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1884–1914

VÊNUS MORTA

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero... — Lótus diluído n’alma dum cipreste!

Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda, Rola a violeta santa dos teus olhos, — Tufos de goivo em conchas de esmeralda.

No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços, Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços.

E como um nume de pesar, plangente, Guarda a saudade que levou do Marne, Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria — a Carne!

Sonho abraçar-te, pálida camélia, Mas neste sonho, langue e seminua, Pareces reviver a antiga Ofélia, À opalescência trágica da lua!

Tu, oh! Quimera, de reverberantes E rubras asas de heliantos pulcros, Crava-lhe n’alma o tirso das bacantes, Brande-lhe n’alma o frio dos sepulcros.

Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura, Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura.

E que ela suba na serena gaza Dos mistérios doirados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus!

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