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1729–1789

CANTATA VI

Cláudio Manuel da Costa

Oh! quanto, Lise! oh! quanto! Quanto alentam teus olhos Ao mísero Palemo! Já três dias O mar anda girando. Em tua ausência,

Saudoso, tem movido as bravas ondas. Aos peixes tem chegado O clamor de seus ais. Ah! Se tu viras, Qual foi o seu lamento,

Não foras mais cruel que o mar, que o vento. Eu o vi ( não te engano) Sem acordo entregar o frágil barco Ao arbítrio das ondas. Poucos passos

De uma rocha fatal já se apartava, A morrer se apressava, Quando eu, que no seu rumo ia seguindo, Palemo? (lhe gritei) olha, Palemo:

Desvia dessa penha a vela, o remo. Mas fosse providência, acaso fosse, A outra parte a onda O seu barco voltou. Já perguntado

Me torna o Pastor caro: Eu entendia Que a penha, em que Nicandro me falava, Era Lise somente, que eu buscava Lise, a rocha desumana,

Lise, o bem, que tanto adora; Por quem vivo, por quem choro, Por quem ando a suspirar. Ah! Se corro a morrer nela,

Venha a bárbara ferida, Que esta morte só é vida, Porque é Lise quem a dá. Mas não é isto engano! O infausto agouro

De todo se apartou. Tornou-se em calma O mar tempestuoso; o vento irado Já suave respira; esta ribeira De alegria se veste; um doce encanto

Nos álamos, nos freixos, Que estão fazendo sombra as verdes ondas, Comunica a harmonia Dos pássaros que cantam. Que gostosa

Meneia as brandas folhas A aura lisonjeira! Dentre as ramas, Ah! como fere o raio sobre as águas, Tornando prateadas

As cristalinas veias! Finge a sombra Outro bosque nas ondas, e parece Que outras aves no mar em competência Formando estão suavíssima cadência.

E que alegre entretanto Esta praia se vê! Que grande cópia De redes se derrama! Em cada parte Se senta um Pescador; bailes, e jogos

Se atendem na ribeira; ao doce aviso Das vizinhas Aldeias Vem o povo chegando. É grande o dia; Grande anúncio é de gosto. Mas que muito,

Se neste feliz dia De Lise, e de Palemo Se premeia a virtude! Um terno laço Ao Pescador amante

A Ninfa delicada Neste dia assegura. Ah! queira o Fado, Propício queira o Céu A chama fecundar deste himeneu.

Forme das almas belas Amor o seu tesouro; E com as setas douro Se veja triunfar.

De pérolas tributo Lhe renda a fértil onda; O mar lhe não esconda A rama do coral.

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CANTATA VI · Cláudio Manuel da Costa · Poetry Cove