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1740–1795

CANTO TERCEIRO

Basílio da Gama

Já a nossa do mundo Última Parte Tinha voltado a ensanguentada fronte Ao centro luminar quando a campanha Semeada de mortos e insepultos

Viu desfazer-se a um tempo a vila errante Ao som das caixas. Descontente e triste Marchava o General: não sofre o peito Compadecido e generoso a vista

Daqueles frios e sangrados corpos, Vítimas da ambição de injusto império. Foram ganhando e descobrindo terra Inimiga e infiel; até que um dia

Fizeram alto e se acamparam onde Incultas várgeas, por espaço imenso, Enfadonhas e estéreis acompanham Ambas as margens de um profundo rio.

Todas estas vastíssimas campinas Cobrem palustres e tecidas canas E leves juncos do calor tostados, Pronta matéria de voraz incêndio.

O índio habitador de quando em quando Com estranha cultura entrega ao fogo; Muitas léguas de campo: o incêndio dura, Enquanto dura e o favorece o vento.

Da erva, que renasce, se apascenta O imenso gado, que dos montes desce; E renovando incêndios desta sorte A Arte emenda a Natureza, e podem

Ter sempre nédio o gado, e o campo verde. Mas agora sabendo por espias As nossas marchas, conservavam sempre Secas as torradíssimas campinas;

Nem consentiam, por fazer-nos guerra, Que a chama benfeitora e a cinza fria Fertilizasse o árido terreno. O cavalo até li forte e brioso,

E costumado a não ter mais sustento, Naqueles climas, do que a verde relva Da mimosa campina, desfalece. Nem mais, se o seu senhor o afaga, encurva

Os pés, e cava o chão co’as mãos, e o vale Rinchando atroa, e açouta o ar co’as clinas. Era alta noite, e carrancudo e triste Negava o céu envolto em pobre manto

A luz ao mundo, e murmurar se ouvia Ao longe o rio, e menear-se o vento. Respirava descanso a natureza. Só na outra margem não podia entanto

O inquieto Cacambo achar sossego. No perturbado interrompido sono (Talvez fosse ilusão) se lhe apresenta A triste imagem de Sepé despido,

Pintado o rosto do temor da morte, Banhado em negro sangue, que corria Do peito aberto, e nos pisados braços Inda os sinais da mísera caída.

Sem adorno a cabeça, e aos pés calcada A rota aljava e as descompostas penas. Quanto diverso do Sepé valente, Que no meio dos nossos espalhava,

De pó, de sangue e de suor coberto, O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes: Foge, foge, Cacambo. E tu descansas, Tendo tão perto os inimigos? Torna,

Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas Tua fraqueza e desventura encobre. Ou, se acaso inda vivem no teu peito Os desejos de glória, ao duro passo

Resiste valeroso; ah tu, que podes! E tu, que podes, põe a mão nos peitos À fortuna de Europa: agora é tempo, Que descuidados da outra parte dormem.

Envolve em fogo e fumo o campo, e paguem O teu sangue e o meu sangue. Assim dizendo Se perdeu entre as nuvens, sacudindo Sobre as tendas, no ar, fumante tocha;

E assinala com chamas o caminho. Acorda o índio valeroso, e salta Longe da curva rede, e sem demora O arco e as setas arrebata, e fere

O chão com o pé: quer sobre o largo rio Ir peito a peito a contrastar co’a morte. Tem diante dos olhos a figura Do caro amigo, e inda lhe escuta as vozes.

Pendura a um verde tronco as várias penas, E o arco, e as setas, e a sonora aljava; E onde mais manso e mais quieto o rio Se estende e espraia sobre a ruiva areia

Pensativo e turbado entra; e com água Já por cima do peito as mãos e os olhos Levanta ao céu, que ele não via, e às ondas O corpo entrega. Já sabia entanto

A nova empresa na limosa gruta O pátrio rio; e dando um jeito à urna Fez que as águas corressem mais serenas; E o índio afortunado a praia oposta

Tocou sem ser sentido. Aqui se aparta Da margem guarnecida e mansamente Pelo silêncio vai da noite escura Buscando a parte donde vinha o vento.

