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1884–1914

NUMA FORJA

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja, ao meio-dia. Trinta e seis graus à sombra. O éter possuía A térmica violência de um braseiro.

Dentro, a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias, No horror da metalúrgica batalha

O ferro chiava e ria! Ria, num sardonismo doloroso De ingênita amargura, Da qual, bruta, provinha

Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha!

Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza, Onde a Matéria avança E a Substância caminha

Aceleradamente para o gozo Da integração completa, Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir.

E eu nervoso, irritado, Quase com febre, a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado

Sofrer, berrar, tinir, Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado

Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor, Cujo negror profundo Astro nenhum exorna

Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era, erguido do pó, Inopinadamente

Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte, A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte,

Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geleia informe

No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão, — O ígneo jato vulcânico Que, atravessando a absconsa cripta enorme

De minha cavernosa subconsciência, Punha em clarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos,

Agarrados à inércia do Inorgânico, Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia, afinal,

Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante, Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos

Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. A ouvir todo esse cosmos potencial, Preso aos mineralógicos abismos

Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica

Num estridor de estrago Executava, em lúgubre A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago

De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio

De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez do que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada

Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo!

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