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1884–1914

NOITE DE UM VISIONÁRIO

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Número cento e três. Rua Direita. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita!

— “Que esta alucinação tátil não cresça!” — Dizia; e erguia, oh! céu, alto, por ver-vos, Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça.

É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus, e absorve em cada viagem Minh’alma — este sombrio personagem Do drama panteístico da treva!

Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo.

Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia, banhava minhas tíbias, E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias, Cortando o melanismo da epiderme.

Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma, Que forma a coerência do ser vivo.

E eu saí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício, Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões, num canto de carroça!

Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias, Como um cara, recebendo injúrias, Recebiam os cuspos do desprezo.

A essa hora, nas telúrias reservas, O reino mineral americano Dormia, sob os pés do orgulho humano, E a cimalha minúscula das ervas.

E não haver quem, íntegra, lhe entregue, Com os ligamentos glóticos precisos, A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue!

Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda, úmida e fresca, A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos.

As vegetalidades subalternas Que os serenos noturnos orvalhavam, Pela alta frieza intrínseca, lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas.

E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam, com a símplice sarcode, O vibrião, o ancilóstomo, o colpode E outros irmãos legítimos da ameba!

E todas essas formas que Deus lança No Cosmos, me pediam, com o ar horrível, Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança!

A cidade exalava um podre báfio: Os anúncios das casas de comércio, Mais tristes que as elégias de Propércio, Pareciam talvez meu epitáfio.

O motor teleológico da Vida Parara! Agora, em diástoles de guerra, Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida.

A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos, Com a abundância de um geyser deletério.

Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta, Onde minhas moléculas sofriam.

Um necrófilo mau forçava as lousas E eu — coetâneo do horrendo cataclismo — Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas!

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