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1884–1914

VERSOS DE AMOR

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Parece muito doce aquela cana. Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda! O amor, poeta, é como a cana azeda, A toda a boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência, E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo, Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo, Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo Mas certo, o egoísta amor este é que acinte Amas, oposto a mim. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas. Diverso é, pois, o ponto outro de vista Consoante o qual, observo o amor, do egoísta Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando, É Espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes, Imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante, atenta a orelha cauta, Como Mársias — o inventor da flauta — Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono, que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo, Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última calma Meu podre coração roto não role, Integralmente desfibrado e mole, Como um saco vazio dentro d’alma!

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