Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja, ao meio-dia. Trinta e seis graus à sombra. O éter possuía A térmica violência de um braseiro.
Dentro, a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias, No horror da metalúrgica batalha
O ferro chiava e ria! Ria, num sardonismo doloroso De ingênita amargura, Da qual, bruta, provinha
Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha!
Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza, Onde a Matéria avança E a Substância caminha
Aceleradamente para o gozo Da integração completa, Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir.
E eu nervoso, irritado, Quase com febre, a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado
Sofrer, berrar, tinir, Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado
Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor, Cujo negror profundo Astro nenhum exorna
Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era, erguido do pó, Inopinadamente
Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte, A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte,
Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geleia informe
No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão, — O ígneo jato vulcânico Que, atravessando a absconsa cripta enorme
De minha cavernosa subconsciência, Punha em clarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos,
Agarrados à inércia do Inorgânico, Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia, afinal,
Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante, Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos
Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. A ouvir todo esse cosmos potencial, Preso aos mineralógicos abismos
Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica
Num estridor de estrago Executava, em lúgubre A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago
De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio
De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez do que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada
Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo!
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