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1884–1914

NONEVAR (1909)

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Padroeira soberana: Eis-me, hoje, em vossa casa Outra vez. Outra vez um fragmento da ampla asa Materna, com que o kchátria e os sudras protegeis, Ajoelhado, eu vos peço... Eu vos peço, outra vez,

Com a cabeça oprimida e triste dos que pensam, A neve tutelar e a bondade da bênção Que em minha trajetória hão de sempre cair! Represento, talvez, mais do que o Desatir

A consubstanciação dos tradicionalismos, O princípio de luz que esclarece os abismos, O facho acidental caído sobre o caos, O fogo redentor e útil que os germens maus

Consome, com a eficácia especial duma esponja. Sem saber declinar os verbos da lisonja, Eu sou o Nonevar do vosso coração, — O livro ubiquitário e único de oração,

Em que as virgens do mundo, à hora da tarde, rezam, Quando a Saudade chega, e os vegetais se enfezam, E elegíaca, ante o astro ígneo que já se pôs Estruge a irracional fonética dos bois

Numa canção de instinto, ainda mal educada, Que a gente ouve, a tremer, com a alma muito apertada, E uma vontade enorme e íntima de morrer. Virgens da Paraíba, eu vou aparecer,

— Ênea tiorba, a anunciar, alto e por toda parte A eternidade do Eu, e a independência da Arte; Universalizando a emoção singular, Invariável no tempo, hei de sempre vibrar

Na estática fatal das emoções humanas. Os gregos com a Odisseia e os hindus com os Puranas, A máxima figura antiga de Moisés, A Idade Média com todos os menestréis

E todas as canções que a sua noite encerra, Tudo que tem erguido e engrandecido a terra, A lira de Saul e os salmos de David: Tudo isto, como um Deus, eu trago para aqui.

Sou a revelação do nôumeno absoluto. Somente eu sei, somente eu conheço, eu perscruto O mistério do tato e o segredo do som. Tenho a penetração de Edouard Pailleron

Que para devassar toda a alma feminina Nunca necessitou de intervenção divina E artifícios brutais de jogral ou segrel. Tocaram minha fronte os dedos de Daniel.

E eu, profeta, com a unção desses sagrados dedos, Agarro a Natureza e lhe arranco os segredos Um por um, como quem uma autópsia faz. Homero me emprestou seus versos imortais,

Destarte, irmão da musa hierática de Homero Assombrando Voltaire e enxotando Lutero Sem a Maia falaz dos antigos hindus, Vendo na própria treva a gênese da luz,

Abraçado com o Grand-Être da Humanidade, Cravando o iatagã terrível da verdade Na fictícia Omoroka ancestral dos Caldeus Igual ao coração legítimo de Deus,

A que o Universo inteiro o seu império empresta, Foi assim que hoje eu vim cair na vossa festa Como a neve que cai às vezes numa flor... Adeus, Nossa Senhora! Adeus, Nosso Senhor!

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