Salvas as tropas do noturno incêndio, Aos povos se avizinha o grande Andrade, Depois de afugentar os índios fortes Que a subida dos montes defendiam,
E rotos muitas vezes e espalhados Os tapes cavaleiros, que arremessam Duas causas de morte em uma lança E em largo giro todo o campo escrevem.
Que negue agora a pérfida calúnia Que se ensinava aos bárbaros gentios A disciplina militar, e negue Que mãos traidoras a distantes povos
Por ásperos desertos conduziam O pó sulfúreo, e as sibilantes balas E o bronze, que rugia nos seus muros. Tu que viste e pisaste, ó Blasco insigne,
Todo aquele país, tu só pudeste, Co’a mão que dirigia o ataque horrendo E aplanava os caminhos à vitória, Descrever ao teu rei o sítio e as armas,
E os ódios, e o furor, e a incrível guerra. Pisaram finalmente os altos riscos De escalvada montanha, que os infernos Co’o peso oprime e a testa altiva esconde
Na região que não perturba o vento. Qual vê quem foge à terra pouco a pouco Ir crescendo o horizonte, que se encurva, Até que com os céus o mar confina,
Nem tem à vista mais que o ar e as ondas: Assim quem olha do escarpado cume Não vê mais do que o céu, que o mais lhe encobre A tarda e fria névoa, escura e densa.
Mas quando o Sol de lá do eterno e fixo Purpúreo encosto de dourado assento, Co’a criadora mão desfaz e corre O véu cinzento de ondeadas nuvens,
Que alegre cena para os olhos! Podem Daquela altura, por espaço imenso, Ver as longas campinas retalhadas De trêmulos ribeiros, claras fontes
E lagos cristalinos, onde molha As leves asas o lascivo vento. Engraçados outeiros, fundos vales E arvoredos copados e confusos,
Verde teatro, onde se admira quanto Produziu a supérflua Natureza. A terra sofredora de cultura Mostra o rasgado seio; e as várias plantas,
Dando as mãos entre si, tecem compridas Ruas, por onde a vista saudosa Se estende e perde. O vagaroso gado Mal se move no campo, e se divisam
Por entre as sombras da verdura, ao longe, As casas branquejando e os altos templos. Ajuntavam-se os índios entretanto No lugar mais vizinho, onde o bom padre
Queria dar Lindóia por esposa Ao seu Baldetta, e segurar-lhe o posto E a régia autoridade de Cacambo. Estão patentes as douradas portas
Do grande templo, e na vizinha praça Se vão dispondo de uma e de outra banda As vistosas esquadras diferentes. Co’a chata frente de urucu tingida,
Vinha o índio Cobé disforme e feio, Que sustenta nas mãos pesada maça, Com que abate no campo os inimigos Como abate a seara o rijo vento.
Traz consigo os salvages da montanha, Que comem os seus mortos; nem consentem Que jamais lhes esconda a dura terra No seu avaro seio o frio corpo
Do doce pai, ou suspirado amigo. Foi o segundo, que de si fez mostra, O mancebo Pindó, que sucedera A Sepé no lugar: inda em memória
Do não vingado irmão, que tanto amava, Leva negros penachos na cabeça. São vermelhas as outras penas todas, Cor que Sepé usara sempre em guerra.
Vão com eles os seus tapes, que se afrontam É que têm por injúria morrer velhos. Segue-se Caitutu, de régio sangue E de Lindóia irmão. Não muito fortes
São os que ele conduz; mas são tão destros No exercício da frecha que arrebatam Ao verde papagaio o curvo bico, Voando pelo ar. Nem dos seus tiros
O peixe prateado está seguro No fundo do ribeiro. Vinham logo Alegres guaranis de amável gesto. Esta foi de Cacambo a esquadra antiga.
Penas da cor do céu trazem vestidas, Com cintas amarelas: e Baldetta Desvanecido a bela esquadra ordena No seu Jardim: até o meio a lança
Pintada de vermelho, e a testa e o corpo Todo coberto de amarelas plumas. Pendente a rica espada de Cacambo, E pelos peitos ao través lançada
Por cima do ombro esquerdo a verde faixa De donde ao lado oposto a aljava desce. Num cavalo da cor da noite escura Entrou na grande praça derradeiro
Tatu-Guaçu feroz, e vem guiando Tropel confuso de cavaleria, Que combate desordenadamente. Trazem lanças nas mãos, e lhes defendem
Peles de monstros os seguros peitos. Revia-se em Baldetta o santo padre; E fazendo profunda reverência, Fora da grande porta, recebia
O esperado Tedeu ativo e pronto, A quem acompanhava vagaroso Com as chaves no cinto o Irmão Patusca, De pesada, enormíssima barriga.
Jamais a este o som da dura guerra Tinha tirado as horas do descanso. De indulgente moral e brando peito, Que penetrado da fraqueza humana
Sofre em paz as delícias desta vida, Tais e quais no-las dão. Gosta das cousas Porque gosta, e contenta-se do efeito E nem sabe nem quer saber as causas.
Ainda que talvez, em falta de outro, Com grosseiras ações o povo exorte, Gritando sempre, e sempre repetindo, Que do bom Pai Adão a triste raça
Por degraus degenera, e que este mundo Piorando envelhece. Não faltava, Para se dar princípio à estranha festa, Mais que Lindóia. Há muito lhe preparam
Todas de brancas penas revestidas Festões de flores as gentis donzelas. Cansados de esperar, ao seu retiro Vão muitos impacientes a buscá-la.
