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1740–1795

CANTO SEGUNDO

Basílio da Gama

Depois de haver marchado muitos dias Enfim junto a um ribeiro, que atravessa Sereno e manso um curvo e fresco vale, Acharam, os que o campo descobriram,

Um cavalo anelante, e o peito e as ancas Coberto de suor e branca escuma. Temos perto o inimigo: aos seus dizia O esperto General: Sei que costumam

Trazer os índios um volúvel laço, Com o qual tomam no espaçoso campo Os cavalos que encontram; e rendidos Aqui e ali com o continuado

Galopear, a quem primeiro os segue Deixam os seus, que entanto se restauram. Nem se enganou; porque ao terceiro dia Formados os achou sobre uma larga

Ventajosa colina, que de um lado É coberta de um bosque e do outro lado Corre escarpada e sobranceira a um rio. Notava o General o sítio forte,

Quando Meneses, que vizinho estava, Lhe diz: Nestes desertos encontramos Mais do que se esperava, e me parece Que só por força de armas poderemos

Inteiramente sujeitar os povos. Torna-lhe o General: Tentem-se os meios De brandura e de amor; se isto não basta, Farei a meu pesar o último esforço.

Mandou, dizendo assim, que os índios todos Que tinha prisioneiros no seu campo Fossem vestidos das formosas cores, Que a inculta gente simples tanto adora.

Abraçou-os a todos, como filhos, E deu a todos liberdade. Alegres Vão buscar os parentes e os amigos, E a uns e a outros contam a grandeza

Do excelso coração e peito nobre Do General famoso, invicto Andrade. Já para o nosso campo vêm descendo, Por mandado dos seus, dous dos mais nobres.

Sem arcos, sem aljavas; mas as testas De várias e altas penas coroadas, E cercadas de penas as cinturas, E os pés, e os braços e o pescoço. Entrara

Sem mostras nem sinal de cortesia Sepé no pavilhão. Porém Cacambo Fez, ao seu modo, cortesia estranha, E começou: Ó General famoso,

Tu tens à vista quanta gente bebe Do soberbo Uraguai a esquerda margem. Bem que os nossos avôs fossem despojo Da perfídia de Europa, e daqui mesmo

Co’s não vingados ossos dos parentes Se vejam branquejar ao longe os vales, Eu, desarmado e só, buscar-te venho. Tanto espero de ti. E enquanto as armas

Dão lugar à razão, senhor, vejamos Se se pode salvar a vida e o sangue De tantos desgraçados. Muito tempo Pode ainda tardar-nos o recurso

Com o largo oceano de permeio, Em que os suspiros dos vexados povos Perdem o alento. O dilatar-se a entrega Está nas nossas mãos, até que um dia

Informados os reis nos restituam A doce antiga paz. Se o rei de Espanha Ao teu rei quer dar terras com mão larga Que lhe dê Buenos Aires, e Correntes

E outras, que tem por estes vastos climas; Porém não pode dar-lhe os nossos povos. E inda no caso que pudesse dá-los, Eu não sei se o teu rei sabe o que troca

Porém tenho receio que o não saiba. Eu já vi a Colônia portuguesa Na tenra idade dos primeiros anos, Quando o meu velho pai cos nossos arcos

Às sitiadoras tropas castelhanas Deu socorro, e mediu convosco as armas. E quererão deixar os portugueses A praça, que avassala e que domina

O gigante das águas, e com ela Toda a navegação do largo rio, Que parece que pôs a natureza Para servir-vos de limite e raia?

Será; mas não o creio. E depois disto As campinas que vês e a nossa terra Sem o nosso suor e os nossos braços, De que serve ao teu rei? Aqui não temos

Nem altas minas, nem caudalosos Rios de areias de ouro. Essa riqueza Que cobre os templos dos benditos padres, Fruto da sua indústria e do comércio

Da folha e peles, é riqueza sua. Com o arbítrio dos corpos e das almas O céu lha deu em sorte. A nós somente Nos toca arar e cultivar a terra,

Sem outra paga mais que o repartido Por mãos escassas mísero sustento. Podres choupanas, e algodões tecidos, E o arco, e as setas, e as vistosas penas

São as nossas fantásticas riquezas. Muito suor, e pouco ou nenhum fasto. Volta, senhor, não passes adiante. Que mais queres de nós? Não nos obrigues

A resistir-te em campo aberto. Pode Custar-te muito sangue o dar um passo. Não queiras ver se cortam nossas frechas. Vê que o nome dos reis não nos assusta.

O teu está muito longe; e nós os índios Não temos outro rei mais do que os padres. Acabou de falar; e assim responde O ilustre General: Ó alma grande,

Digna de combater por melhor causa, Vê que te enganam: risca da memória Vãs, funestas imagens, que alimentam Envelhecidos mal fundados ódios.

