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1884–1914

NONEVAR (1908)

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Senhora Virgem-Mãe — Surjo hoje em vossa festa Como na Ásia surgiu outrora o Zend-Avesta Que achou intérprete em Anquetil-Duperron. Sei vibrar toda a escala hierárquica do som,

Transmitindo minh’alma aos dedos dos pianistas. À ciência da imortal grei dos gimnosofistas Alio o alto saber da indiana Trimourti. Maior que Michelet, sou Rabelais que ri

E arrebenta com o riso a máscara malvada Com que Deus achincalha a geração inchada Dos que trazem no sangue a herança de algum mal. Gozo, além de tudo isto, a virtude especial

Da fluidificação imponderabilíssima Que reduz a óleo suave e a suave água tenuíssima A substância malsã da agra injúria mordaz. Tal um ferro, batendo o osso dos animais

Com a força da impulsão, depressa o pulveriza, Igualmente a este sol que as plantas carboniza E ao rígido rigor da xantofila má Reduz os vegetais receptáculos a

Vírgulas de carvão, glóbulos graniformes, Eu reduzo também as saudades enormes A fumaça, a farelo e a outras fragmentações... Eu venho encher de luz os vossos corações:

Igual ou superior a Zermane-Akerene, Substituindo o ódio infrene e a atra diatribe infrene Pela necessidade altruística de amar, Virgens de minha terra, eu sou o Nonevar.

— Aquele rouxinol feito de sentimento Que nunca precisou de diabo de instrumento E nem de outra inferior coadjuvação qualquer, Para cantar o Amor e as graças da Mulher.

Filha única do Céu, Mulher Paraibana, Eu celebro nesta hora a dignidade humana, Que eternamente em vós se consubstanciou. Vós sois Nossa Senhora em pedaços, e eu sou

A neve que caiu por sobre esta cidade Para simbolizar a vossa virgindade, E servir de tapete à flor dos vossos pés. Não receeis, pois, de mim, as broncas frases cruéis

Que, pronunciadas, ao fulgor destas gambiarras Caem sobre o coração como oitocentas barras De bronze bruto ou como ágil tigre, a morder Deixa na carnação mortal de cada ser,

Toda perpetuidade infame de uma nódoa. A legião de homens maus — azorrago-a, incomodo-a Com o hórrido aspecto dum energúmeno a rir, A palavra que vai dos meus lábios sair

E a palavra que sai da boca de um gigante E na onda ascensional da acústica triunfante Galga num jato o ar alto e vai bater no Céu. Burgueses! Ante mim, tirai vosso chapéu.

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