Estes de crespa Tanajura aprendem Que entrara no jardim triste e chorosa, Sem consentir que alguém a acompanhasse. Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu, que deixa os seus no campo; E a irmã por entre as sombras do arvoredo Busca co’a vista, e teme de encontrá-la. Entram enfim na mais remota e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro, Onde ao pé de uma lapa cavernosa Cobre uma rouca fonte, que murmura, Curva latada de jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste, Cansada de viver, tinha escolhido Para morrer a mísera Lindóia. Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores, Tinha a face na mão, e a mão no tronco De um fúnebre cipreste, que espalhava Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo Verde serpente, e lhe passeia, e cinge Pescoço e braços, e lhe lambe o seio. Fogem de a ver assim, sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe; E nem se atrevem a chamá-la, e temem Que desperte assustada, e irrite o monstro, E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme Do perigo da irmã, sem mais demora Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode O arco e faz voar a aguda seta, Que toca o peito de Lindóia, e fere A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco. Açouta o campo co’a ligeira cauda O irado monstro, e em tortuosos giros Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno. Leva nos braços a infeliz Lindóia O desgraçado irmão, que ao despertá-la Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido Pelo dente sutil o brando peito. Os olhos, em que Amor reinava, um dia, Cheios de morte; e muda aquela língua
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes Contou a larga história de seus males. Nos olhos Caitutu não sofre o pranto, E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta De sua mão já trêmula gravado O alheio crime e a voluntária morte. E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo. Inda conserva o pálido semblante Um não sei quê de magoado e triste, Que os corações mais duros enternece
Tanto era bela no seu rosto a morte! Indiferente admira o caso acerbo Da estranha novidade ali trazido O duro Balda; e os índios, que se achavam,
Corre co’a vista e os ânimos observa. Quando pode o temor! Secou-se a um tempo Em mais de um rosto o pranto; e em mais de um peito Morreram sufocados os suspiros.
Ficou desamparada na espessura, E exposta às feras e às famintas aves, Sem que alguém se atrevesse a honrar seu corpo De poucas flores e piedosa terra.
Fastosa egípcia, que o maior triunfo Temeste honrar do vencedor Latino, Se desceste inda livre ao escuro reino Foi vaidosa talvez da imaginada
Bárbara pompa do real sepulcro. Amável indiana, eu te prometo Que em breve a iníqua pátria envolta em chamas Te sirva de urna, e que misture e leve
A tua e a sua cinza o irado vento. Confusamente murmurava entanto Do caso atroz a lastimada gente. Dizem que Tanajura lhes pintara
Suave aquele gênero de morte, E talvez lhe mostrasse o sítio e os meios. Balda, que há muito espera o tempo e o modo De alta vingança, e encobre a dor no peito,
Excita os povos a exemplar castigo Na desgraçada velha. Alegre em roda Se ajunta a petulante mocidade Co’as armas que o acaso lhe oferece.
Mas neste tempo um índio pelas ruas Com gesto espavorido vem gritando, Soltos e arrepiados os cabelos: Fugi, fugi da mal segura terra,
Que estão já sobre nós os inimigos. Eu mesmo os vi, que descem do alto monte, E vêm cobrindo os campos; e se ainda Vivo chego a trazer-vos a notícia,
Aos meus ligeiros pés a vida eu devo. Debalde nos expomos neste sítio, Diz o ativo Tedeu: melhor conselho É ajuntar as tropas no outro povo:
Perca-se o mais, salvemos a cabeça. Embora seja assim: faça-se em tudo A vontade do céu; mas entretanto Vejam os contumazes inimigos
Que não têm que esperar de nós despojos, Falte-lhe a melhor parte ao seu triunfo. Assim discorre Balda; e entanto ordena Que todas as esquadras se retirem,
Dando as casas primeiro ao fogo, e o templo. Parte, deixando atada a triste velha Dentro de uma choupana, e vingativo Quis que por ela começasse o incêndio.
Ouviam-se de longe os altos gritos Da miserável Tanajura. Aos ares Vão globos espessíssimos de fumo, Que deixa ensanguentada a luz do dia.
Com as grossas camáldulas à porta, Devoto e penitente os esperava O Irmão Patusca, que ao rumor primeiro Tinha sido o mais pronto a pôr-se em salvo
E a desertar da perigosa terra. Por mais que o nosso General se apresse, Não acha mais que as cinzas inda quentes E um deserto onde há pouco era a cidade.
Tinham ardido as míseras choupanas Dos pobres índios, e no chão caídos Fumegavam os nobres edifícios, Deliciosa habitação dos padres.
Entram no grande templo e vêem por terra As imagens sagradas. O áureo trono, O trono em que se adora um Deus imenso Que o sofre, e não castiga os temerários,
Em pedaços no chão. Voltava os olhos Turbado o General: aquela vista Lhe encheu o peito de ira, e os olhos de água. Em roda os seus fortíssimos guerreiros
Admiram, espalhados, a grandeza Do rico templo e os desmedidos arcos, As bases das firmíssimas colunas E os vultos animados, que respiram
Na abóbeda o artífice famoso Pintara... mas que intento! as roucas vozes Seguir não podem do pincel os rasgos. Gênio da inculta América, que inspiras
A meu peito o furor que me transporta, Tu me levanta nas seguras asas. Serás em paga ouvido no meu canto. E te prometo que pendente um dia
Adorne a minha lira os teus altares.
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