Lá, como é uso do país, roçando Dous lenhos entre si, desperta a chama, Que já se ateia nas ligeiras palhas, E velozmente se propaga. Ao vento

Deixa Cacambo o resto e foge a tempo Da perigosa luz; porém na margem Do rio, quando a chama abrasadora Começa a alumiar a noite escura,

Já sentido dos guardas não se assusta E temerária e venturosamente, Fiando a vida aos animosos braços, De um alto precipício às negras ondas

Outra vez se lançou e foi de um salto Ao fundo rio a visitar a areia. Debalde gritam, e debalde às margens Corre a gente apressada. Ele entretanto

Sacode as pernas e os nervosos braços: Rompe as escumas assoprando, e a um tempo Suspendido nas mãos, voltando o rosto, Via nas águas trêmulas a imagem

Do arrebatado incêndio, e se alegrava... Não de outra sorte o cauteloso Ulisses, Vaidoso da ruína, que causara, Viu abrasar de Tróia os altos muros,

E a perjura cidade envolta em fumo Encostar-se no chão e pouco a pouco Desmaiar sobre as cinzas. Cresce entanto O incêndio furioso, e o irado vento

Arrebata às mãos cheias vivas chamas, Que aqui e ali pela campina espalha. Comunica-se a um tempo ao largo campo A chama abrasadora e em breve espaço

Cerca as barracas da confusa gente. Armado o General, como se achava, Saiu do pavilhão e pronto atalha, Que não prossiga o voador incêndio.

Poucas tendas entrega ao fogo e manda, Sem mais demora, abrir largo caminho Que os separe das chamas. Uns já cortam As combustíveis palhas, outros trazem

Nos prontos vasos as vizinhas ondas. Mas não espera o bárbaro atrevido. A todos se adianta; e desejoso De levar a notícia ao grande Balda

Naquela mesma noite o passo estende. Tanto se apressa que na quarta aurora Por veredas ocultas viu de longe A doce pátria, e os conhecidos montes,

E o templo, que tocava o céu co’as grimpas. Mas não sabia que a fortuna entanto Lhe preparava a última ruína. Quanto seria mais ditoso! Quanto

Melhor lhe fora o acabar a vida Na frente do inimigo, em campo aberto, Ou sobre os restos de abrasadas tendas, Obra do seu valor! Tinha Cacambo

Real esposa, a senhoril Lindóia, De costumes suavíssimos e honestos, Em verdes anos: com ditosos laços Amor os tinha unido; mas apenas

Os tinha unido, quando ao som primeiro Das trombetas lho arrebatou dos braços A glória enganadora. Ou foi que Balda, Engenhoso e sutil, quis desfazer-se

Da presença importuna e perigosa Do índio generoso; e desde aquela Saudosa manhã, que a despedida Presenciou dos dous amantes, nunca

Consentiu que outra vez tornasse aos braços Da formosa Lindóia e descobria Sempre novos pretextos da demora. Tornar não esperado e vitorioso

Foi todo o seu delito. Não consente O cauteloso Balda que Lindóia Chegue a falar ao seu esposo; e manda Que uma escura prisão o esconda e aparte

Da luz do sol. Nem os reais parentes, Nem dos amigos a piedade, e o pranto Da enternecida esposa abranda o peito Do obstinado juiz: até que à força

De desgostos, de mágoa e de saudade, Por meio de um licor desconhecido, Que lhe deu compassivo o santo padre, Jaz o ilustre Cacambo — entre os gentios

Único que na paz e em dura guerra De virtude e valor deu claro exemplo. Chorado ocultamente e sem as honras De régio funeral, desconhecida

Pouca terra os honrados ossos cobre. Se é que os seus ossos cobre alguma terra. Cruéis ministros, encobri ao menos A funesta notícia. Ai que já sabe

A assustada amantíssima Lindóia O sucesso infeliz. Quem a socorre! Que aborrecida de viver procura Todos os meios de encontrar a morte.

Nem quer que o esposo longamente a espere No reino escuro, aonde se não ama. Mas a enrugada Tanajura, que era Prudente e exprimentada (e que a seus peitos

Tinha criado em mais ditosa idade A mãe da mãe da mísera Lindóia), E lia pela história do futuro, Visionária, supersticiosa,

Que de abertos sepulcros recolhia Nuas caveiras e esburgados ossos, A uma medonha gruta, onde ardem sempre Verdes candeias, conduziu chorando

Lindóia, a quem amava como filha; E em ferrugento vaso licor puro De viva fonte recolheu. Três vezes Girou em roda, e murmurou três vezes

Co’a carcomida boca ímpias palavras, E as águas assoprou: depois com o dedo Lhe impõe silêncio e faz que as águas note. Como no mar azul, quando recolhe

A lisonjeira viração as asas, Adormecem as ondas e retratam Ao natural as debruçadas penhas, O copado arvoredo e as nuvens altas:

