Skip to content
1884–1914

NONEVAR (1910)

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Alma da Filipeia, ignorada e esquecida Na mais alta expressão dinâmica da Vida. Sangue, estuando, a alardear rubros glóbulos bons, Surge hoje o “Nonevar” de vossas tradições

— Esta privilegiada e grande boca de ouro, De onde jorra a ilusão que mata a água do choro Na nascente infeliz das fontes lacrimais. Não sou como os papéis que, com raiva, rasgais,

— Condensadores maus de obsoletas ideias, Onde, lúgubres, vêm todas as odisseias Da dor hereditária e negra de cada um. O lírico David e o assombroso Naum

Ficam diante de mim agachados colossos! A energia motriz de meus músculos moços Lembra o Vândalo e lembra o Alano medieval. Às vezes, estrangulo a rede neuronial —

De horrendos harpagões, de espírito já pretos Traçando-lhes visões, pondo-lhes esqueletos No fundo da consciência infecionada e má. Mas, para vós eu sou o anacreôntico Eloá

De Alfredo de Vigny — o rouxinol da França. Pareço muita vez uma ave muito mansa; —Helênica ave ideal, apolínica flor Oriunda de qualquer semente superior

Plantada pelas mãos magníficas de Safo. íncola íntimo do amplo empíreo ático, abafo Nesta terra de poeira e de implacável sol. Desejo com veemência ególatra, em meu prol,

Comer neve, beber ânforas de falerno E num dia de Abril, dormir o sono eterno No berço maternal de vosso coração. Oh! abençoado seja o estado de incoesão

Da matéria inicial de onde, um dia, radiante Nasceu, como de um deus, a célula gigante — Que fez a majestade enorme de meu ser! Mefistófeles cruel, maligno e atro, a morder,

Cravando a aspérrima unha incisiva na gleba, Alucinadamente, a irmanar-se com a ameba, Arranhando, a tombar e a erguer-se a um tempo só, Com a língua inchada e horrenda estirada no pó

— Expressão modelar de energúmeno exausto, Toda a tragicomédia autêntica do Fausto E as medonhas criações diabólicas da Fé E o Satan miltoniano e o diabo de Grasset

E os ritos ancestrais de Lao-Tseu e Mafoma, Tudo isto, na coerência integral de uma soma São microcosmos vis, comparados a mim. Dançam agora no ar visagens de cetim.

Sou eu que, reduzido a um flóculo de neve Imponderável como a molécula leve Que a sensação visual não pode descobrir Na ara de vossas mãos, venho ansioso cair!

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
NONEVAR (1910) · Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos · Poetry Cove