura se me ajusta

Toda a confrontação (disse Camargo). É deste continente o Sertão largo (Dizia Bueno), o Lago, a Serra, o Rio, Espalhado por tudo o infiel Gentio,

Não deixam à notícia cousa certa, Onde possa entender-se descoberta A terra que buscamos. Nela intento (Albuquerque tornava) o fundamento

Erguer da Capital; de penha empenha Andarei, se a Fortuna o não desdenha, Té descobrir o Monte e o Rio, aonde Tão grande maravilha o Céu me esconde.

Prosseguira o Herói, mas o embaraça Descobrir desde longe a vista escassa Brioso Cavaleiro, que seguido Vem de um forte esquadrão do índio vencido;

Soa alegre o clarim, que a marcha guia, A salva amiudada ao ar se envia; E enquanto de Garcia o Herói se informa Do novo Aventureiro, posta em forma

Cada uma das nações, que traz consigo, Um e outro se encontra ao doce amigo, Prontos os servos a estribeira pegam, E ele se apeia e abraça aos que se chegam.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
CANTO II · Cláudio Manuel da Costa · Poetry Cove