Não de outra sorte à tímida Lindóia Aquelas águas fielmente pintam O rio, a praia o vale e os montes onde Tinha sido Lisboa; e viu Lisboa

Entre despedaçados edifícios, Com o solto cabelo descomposto, Tropeçando em ruínas encostar-se. Desamparada dos habitadores

A Rainha do Tejo, e solitária, No meio de sepulcros procurava Com seus olhos socorro; e com seus olhos Só descobria de um e de outro lado

Pendentes muros e inclinadas torres. Vê mais o Luso Atlante, que forceja Por sustentar o peso desmedido Nos roxos ombros. Mas do céu sereno

Em branca nuvem Próvida Donzela Rapidamente desce e lhe apresenta, De sua mão, Espírito Constante, Gênio de Alcides, que de negros monstros

Despeja o mundo e enxuga o pranto à pátria. Tem por despojos cabeludas peles De ensanguentados e famintos lobos E fingidas raposas. Manda, e logo

O incêndio lhe obedece; e de repente Por onde quer que ele encaminha os passos Dão lugar as ruínas. Viu Lindóia Do meio delas, só a um seu aceno,

Sair da terra feitos e acabados Vistosos edifícios. Já mais bela Nasce Lisboa de entre as cinzas — glória Do grande conde, que co’a mão robusta

Lhe firmou na alta testa os vacilantes Mal seguros castelos. Mais ao longe Prontas no Tejo, e ao curvo ferro atadas Aos olhos dão de si terrível mostra,

Ameaçando o mar, as poderosas Soberbas naus. Por entre as cordas negras Alvejam as bandeiras: geme atado Na popa o vento; e alegres e vistosas

Descem das nuvens a beijar os mares As flâmulas guerreiras. No horizonte Já sobre o mar azul aparecia A pintada Serpente, obra e trabalho

Do Novo Mundo, que de longe vinha Buscar as nadadoras companheiras E já de longe a fresca Sintra e os montes, Que inda não conhecia, saudava.

Impacientes da fatal demora Os lenhos mercenários junto à terra Recebem no seu seio e a outros climas, Longe dos doces ares de Lisboa,

Transportam a Ignorância e a magra Inveja, E envolta em negros e compridos panos A Discórdia, o Furor. A torpe e velha Hipocrisia vagarosamente

Atrás deles caminha; e inda duvida Que houvesse mão que se atrevesse a tanto. O povo a mostra com o dedo; e ela, Com os olhos no chão, da luz do dia

Foge, e cobrir o rosto inda procura Com os pedaços do rasgado manto. Vai, filha da ambição, onde te levam O vento e os mares: possam teus alunos

Andar errando sobre as águas; possa Negar-lhe a bela Europa abrigo e porto. Alegre deixarei a luz do dia, Se chegarem a ver meus olhos que Adria

Da alta injúria se lembra e do seu seio Te lança — e que te lançam do seu seio Galia, Iberia e o país belo que parte O Apenino, e cinge o mar e os Alpes.

Pareceu a Lindóia que a partida Destes monstros deixava mais serenos E mais puros os ares. Já se mostra Mais distinta a seus olhos a cidade.

Mas viu, ai vista lastimosa! a um lado Ir a fidelidade portuguesa, Manchados os puríssimos vestidos De roxas nódoas. Mais ao longe estava

Com os olhos vendados, e escondido Nas roupas um punhal banhado em sangue, O Fanatismo, pela mão guiando Um curvo e branco velho ao fogo e ao laço.

Geme ofendida a Natureza; e geme Ai! Muito tarde, a crédula cidade. Os olhos põe no chão a Igreja irada E desconhece, e desaprova, e vinga

O delito cruel e a mão bastarda. Embebida na mágica pintura Goza as imagens vãs e não se atreve Lindóia a perguntar. Vê destruída

A República infame, e bem vingada A morte de Cacambo. E atenta e imóvel Apascentava os olhos e o desejo, E nem tudo entendia, quando a velha

Bateu co’a mão e fez tremer as águas. Desaparecem as fingidas torres E os verdes campos; nem já deles resta Leve sinal. Debalde os olhos buscam

As naus: já não são naus, nem mar, nem montes, Nem o lugar onde estiveram. Torna Ao pranto a saudosíssima Lindóia E de novo outra vez suspira e geme.

Até que a noite compassiva e atenta, Que as magoadas lástimas lhe ouvira, Ao partir sacudiu das fuscas asas, Envolto em frio orvalho, um leve sono,

Suave esquecimento de seus males.

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