Por mim te fala o rei: ouve-me, atende, E verás uma vez nua a verdade. Fez-vos livres o céu, mas se o ser livres Era viver errantes e dispersos,

Sem companheiros, sem amigos, sempre Com as armas na mão em dura guerra, Ter por justiça a força, e pelos bosques Viver do acaso, eu julgo que inda fora

Melhor a escravidão que a liberdade. Mas nem a escravidão, nem a miséria Quer o benigno rei que o fruto seja Da sua proteção. Esse absoluto

Império ilimitado, que exercitam Em vós os padres, como vós, vassalos, É império tirânico, que usurpam. Nem são senhores, nem vós sois escravos.

O rei é vosso pai: quer-vos felices. Sois livres, como eu sou; e sereis livres, Não sendo aqui, em outra qualquer parte. Mas deveis entregar-nos estas terras.

Ao bem público cede o bem privado. O sossego de Europa assim o pede. Assim o manda o rei. Vós sois rebeldes, Se não obedeceis; mas os rebeldes,

Eu sei que não sois vós, são os bons padres, Que vos dizem a todos que sois livres, E se servem de vós como de escravos. Armados de orações vos põem no campo

Contra o fero trovão da artilheria, Que os muros arrebata; e se contentam De ver de longe a guerra: sacrificam, Avarentos do seu, o vosso sangue.

Eu quero à vossa vista despojá-los Do tirano domínio destes climas, De que a vossa inocência os fez senhores. Dizem-vos que não tendes rei? Cacique,

E o juramento de fidelidade? Porque está longe, julgas que não pode Castigar-vos a vós, e castigá-los? Generoso inimigo, é tudo engano.

Os reis estão na Europa; mas adverte Que estes braços, que vês, são os seus braços. Dentro de pouco tempo um meu aceno Vai cobrir este monte e essas campinas

De semivivos palpitantes corpos De míseros mortais, que inda não sabem Por que causa o seu sangue vai agora Lavar a terra e recolher-se em lagos.

Não me chames cruel: enquanto é tempo Pensa e resolve, e, pela mão tomando Ao nobre embaixador, o ilustre Andrade Intenta reduzi-lo por brandura.

E o índio, um pouco pensativo, o braço E a mão retira; e, suspirando, disse: Gentes de Europa, nunca vos trouxera O mar e o vento a nós. Ah! não debalde

Estendeu entre nós a natureza Todo esse plano espaço imenso de águas. Prosseguia talvez; mas o interrompe Sepé, que entra no meio, e diz: Cacambo

Fez mais do que devia; e todos sabem Que estas terras, que pisas, o céu livres Deu aos nossos avôs; nós também livres As recebemos dos antepassados.

Livres as hão de herdar os nossos filhos. Desconhecemos, detestamos jugo Que não seja o do céu, por mão dos padres. As frechas partirão nossas contendas

Dentro de pouco tempo: e o vosso Mundo, Se nele um resto houver de humanidade, Julgará entre nós; se defendemos Tu a injustiça, e nós o Deus e a Pátria.

Enfim quereis a guerra, e tereis guerra. Lhe torna o General: Podeis partir-vos, Que tendes livre o passo. Assim dizendo, Manda dar a Cacambo rica espada

De tortas guarnições de prata e ouro, A que inda mais valor dera o trabalho. Um bordado chapéu e larga cinta Verde, e capa de verde e fino pano,

Com bandas amarelas e encarnadas. E mandou que a Sepé se desse um arco De pontas de marfim; e ornada e cheia De novas setas a famosa aljava:

A mesma aljava que deixara um dia, Quando envolto em seu sangue, e vivo apenas, Sem arco e sem cavalo, foi trazido Prisioneiro de guerra ao nosso campo.

Lembrou-se o índio da passada injúria E sobraçando a conhecida aljava Lhe disse: Ó General, eu te agradeço As setas que me dás e te prometo

Mandar-tas bem depressa uma por uma Entre nuvens de pós no ardor da guerra. Tu as conhecerás pelas feridas, Ou porque rompem com mais força os ares.

Despediram-se os índios, e as esquadras Se vão dispondo em ordem de peleja, Como mandava o General. Os lados Cobrem as tropas de cavaleria,

E estão no centro firmes os infantes. Qual fera boca de libréu raivoso, De lisos e alvos dentes guarnecida, Os índios ameaça a nossa frente

De agudas baionetas rodeada. Fez a trombeta o som da guerra. Ouviram Aqueles montes pela vez primeira O som da caixa portuguesa; e viram

Pela primeira vez aqueles ares Desenroladas as reais bandeiras. Saem das grutas pelo chão cavadas, Em que até li de indústria se escondiam.

Nuvens de índios, e a vista duvidava Se o terreno os bárbaros nasciam. Qual já no tempo antigo o errante Cadmo Dizem que vira da fecunda terra

Brotar a cruelíssima seara. Erguem todos um bárbaro alarido, E sobre os nossos cada qual encurva Mil vezes, e mil vezes sota o arco,

Um chuveiro de setas despedindo. Gentil mancebo presumido e néscio, A quem a popular lisonja engana, Vaidoso pelo campo discorria,

Fazendo ostentação dos seus penachos. Impertinente e de família escura, Mas que tinha o favor dos santos padres, Contam, não sei se é certo, que o tivera

A estéril mãe por orações de Balda. Chamaram-no Baldetta por memória. Tinha um cavalo de manchada pele Mais vistoso que forte: a natureza

Um ameno jardim por todo o corpo Lhe debuxou, e era Jardim chamado. O padre na saudosa despedida Deu-lho em sinal de amor; e nele agora

Girando ao largo com incertos tiros Muitos feria, e a todos inquietava. Mas se então se cobriu de eterna infâmia, A glória tua foi, nobre Gerardo.

