Skip to content
1884–1914

VIII

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Em torno a mim, nesta hora, estriges voam, E o cemitério, em que eu entrei adrede, Dá-me a impressão de um boulevard que fede, Pela degradação dos que o povoam.

Quanta gente, roubada à humana coorte Morre de fome, sobre a palha espessa, Sem ter, como Ugolino, uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte;

E nua, após baixar ao caos budista, Vem para aqui, nos braços de um canalha, Porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista!

Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos, Ao pegar num milhão de miolos gastos, Todos os meus cabelos se arrepiaram.

Os evolucionismos benfeitores Que por entre os cadáveres caminham, Iguais a irmãs de caridade, vinham Com a podridão dar de comer às flores!

Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes, Num prato de hospital, cheio de vermes, Todos os animais que apodreciam!

É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite, Comendo carne humana, à meia-noite!

Com uma ilimitadíssima tristeza, Na impaciência do estômago vazio, Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza!

E hirto, a camisa suada, a alma aos arrancos, Vendo passar com as túnicas obscuras, As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos;

Pisando, como quem salta, entre fardos, Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues, ao clarão de alguns archotes, À sodomia indigna dos moscardos;

Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que, transgredindo a igualitária regra Da Natureza, atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas!

Na evolução de minha dor grotesca, Eu mendigava aos vermes insubmissos Como indenização dos meus serviços, O benefício de uma cova fresca.

Manhã. E eis-me a absorver a luz de fora, Como o íncola do pólo ártico, às vezes, Absorve, após a noite de seis meses, Os raios caloríficos da aurora.

Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas, No frio matador das madrugadas, Por sobre o coração dos que sofriam!

Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito, Proporcionando-me o prazer inédito, De quem possui um sol dentro de casa.

Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam, trazendo-me ao sol claro, À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços!

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
VIII · Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos · Poetry Cove