Na vasta e curva abóbeda pintara A destra mão de artífice famoso, Em breve espaço, e Vilas, e Cidades, E Províncias e Reinos. No alto sólio
Estava dando leis ao mundo inteiro A Companhia. Os Cetros, e as Coroas, E as Tiaras, e as Púrpuras em torno Semeadas no chão. Tinha de um lado
Dádivas corruptoras: do outro lado Sobre os brancos altares suspendidos Agudos ferros, que gotejam sangue. Por esta mão ao pé dos altos muros
Um dos Henriques perde a vida e o reino. E cai por esta mão, oh céus! debalde Rodeado dos seus o outro Henrique, Delícia do seu povo e dos humanos.
Príncipes, o seu sangue é vossa ofensa. Novos crimes prepara o horrendo monstro. Armai o braço vingador: descreva Seus tortos sucos o luzente arado
Sobre o seu trono; nem aos tardos netos O lugar, em que foi, mostrar-se possa. Viam-se ao longe errantes e espalhados Pelo mundo os seus filhos ir lançando
Os fundamentos do esperado Império De dous em dous: ou sobre os coroados Montes do Tejo; ou nas remotas praias, Que habitam as pintadas Amazonas,
Por onde o rei das águas escumando Foge da estreita terra e insulta os mares. Ou no Ganges sagrado; ou nas escuras Nunca de humanos pés trilhadas serras
Aonde o Nilo tem, se é que tem, fonte. Com um gesto inocente aos pés do trono Via-se a Liberdade Americana Que arrastando enormíssimas cadeias
Suspira, e os olhos e a inclinada testa Nem levanta, de humilde e de medrosa. Tem diante riquíssimo tributo, Brilhante pedraria, e prata, e ouro,
Funesto preço por que compra os ferros. Ao longe o mar azul e as brancas velas Com estranhas divisas nas bandeiras Denotam que aspirava ao senhorio,
E da navegação e do comércio. Outro tempo, outro clima, outros costumes. Mais além tão diversa de si mesma, Vestida em larga roupa flutuante
Que distinguem barbáricos lavores, Respira no ar chinês o mole fasto De asiática pompa; e grave e lenta Permite aos bonzos, apesar de Roma,
Do seu Legislador o indigno culto. Aqui entrando no Japão fomenta Domésticas discórdias. Lá passeia No meio dos estragos, ostentando
Orvalhadas de sangue as negras roupas. Cá desterrada enfim dos ricos portos, Voltando a vista às terras que perdera, Quer pisar temerária e criminosa...
Oh céus! Que negro horror! Tinha ficado Imperfeita a pintura, e envolta em sombras. Tremeu a mão do artífice ao fingi-la, E desmaiaram no pincel as cores.
Da parte oposta, nas soberbas praias Da rica Londres trágica e funesta, Ensanguentado o Tâmega esmorece. Vendo a conjuração pérfida e negra
Que se prepara ao crime; e intenta e espera Erguer aos céus nos inflamados ombros E espalhar pelas nuvens denegridos Todos os grandes e a famosa sala.
Por entre os troncos de umas plantas negras, Por obra sua, viam-se arrastados Às ardentes areias africanas O valor e alta glória portuguesa.
Ai mal aconselhado quanto forte, Generoso Mancebo! eternos lutos Preparas à chorosa Lusitânia. Desejado dos teus, a incertos climas
Vás mendigar a morte e a sepultura. Já satisfeitos do fatal desígnio, Por mão de um dos Felipes afogavam Nos abismos do mar e emudeciam
Queixosas línguas e sagradas bocas Em que ainda se ouvia a voz da pátria. Crescia o seu poder e se firmava Entre surdas vinganças. Ao mar largo
Lança do profanado oculto seio O irado Tejo os frios nadadores. E deixa o barco e foge para a praia O pescador que atônito recolhe
Na longa rede o pálido cadáver Privado de sepulcro. Enquanto os nossos Apascentam a vista na pintura, Nova empresa e outro gênero de guerra
Em si resolve o General famoso. Apenas esperou que ao sol brilhante Desse as costas de todo a opaca terra, Precipitou a marcha e no outro povo
Foi sorprender os índios. O Cruzeiro, Constelação dos europeus não vista, As horas declinando lhe assinala. A corada manhã serena e pura
Começava a bordar nos horizontes O céu de brancas nuvens povoado Quando, abertas as portas, se descobrem Em trajes de caminho ambos os padres,
Que mansamente do lugar fugiam, Desamparando os miseráveis índios Depois de expostos ao furor das armas. Lobo voraz que vai na sombra escura
Meditando traições ao manso gado, Perseguido dos cães, e descoberto Não arde em tanta cólera, como ardem Balda e Tedeu. A soldadesca alegre
Cerca em roda o fleumático Patusca, Que próvido de longe os acompanha E mal se move no jumento tardo. Pendem-se dos arções de um lado e de outro
Os paios saborosos e os vermelhos Presuntos europeus; e a tiracolo, Inseparável companheira antiga De seus caminhos, a borracha pende.
Entra no povo e ao templo se encaminha O invicto Andrade; e generoso, entanto, Reprime a militar licença, e a todos Co’a grande sombra ampara: alegre e brando
No meio da vitória. Em roda o cercam (Nem se enganaram) procurando abrigo Chorosas mães, e filhos inocentes, E curvos pais e tímidas donzelas.
Sossegado o tumulto e conhecidas As vis astúcias de Tedeu e Balda, Cai a infame República por terra. Aos pés do General as toscas armas
Já tem deposto o rude Americano, Que reconhece as ordens e se humilha, E a imagem do seu rei prostrado adora. Serás lido, Uraguai. Cubra os meus olhos
Embora um dia a escura noite eterna. Tu vive e goza a luz serena e pura. Vai aos bosques de Arcádia: e não receies Chegar desconhecido àquela areia.
Ali de fresco entre as sombrias murtas Urna triste a Mireo não todo encerra. Leva de estranho céu, sobre ela espalha Co’a peregrina mão bárbaras flores.
E busca o sucessor, que te encaminhe Ao teu lugar, que há muito que te espera.
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