Tornava o índio jactancioso, quando Lhe sai Gerardo ao meio da carreira: Disparou-lhe a pistola, e fez-lhe a um tempo Co’reflexo do sol luzir a espada.

Só de vê-lo se assusta o índio, e fica Qual quem ouve o trovão e espera o raio. Treme, e o cavalo aos seus volta, e pendente A um lado e a outro de cair acena.

Deixando aqui e ali por todo o campo Entornadas as setas; pelas costas, Flutuavam as penas; e fugindo Soltas da mão as rédeas ondeavam.

Insta Gerardo, e quase o ferro o alcança, Quando Tatu Guaçú, o mais valente De quantos índios viu a nossa idade, Armado o peito da escamosa pele

De um jacaré disforme, que matara, Se atravessa diante. Intenta o nosso Com a outra pistola abrir caminho, E em vão o intenta: a verde-negra pele,

Que ao índio o largo peito orna e defende, Formou a natureza impenetrável. Co’a espada o fere no ombro e na cabeça E as penas corta, de que o campo espalha.

Separa os dous fortíssimos guerreiros A multidão dos nossos, que atropela Os índios fugitivos: tão depressa Cobrem o campo os mortos e os feridos,

E por nós a vitória se declara. Precipitadamente as armas deixam, Nem resistem mais tempo às espingardas. Vale-lhe a costumada ligeireza,

Debaixo lhe desaparece a terra E voam, que o temor aos pés põe asas, Clamando ao céu e encomendando a vida Às orações dos padres. Desta sorte

Talvez, em outro clima, quando soltam A branca neve eterna os velhos Alpes, Arrebata a corrente impetuosa Co’as choupanas o gado. Aflito e triste

Se salva o lavrador nos altos ramos, E vê levar-lhe a cheia os bois e o arado. Poucos índios no campo mais famosos, Servindo de reparo aos fugitivos,

Sustentam todo o peso da batalha, Apesar da fortuna. De uma parte Tatu-Guaçu mais forte na desgraça Já banhado em seu sangue pertendia

Por seu braço ele só pôr termo à guerra. Caitutu de outra parte altivo e forte Opunha o peito à fúria do inimigo, E servia de muro à sua gente.

Fez proezas Sepé naquele dia. Conhecido de todos, no perigo Mostrava descoberto o rosto e o peito Forçando os seus co’ exemplo e co’as palavras.

Já tinha despejado a aljava toda, E destro em atirar, e irado e forte Quantas setas da mão voar fazia Tantas na nossa gente ensanguentava.

Setas de novo agora recebia, Para dar outra vez princípio à guerra. Quando o ilustre espanhol que governava Montevidio, alegre, airoso e pronto

As rédeas volta ao rápido cavalo E por cima de mortos e feridos, Que lutavam co’a morte, o índio afronta. Sepé, que o viu, tinha tomado a lança

E atrás deitando a um tempo o corpo e o braço A despediu. Por entre o braço e o corpo Ao ligeiro espanhol o ferro passa: Rompe, sem fazer dano, a terra dura

E treme fora muito tempo a hástea. Mas de um golpe a Sepé na testa e peito Fere o governador, e as rédeas corta Ao cavalo feroz. Foge o cavalo,

E leva involuntário e ardendo em ira Por todo o campo a seu senhor; e ou fosse Que regada de sangue aos pés cedia A terra, ou que pusesse as mãos em falso,

Rodou sobre si mesmo, e na caída Lançou longe a Sepé. Rende-te, ou morre, Grita o governador; e o tape altivo, Sem responder, encurva o arco, e a seta

Despede, e nela lhe prepara a morte. Enganou-se esta vez. A seta um pouco Declina, e açouta o rosto a leve pluma. Não quis deixar o vencimento incerto

Por mais tempo o espanhol, e arrebatado Com a pistola lhe fez tiro aos peitos. Era pequeno o espaço, e fez o tiro No corpo desarmado estrago horrendo.

Viam-se dentro pelas rotas costas Palpitar as entranhas. Quis três vezes Levantar-se do chão: caiu três vezes, E os olhos já nadando em fria morte

Lhe cobriu sombra escura e férreo sono. Morto o grande Sepé, já não resistem As tímidas esquadras. Não conhece Leis o temor. Debalde está diante,

E anima os seus o rápido Cacambo. Tinha-se retirado da peleja Caitutu mal ferido; e do seu corpo Deixa Tatu-Guaçu por onde passa

Rios de sangue. Os outros mais valentes Ou eram mortos, ou feridos. Pende O ferro vencedor sobre os vencidos. Ao número, ao valor cede Cacambo:

Salva os índios que pode, e se retira.

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